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«Forushande» (O Vendedor) por Hugo Gomes

Asghar Farhadi é um moralista, mas é o nosso tipo de moralista. Ao contrário do conto moral propagandista que muita da Hollywood faz e refaz, o cinema de Farhadi é de uma delicadeza articulada a espaços limitados, a mistérios "antonianos" não resolvidos e a dramas humanos impulsionados através de um olhar crítico e abrangente, e essa dita moralidade ocorre, não como uma lição a ser aprendida, mas sim num reflexo de múltiplas contemplações.

Contudo, em O Vendedor, premiado com a distinção de Melhor Argumento no Festival de Cannes, possuímos um episódio competente na linha dos seus anteriores manifestos, mas perde-se numa loop de repetição autoral. Para o espectador ainda não inserido no universo deste badalado e consagrado cineasta iraniano (A Separação, O Passado), este paralelismo entre a ficção e as encenações teatrais de Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, revela-se numa fascinante experiência de juízo de valores, até estabelecer num climax narrativo que desagua facilmente em território de elipse.

É um tipo de cinema que nos faz debater sobre a nossa própria moralidade, é aquele "mundo" longe ao nosso alcance, aqueles seres de uma civilização distante que não se afastam, rigorosamente nada, dos nossos quotidianos. Aliás, essa persistente comparação entre o drama de vingança e o teatro que vem adquirido contornos algo caóticos, remetem-nos a um elo cultural que interliga essa constante separação anunciada entre Ocidente / Oriente.

É um exercício meticuloso, devidamente empregue à mercê dos seus atores que tudo fazem para adereçar a ênfase dramática nos conformes deste conceito de realismo. O Vendedor aproxima-se em passos personalizados ao território de Alain Resnais, a esse erudito estado de alma, sem como tal abandonar as suas heranças, quer culturais, cinematográficas e pessoais. No fim, a moralidade nos joga como uma força que nos embate consequencialmente, mas sem nunca constituir uma só verdade.

A moral nasce, cresce, vive e morre em cada um de nós, o cinema Farhadi apenas providencia essas ferramentas. 

Hugo Gomes



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