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João Botelho: "Há mais cinema hoje nas séries americanas."

Manoel de Oliveira e João Botelho durante a rodagem de Conversa Acabada (João Botelho, 1981)

A propósito do seu mais recente filme, O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, o C7nema entrevistou João Botelho (Os Maias, Um Adeus Português), o realizador por trás da homenagem ao que é considerado o maior dos cineastas portugueses. De histórias atrevidas aos dias que sucederam à sua morte, Botelho fala da amizade de longos anos que manteve com o Mestre, bem como o que o levou a seguir a carreira de cinema.

O senhor abandonou os estudos de Engenharia Mecânica em Coimbra para ingressar na Escola Superior de Teatro e Cinema. O que o levou a trocar o Binómio de Newton pelo cinematógrafo dos Lumiére?

(Risos) Eu acho que o que muda a vida das pessoas são catástrofes, acontecimentos. Tive a sorte de apanhar o 25 de Abril. Não pensava em fazer filmes. Começou com as Praxes de Coimbra, uns “chatos do carago”. Não deixavam sair às 6 da tarde, rapavam os cabelos, batiam e não sei quê. Eu fugia daquilo e ia ver um filme todas as noites. Comecei a ver tudo e depois fiquei viciado. O meu pai não tinha dinheiro e eu ia à boleia pela Europa, entrava à socapa em fábricas e restaurantes e gastava o dinheiro todo na Cinemateca em Paris. Via 6 filmes por dia. Quando se acabava o dinheiro, vinha com as camionetas dos emigrantes para baixo. Fiquei viciado no cinema. Em Coimbra tive um Cineclube, quando fui para o Porto encontrei mais pessoas como eu. Víamos 10 vezes o mesmo filme e debatíamo-los. E depois, estava a acabar o curso de Engenharia e andava a dar aulas, quando se deu o 25 de Abril. Então disse, “Que se lixe a Engenharia, vou mas é para Cinema.”. Fui para a Escola de Cinema em Lisboa muito tarde, tinha 25 anos e os meus colegas 20. Era um período de agitação.

Entretanto, eu e uns amigos fizemos uma revista chamada “M”, onde o primeiro volume era dedicado ao Manoel de Oliveira. Nesta altura, ele andava numa aflição para acabar o Amor de Perdição (1979) na Tobis, com a equipa já farta dele e do filme. Aparecemos por lá e a partir daí ficámos amigos. Ele adorava falar de cinema. Podia ser um vaidoso em público, mas à mesa do café era brilhante. Pegava num papel e num lápis e desenhava os planos, eram lições de cinema para toda a vida. E depois começou-me a dar conselhos. Não como discípulo, mas como alguém que gosta de cinema. Nunca me disse “Veja os meus filmes e cite-me”, mas apenas “Faça aquilo em que acreditar.”; “Não ceda a ninguém. Ceda para arranjar dinheiro, ceda para vender o filme, mas quando filmar, nunca ceda!”. Foram lições de estética e ética que me marcaram para sempre. “Se não há dinheiro para filmar a carruagem, filma a roda. Mas filma bem a roda.”; “O cinema não são as histórias, mas a maneira de as filmar.”; “Recusa o realismo, mostra que isto é tudo mentira.”; “A verdade é o que as pessoas sentem quando vêm a mentira.”. A minha verdadeira escola foram as conversas de café com o Oliveira.

Francisca (Manoel de Oliveira, 1981)

Apesar disso, aprendi muito na Escola de Cinema durante 3 semanas, com o Jacques Aumont (antigo crítico dos Cahiers du Cinema e autor do livro O Cinema e a Encenação, editado pela Texto & Grafia) que nos levou para a mesa de montagem, onde falámos da linha geral do Eisenstein, os planos, as diagonais, as linhas de força e a elipse. Começámos a ter práticas-teóricas com técnicos de sons para hipotéticos filmes, onde construíamos histórias só com sons, em que ninguém falava e só se ouviam ruídos. Contar narrativas doutra maneira. Tive a sorte de apanhar momentos febris neste país. Eu nunca tive um emprego, só dei aulas durante 3 meses, o que é um luxo! O Oliveira sofreu mais do que eu, apesar de ser 10 vezes mais rico. Não tive um intervalo de 12 anos entre o primeiro e segundo filme, nem de 15 entre o segundo e o terceiro, como ele. Ele deixou muitos filmes para trás. E tive o privilégio de passar pelas transformações todas deste país: a Revolução dos Costumes, o 25 de Abril, vivi no Salazar, no Marcelo Caetano, tive sorte! Hoje em dia o que acontece aqui é de um consumo individual. Não vemos os jovens a queixarem-se por coisas coletivas, mas sim para não pagarem propinas para beber mais uns copos.

