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«Os Maias» por Paulo Portugal

 

O amor escaldante dos manos Carlos e Eduarda bem poderia servir os desígnios apimentados de uma qualquer ode tablóide em versão de telenovela ou até a tarefa homérica (proibitiva!) de recriar uma super-produção de época capaz de captar a complexa obra de Eça de Queiroz. Por razões óbvias, João Botelho fugiu da primeira como Diabo da cruz e evitou necessariamente a segunda. Sabiamente contornou o peso da produção recorrendo em boa hora aos belos cenários de João Queiroz a substituir os exteriores do Chiado e atirou-se, sem medos, à adaptação da 'intocável' verve de Eça. É neste jogo de falsidades que Botelho nos centra no texto, nas palavras e sobretudo em todas aquelas cenas que descrevem essa fogueira de vaidades que varria a sociedade de outrora, mas que parece afinal de contas tão atual. Tudo isto numa altura em que se falava do ano zero da produção nacional.

Talvez seja mesmo nessa solução engenhosa que reside a espessura e o segredo do sucesso de Os Maias. E uma forma capaz de superar as habituais lacunas nas nossas adaptações literárias (salvo todas as honrosas exceções) e até assumir o desafio de apresentar uma versão (seguramente mais completa) de cerca de 3 horas, um pouco mais de meia hora da atual metragem, bem como uma versão para televisão, mais alongada e detalhada.

Tal como no livro, não é o foco do romance proibido que mais nos exalta, mas toda essa a constelação de personagens destinadas a compor a sociedade de então. São elas que gravitam em torno de Carlos da Maia e Maria Eduarda, interpretados com justeza pelo par Graciano Dias e Maria Flor. No entanto, uma vez mais, tal como no livro, é o irreverente João da Ega, numa magistral prestação de Pedro Inês, que mais encanta com as suas tiradas republicanas, ou o untuoso e insinuante Dâmaso Salcede, em composição à medida por Hugo Mestre Amado. E temos ainda a Gouvarinho, na encarnação de Maria João Pinto, um competente João Perry, como Afonso da Maia, etc, etc.

Destaca-se a habilidade de Botelho em espartilhar a história em cenas, divididas por pequenos separadores de cenários, num jogo quase teatral, que acaba por servir a intenção do realizador sem bulir demasiado com a estrutura das mais de 700 páginas dos Maias. Para tal retrato de época poderão bastar as 2h20 da sessão comercial, embora nos fique a sensação de que a versão de três horas seria muito mais próxima do efeito que reconhecemos da espessura de Os Maias. Ainda assim lá estão todas as sequências centrais que tratam com verve picaresca o admirável carrossel de personagens que gravitavam na sociedade oitocentista vista por Eça.

Mesmo sem ser uma obra-prima, Os Maias cumprem com generosidade o espaço de um marco no cinema português, sob a forma de uma obra de referencia que pode muito bem vir a servir de base para públicos muito diversos. Tal com fizera com O Livro do Desassossego, na sua digressão por cineteatros e escolas da província. Assim o filme possa ser visto.

O melhor: A forma como Botelho trabalha e defende o texto de Eça
O pior: Sente-se que falta espaço e tempo na sessão de 2h20. A ver a de 3 horas.


Paulo Portugal



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