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«Insyriated» (Na Síria) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Assim como o anterior Clash, de Mohamed Diab (filme de abertura do Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2016), Na Síria usufrui do dispositivo de “filme de cerco” para concentrar as suas ações de ativismo político-social. No caso do anterior, a Primavera Árabe egípcia é marcada como bandeja de arquétipos ao serviço duma propaganda ingénua.

Quanto à segunda longa-metragem de Philippe van Leeuw, o dito cerco opera como uma espécie de aquário, onde o contacto com o exterior carece de ferramentas de perceção. Assim sendo, continuando na retaguarda da comparação, enquanto Diab utiliza o exterior como um cenário politizado - o interior [dum carro-blindado] servia como catarse desse mesmo panorama - Na Síria, o exterior é tão ou mais confuso que o interior, visto que a situação local, o qual constata, continua como uma crise humanitária, mas acima de tudo uma crise informativa, ou desinformativa para ser mais exato. É um facto incontornável que a Síria é uma “trigger word” (palavra-gatilho) para qualquer leitor, não a poupando quanto aos seus julgamentos, conspirações e visões a esse desolado, distante e simultaneamente perto cenário.Em Na Síria, eticamente [o facto de não ser um sírio], não compete ao realizador (belga) julgar nem exercer a sua ótica (entramos assim com isto numa faca de dois gumes à deontologia do Cinema enquanto arte ou expressão).

Mas retomando ao exercício,  o cerco - novamente enfatizando como um subgénero estiloso - funciona como chave na ignição para este mergulho ao dito “inferno” proclamado e invocado constantemente. E nisso joga-se, como grande parte deste template narrativo, na inserção de um macguffin (mais que um objeto, uma pessoa), por outras palavras, num corpo deixado à sua mercê, deambulado na dúvida quanto ao seu estado (vivo ou morto). Como peças dominó, consequentemente, chegamos a um segredo que o espectador partilha, sabendo que a revelação exata da mesma nos levaria a uma saída.

As personagens jogam-se perante o exercício, são escravos do mesmo, mais do que o estatuto de “barricados da Guerra”, que lhes é atribuída. O exterior é o antagonista do exercício em si. Ele relembra-nos que circunstâncias estamos a evidenciar - o tal cerco. Porém, o apertado limite cénico apresenta diversos problemas que desintegram por completo toda esta fita.

Primeiro, o espectador nunca tem a perceção do circuito das suas personagens. O filme nunca consegue recriar mentalmente o ambiente que temporariamente coabitam, a topografia do assoalhado que serve de prisão nunca atenta a nossa perceção, o que dificulta a credibilidade deste mesmo estado.

Segundo, se a saída representa o fim da trama por si proposta, tal sugestão nunca se revela num árduo objetivo, até porque entramos num terceiro ato (novamente os terceiros atos!) onde somos espantados com a facilidade da resolução. Desesperante, dirão alguns, quando à rapidez da mesma, mas incoerente para com a sensibilidade arrecadada do espectador ao longo da narrativa.

Assim, portanto, a intriga dissipa-se após a proposta, nunca descola, mesmo que os atores (para além dos profissionais, grande parte são refugiados sírios) abordem as suas personagens com enorme rigor e subjugação exemplar. No fim de contas, é um filme de cerco, sublinho, mais um na lista, consoante seja o seu cenário.

Hugo Gomes

«Soldado Milhões» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Soldado Milhões, a suposta cinebiografia de um consagrado herói da Primeira Guerra Mundial, o único praça raso condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, é possivelmente o que de próximo temos das supostas propagandas militares vindas do nossos primos do lado do Oceano. Trata-se do novo “American Sniper”, respondendo com o signo do infame filme de Eastwood, mas dentro desse jogos de parecenças, Soldado Milhões está a meio caminho de se tornar num Flags of Our Fathers, o heroísmo e a sua desconstrução, assim como a utilização do mesmo em prol de uma imagem-propaganda, um enviusado embelezamento do conflito. Todavia, Milhões não possui a mesma densidade nem a plena coragem de desafiar os seus próprios parâmetros de patriotismo.

Contado a dois tempos, “as medalhas pesam”, frase proclamada por Miguel Borges (o Milhões envelhecido e cansado) que serve como camaleónica interação com essa crítica sugerida mas nunca devolvida ao seu verdadeiro ser. E é porque nisto tudo existe um receio que facilmente se identifica como traição, assim dirão os seguidores das praticas idealistas de Salazar, Deus, Pátria e Família, trata-se do medo de encorajar a sua desmistificação, vá o retrato de mortais redigir-se à dissertação.