(Risos)

Mas é verdade, não há aquele radicalismo do coletivo e as pessoas foram transformadas em consumidores individuais. Há miúdos brilhantes, mas esse saber do brilhantismo não é transmitido. E é terrível, porque é uma coisa de fechamento e não de abertura. O cinema contemporâneo, apesar de haver coisas brilhantes, é infanto-juvenil. O que domina, não quer dizer que haja outros. Antes íamos ao cinema e víamos 10 vezes o mesmo filme e discutíamos o cinema, às vezes um plano durante uma semana. Hoje não, quando gostam dizem “É giro” e vão a outro. Há 3000 planos e não se vê nenhum, há 5000 efeitos sonoros e não se ouve nada. Come-se, bebe-se… Os gajos da Lusomundo ganham 7€ por bilhete: 2€ para o exibidor, 2€ para o distribuidor e não sei que mais. Mas com a Coca-Cola ganham 7€! E na pipoca! Portanto, querem filmes onde se possa comer e beber. É o que é. Há mais cinema hoje nas séries americanas. Bons argumentistas, bons atores, porque os adultos deixaram de sair. 90% das pessoas que ocupam as salas de cinema no mundo inteiro são miúdos de 4 anos com que os pais vêem desenhos animados, até aos 17/18. Depois disso já não vêem. Descarregam-nos, vão às televisões, aos computadores…

Mas não acha que as séries estão num estilo pré-formatado?

Não é bem. A 1ª série do True Detective tem boas ideias de cinema ou mil episódios d’Os Sopranos, onde não se passava absolutamente nada e tinha belos planos gerais ou mesmo o Mad Men. Têm ideias mais perto do cinema no modo de narrar, no plano, nas luzes, sombras e composição. Não estou a querer dizer que é um cinema revolucionário ou vanguardista, mas é melhor que os filmes que passam. Costumo dizer que o Oliveira levou o cinema todo para o Céu e deixou cá a porcaria dos filmes. O que domina neles hoje são os temas, as situações, o escândalo, mas não é o Cinema. Não há nenhum filme hoje que contenha a qualidade dos do Hitchcock, do Ford ou do Renoir. Hoje há cineastas americanos notáveis, mas já nem exibem, vão logo para a Netflix ou para sítios com condições precárias ou para a televisão.

João Botelho

Em Portugal mostram-se filmes portugueses e americanos, em Espanha filmes espanhóis e americanos, em França filmes franceses e americanos. Há uns que ainda conseguem ser exibidos, mas a maioria vemos nas Festas do Cinema Francês, Italiano, Brasileiro. Os americanos dominam os mercados todos. Vão tentar agora enfrentar a única indústria que lhes faz frente, que é Bollywood: conseguiram um acordo com o governo indiano para dobrar os filmes em hindu, porque 90% das pessoas que vão ao cinema na Índia são analfabetos, que é para dominar aquele mercado também. Porque há milhões de pessoas lá a irem ao cinema. Eles fazem filmes tão caros que precisam do mundo inteiro. Não digo que não são divertidos, mas esmagam o resto. Costumo dizer que foi o Tubarão (1975), que é um bom filme, que abriu aquela bocarra e engoliu as minorias todas. Foi aí que se percebeu que era necessário fazer outro tipo de filmes.

Quando eu andava na casa dos 20, via mais filmes europeus que americanos: Fellini, Rossellini, Visconti, Godard, Truffaut… vinham para aqui para as salas! Hoje não há isso. Foi criada uma crise enorme, vieram os jovens das universidades e criaram o entretenimento. E fechou-se o ciclo. O cinema começou a ser mostrado em feiras, como uma atração de circo, e acabou nos centros comerciais, como uma atração de circo! Quantas salas há em Lisboa? Há o Ideal que tem pouca gente e o Nimas. O resto está tudo nos centros comerciais, onde se mostram os filmes em que se come e bebe, porque rendem mais.

E depois há esta noção de que o sucesso está em quem aparece nos jornais ou na televisão. Dizem “Ah, eu vi-o na televisão.” Mas nunca viram os filmes. Como o caso da Revista Caras e do Oliveira (onde ganhou 4 Globos de Ouro, atribuídos por um sistema de votação dos leitores da revista). Um dos Globos que recebeu teve 200.000 votos, mas o filme só fez 8.000 espectadores! Premiaram-no porque era o gajo mais velho da Terra a filmar, não pelas obras.

Leonor Silveira e Miguel Nunes em O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu

Ele teve o privilégio de iniciar com 70 anos uma carreira fulgurante. E dizia sempre que ia ser o último filme. Com o Memórias e Confissões é um caso engraçado. Eu vi-o na altura e era completamente diferente do que é hoje. Acabava com aquele plano dele na Tobis a dizer “O cinema acabou e eu acabei.”. Mas depois foi apanhado por um produtor francês que lhe produziu dois filmes muito caros, o Meu Caso (1986) e O Sapato de Cetim (1985). E voltou a ter reconhecimento. E com isso mudou-o, passou a ser otimista e a acabar com ele a escrever um guião e a falar dos filhos. Porque já não era o último filme, passou a ser um do meio.

E quem é que gere neste momento o seu legado?

Ninguém. Porque aquela maneira filmar dele é única, não se pode transmitir. Mas há uma data de miúdos bons que filmam bem. E têm ideias. Como o novo do Pedro Peralta, ele é honesto, é aquilo em que ele acredita, é o que ele soube fazer melhor. As curtas do Salaviza são boas. Há coisas do Miguel Gomes que gosto muito. Ainda há esta vontade de fazer diferente. Acho que ainda há espaço para isso em Portugal porque não há mercado.

