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«O Caderno Negro» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

A pomposidade dos dramas de época levam-nos a este antídoto, uma reconstituição míope, despojada, que se apoia sobretudo na palavra e na crença ostentada pelas suas personagens em tempos expirados. Adaptação de O Livro Negro de Padre Dinis, uma espécie de prequela de Os Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo-Branco, o testemunho deixado por Raoul Ruiz à sua mulher, Valeria Sarmiento, torna-se numa bandeja à memória pós-tumulo do seu “eterno amante”, tendo como objetivo máximo a concretização de uma “ressurreição”. Triste será dizer que não encontramos alternativa, nem regresso a espíritos passados: Ruiz desapareceu do nosso Mundo (infelizmente teremos que aceitar isso), Sarmiento apenas arma uma fita com o afeto memorial.

Talvez seja por isso que exista aqui um certo desdém, diríamos antes, sentimento de estranheza, como um substituto deslavado se tratasse, mas é dentro dessa mesma irreconhecibilidade que somos afrontados com um romance de outrora e de salvaguardado fatalismo, que despeja lirismo nos seus gestos automatizados com uma fé abalável. Prolongando a linha … diríamos antes … as Linhas de Wellington (projeto inacabado de Ruiz que Sarmiento assumiu sem alternativa), em O Caderno Negro somos puxados à limitação cénica e conflituosa, mas nem por isso ilimitados da nossa imaginação.

Não se sentia assim desde o primitivismo trazido pelos “teatros de época” de Oliveira ou a manobra temporal de Olmi em Il Mestiere delle Armi (2001), a reconstituição que não prima pelo detalhe visual nem sequer assumindo a réplica aludida, mas a recomposição de um certo parecer, antes de mais ser. É um filme enquadrado numa vontade, o gesto assimilado ao invés do gesto realizado da credibilidade, de facto, ficamos no impasse de uma obra cuidada e alegadamente cúmplice do seu artificialismo.

E mesmo sob uma passiva narrativa de contos e recontos de uma adaptação reduzido ao esquematismo, algo quase alicerçado a um certo cinema de autor, O Caderno Negro provém de uma veia classicista, não no seu formato mas das contrações espirituosas. Aliás, somos conduzidos à tragédia de romances incumpridos, como juras de amor que imobilizam vidas e imortalizam mortes. Aí deparamos, o seu vinculo reafirmado da pomposidade da palavra e dos sentimentos anexados.

Falando em “anexos” e antes que seja tarde, miremos a beleza e a doçura amargurada de Lou de Laâge, a mera figura acorrentada a uma drama maior que ela própria.

Hugo Gomes

«Chegamos ao Lugar!» Arranca 3ª edição do Close-up - Observatório de Cinema

The Florida Project (Sean Baker, 2017)

A memória levou-nos à viagem, e em consequência disso, esta guiou-nos ao Lugar. Mas qual lugar? O Cinema encaminha-nos para espaços, não-lugares, cenários, etapas que resumem a leitmotiv cénicos. Neste terceiro episódio de Close-up: Observatório de Cinema, prosseguimos na jornada de destruturação do Cinema propriamente dito. De que matéria é feita? Para onde segue? Quais as suas convergências e divergências? Com o Lugar, tema desta nova edição, chegamos, não ao destino, mas possivelmente a uma nova partida.

A decorrer entre os dias 13 a 20 de outubro, Close-up tem convertido num seminal evento em aproximação daquilo que chamamos de ano cinematográfico em revista, sem com isto reduzi-lo a um catálogo de estreias recentes repostas, mas um núcleo de temáticas e capítulos no nosso encaminhar cinéfilo. Prova isso, é a abertura oficializada com a projeção de Lobos, o grande trabalho de Rino Lupo, realizador italiano que na sua passagem em Portugal inseriu todo um novo olhar cinematográfico. A sessão será acompanhado por Paulo Furtado, o Legendary Tigerman, uma autêntica ousadia em cruzar a História de um passado remoto com os acordes atualizados do músico. Como encerramento, outro clássico e cruzamento, Sherlock Holmes Jr., o qual Buster Keaton irá adquiri novo folego ao som de Noiserv.

Neste terceiro tomo há espaço para novas rubricas, o Café Kiarostami será inaugurado, uma mesa-redonda onde convidados de diferentes sectores do Cinema (realizadores, investigadores e críticos) reunirão para debater sobre os variados cantos e recantos da Sétima Arte. Contudo, serão os filmes, as verdadeiras estrelas destes sete dias rodeados de Cinema e a sua respetiva vénia.