Mas no entender, a união entre os dois espaços temporais, a Batalha do Lys (protagonizado por João Arrais), e no calor da Segunda Guerra em Trás-os-Montes (Miguel Borges é o anfitrião), faz-se através de uma grande lacuna, o espaço vazio a inserir que remeteria Soldado Milhões para mais do que um mero episódio de Guerra, o instrumento de propagação idealista de um regime (assim como acontecera com a “fantasia lusitana” da Exposição do Mundo Português de ’40). Essa mesma ausência dá-se com a utilização de Aníbal Augusto Milhais, que certo dia virou Milhões (“És Milhais mas vales Milhões”), por parte de Salazar, o seu heroísmo, apenas um ato de sacrifício segundo os códigos éticos militares, contado e recontado com endeusamento. Sabendo que Soldado Milhões ficou-se num mero rascunho, é de louvar, em certa maneira, o evidenciar de um filme que não crê, nem patroniza o espectador do português.

Um filme de Guerra feito a meios tostões que usa a sua capacidade de improviso produtivo para captar a credibilidade, não atingida, mas possível. Da mesma forma que Kubrick encenou Vietname com meros arbustos e pouco mais em Full Metal Jacket, Soldado Milhões leva-nos a Flandres através de um “faz-de-conta” cénico, onde a miopia reage como autodefesa, e essa mesma defesa um percurso à dignidade. Contudo, não é dignidades que se faz um filme, mesmo que o resultado esteja realmente longe de nos envergonhar.

Existe uma beleza triste na derrota”, as palavras de Fernando Lopes, proferidas em The Lovebirds (Bruno de Almeida, 2007), encaixam que nem uma luva neste nosso episódio bélico. Porque na verdade a Batalha de Lys foi das maiores derrotas das nossas Forças Armadas, onde perdemos uma batalha, mas ganhamos um herói, e um a nossa medida. Pena, que o filme em seu tributo não seja tão corajoso como o verdadeiro Milhões fora.

Hugo Gomes

Arranca o ciclo «O que é o Arquivo?» na Cinemateca Portuguesa

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Arbeiter verlassen die Fabrik (Harun Farocki, 1995)

A importância da preservação do património cinematográfico e os métodos de arquivamento serão novamente debatidos numa segunda edição do Laboratório do Ciclo de Encontros O que é O Arquivo? Depois da primeira edição em 2017, a Cinemateca Portuguesa volta a albergar esta rúbrica que se prolongará durante os próximos três dia (18 a 20 de abril), contando com mesas redondas, sessões de cinema e intervenções de ilustres convidados incluindo o teórico e professor do Pratt Institute, Jonathan Beller.

Tendo organização do Arquivo Municipal de Lisboa-Videoteca, em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, as sessões do O que é O Arquivo? serão gratuitas (com exceção da sessão de dia 18 de abril, às 21h30), composto cada uma por projeção de filmes seguida das intervenções de cineastas, investigadores, programadores e arquivistas. De forma a perpetuar o debate, no dia 19, será ainda lançado o livro O que é o arquivo? Laboratório 1: Arte / Arquivo.

Toda a programação do ciclo poderá ser vista aqui

Morreu R. Lee Ermey, o célebre sargento de «Full Metal Jacket»

Morreu o ator R. Lee Ermey, conhecido pelo seu premiado desempenho em Full Metal Jacket (Nascido para Matar, 1987), de Stanley Kubrick. A notícia foi dada na sua conta de Twitter através do seu manager de longa data, Bill Rogin. Segundo o comunicado, Ermey terá falecido face a complicações respiratórias. Tinha 74 anos.

Nascido a 24 de março de 1944, Ronald Lee Ermey ficou marcado pelos seus papeis como militar, principalmente na pele do Sargento Hartman em Full Metal Jacket, que lhe valeu a nomeação ao Globo de Ouro. Ermey foi militar na vida real, tendo cumprindo carreira como sargento para U.S. Marine Corps e também como instrutor.

No Cinema, fora a sua colaboração com Kubrick, é reconhecido pelos seus trabalhos em Se7en (Sete Pecados Mortais, 1995), de David Fincher, no remake de The Texas Chainsaw Massacre (O Massacre no Texas, 2003), por Marcus Nispel e ainda Mississippi Burning (Mississípi em Chamas, 1988) de Alan Parker.

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