O cinema comercial português perde mais dinheiro que o não-comercial. E não só porque é mais caro. Para se pagar um filme português é preciso ter-se 3 milhões de espetadores. Um filme custa 1,5 milhões de euros. Porque o que vai para o produtor é cerca de 10% da receita. Portanto, não brinquem comigo. Se querem esta luta, vamos ver quanto custa e quanto é que rende. Não há nenhum filme português rentável! Nem as comédias dos anos 40, nenhum se pagou, foi tudo subsidiado pelo Estado! Nunca se pagaram, só agora com as reedições, as cassetes… Qual é o interesse cultural em ouvir “Ó Evaristo, tens cá disto?” ou “Chapéus há muitos, seu palerma!”? Aquilo não era Cinema, só Revista filmada. Eram todos iguais, sempre as mesmas histórias onde quem se portava bem era premiado: a criada casava-se com o patrão se portasse bem, o tipo pobre casava-se com a rica se portasse bem, a tia aparecia e deixava uma herança…. Tudo envolvendo a pequena burguesia salazariana a ser filmada. Só o Cottinelli Telmo (A Canção de Lisboa) era interessante porque era arquiteto, mas o resto era tudo treta. Naquela altura havia o Stroheim, o Renoir, o Sternberg e nós a fazer O Leão da Estrela! Agora é pior, que são remakes!

Manoel de Oliveira

Que achou da atenção que os média deram ao Manoel de Oliveira quando ele morreu?

Portugal costuma sempre premiar os mortos. Em vida é mais difícil. O Oliveira é um caso raro de longevidade e resistência. E tinha um grande erotismo. No Gebo e a Sombra (2012) ele ia morrendo de vaidade. O meu filho era assistente e foi buscá-lo a um hotel. Depois, foram buscar “as meninas”, uma tinha 79 (Claudia Cardinale) e a outra 84 (Jeanne Moreau). O Oliveira recusou, dessa vez, tomar medicamentos que precisava para urinar, para elas não o acharem velho. E foi para o hospital com uma retenção de líquidos. E outra vez virou-se para a Cardinale em Guimarães e disse “O que é que vai fazer esta noite?”. E a Claudia respondeu “Ó Manoel, vou dormir!” “Não sei se vai conseguir!”. Ele tinha 100 anos! Portanto, tinha uma pulsão de vida inacreditável. E costumava dizer-me que tinha de estar sempre a filmar, senão morria. E ele queria filmar e filmar e filmar… Mas as pessoas viam poucos filmes dele e só o conheciam pela longevidade. O Vou Para Casa (2001) foi um êxito comercial em França, até mesmo nos Estados Unidos. Mas não foi um êxito em Portugal. As pessoas diziam que viam, mas não viam.

Qual foi o primeiro filme de Oliveira que viu e qual foi a impressão que lhe causou?

O Ato da Primavera(1963) e marcou-me para sempre. Filme que o Jean-Marie Straub saiu do cinema a gritar. E depois percebi porquê. O Oliveira, apesar do tema ser religioso, tinha antecipado o modo como o Straub queria filmar. Filmava com temas políticos e era a mesma atitude: a matéria da alma, o físico das coisas, a representação denunciada. Eram aqueles planos secos que o Straub procurava. Depois assisti às filmagens do Amor de Perdição, mais ou menos na mesma altura. Havia um festival fantástico em Portugal que era o Festival da Figueira que trazia os melhores cineastas, o Syberberg, o Kramer, os tipos da Cahiers du Cinema, o Straub, imensa gente veio cá e era notável. Depois aquilo foi destruído, começaram a meter-se em compromissos e a trazer filmes de todo o lado, não pagavam e não havia dinheiro, mas o início foi brilhante, um dos grandes festivais que havia para quem gostava de cinema. Não era o bordel de Cannes, mas era bom.

Mas aquele que mais gosto, de longe, é o Amor de Perdição. Uma vez perguntei-lhe porque é que ele levou à letra o texto todo. E ele disse-me “Pega num livro do Camilo, vira ao contrário e não cai nada, não há nada para deitar fora.” E o artifício, o papelão… Se uma pessoa perceber que aquilo é papelão, depois vai às lágrimas no fim. Na ópera a mesma coisa. O importante não são os atores porque é o Texto a matéria das coisas. E depois o Oliveira não fazia campos/contracampos. Fazia planos. Punha um ator a olhar para um lado e o outro para outro. Dizia que estavam a falar para um público, que era teatro. É um desafio para o cinema! Assume-se o engano e depois mente-se, mente-se, mente-se, até se chegar à verdade. O Francisca (1981) já acho um pouco redondo. Mas o Amor de Perdição é cru. E depois adoro a versão de 7 horas de O Sapato de Cetim. Aquilo diz-nos que quer crescer e pede-nos para o deixarmos ir. É uma alucinação.

O Ato da Primavera (Manoel de Oliveira, 1962)



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