Cabaret Maxime (Bruno de Almeida, 2018)

Este ano, alguns dos destaques evidentes será a apresentação de Cabaret Maxime pelo próprio realizador, Bruno De Almeida. Possivelmente o melhor exemplo de Lugar nesta espaço, um filme em que o cineasta transforma uma Lisboa noturna e soturna em nenhures, um território imaginário e igualmente real. A guerra entre cabarets é só o pico do iceberg, que é constituído pelas reposições de Isle of Dogs, de Wes Anderson (novamente frisando o “não-lugar”, neste caso inserido num Japão neofeudal e industrial), Ramiro de Manuel Mozos, a Lisboa saudosista e melancolizada no qual é embebido o espirito do homónimo protagonista e um dos grandes filmes do ano, Florida Project, de Sean Baker, um oásis situados nas fronteiras da Disneyland. Todas as sessões contarão com participações de personalidades ligadas ao Cinema, que debaterão com o público, a questão de espaço e lugar na compostura cinematográfica.

Apesar dos lugares serem vários e indeterminados, existe um especifico que promete ser paragem obrigatória neste evento – a América Latina. O Close-Up irá exibir um leque de filmes recentes das diversas cinematográficas latino-americanas, passando pela esplendorosa escuridão das minas bolivianas de Viejo Calavera, de Kiro Russo, pelos paraísos perdidos das promessas nucleares em La Obra del Siglo, de Carlos Machado Quintela, e as fantasmagóricas selvas em busca de Vicuña Porto em Zama, a mais recente longa-metragem de Lucrecia Martel.

Mas a História (H grande aplica-se) é também ele um lugar de obrigatória paragem, dando continuação à rubrica, este ano Close-Up aprofunda no Japão assombrado de Kenji Mizoguchi, projetando quatro das suas principais obras (O Intendente Sansho, Os Amantes Crucificados, Os Contos da Lua Vaga e A Rua da Vergonha). A lição de História passará pelos influenciados, e precisamente os portugueses que espelharam esses signos mizoguchianos nas suas respetivas filmografias. Nesse leque poderemos contar com Pedro Costa (O Sangue), Paulo Rocha (Mudar de Vida) e João Pedro Rodrigues (com a curta documental, Allegoria Della Prudenza).

Sansho Dayu: O Intendente Sansho (Kenji Mizoguchi, 1954)

Já na secção Fantasia Lusitana, serão destacados Diogo Costa Amarante, vencedor do Urso de Ouro da Curta-Metragem no 67º Festival de Berlim e visto como um dos mais promissores nomes da cinematografia portuguesa, e Mário Macedo, jovem realizador que também tem feito um premiado e igualmente promissor percurso em festivais. Ambos realizadores serão frutos de retrospetiva (no caso de Macedo, haverá estreia absoluta de um novo trabalho). Como anexo deste espaço, Diogo Costa Amarante teve direito a Carta Branca e a sua escolha recaiu na obra de Agnès Varda, Sem Eira Nem Beira.

Close-Up ocorrerá, como é habitual, na Casa de Artes de Vila Nova de Famalicão. Por entre o Cinema e os debates, ainda haverá “lugar” para a Exposição Fotográfica e de Vídeo de Ana Cidade Guimarães e Virgílio Ferreira intitulado de A Natureza do Lugar e o Lugar da Natureza.

«Lazzaro Felice» (Feliz como Lázaro) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Fora das evidentes referências bíblicas, este Lázaro [personagem] é todo ele uma cápsula personificada de uma Itália perdida, à deriva de um biótopo longe da sua adaptabilidade. Para a atriz e realizadora Alice Rohrwacher, esta sua terceira longa-metragem é apenas um sufixo do seu discurso cinematográfico, o de exorcizar um país dividido, não por facões sociais, mas por tomos temporais - passado e presente - sem nunca olhar para o futuro com promissores olhos.

Trata-se de uma Itália congelada pelo tempo, onde o modernismo interpela com as reminiscências quase convertidas a folclore. Nesse aspeto, porventura, levando com sobriedade na moldagem da sua metáfora, Lazzaro Felice é, em linguagem simplista, um conto. Preservando a ingenuidade de fachada que esses termos dispõem com prazer, é um efeito-chave de questões sociais, politico-financeiras, instalados numa montra, obrigando o espectador a espreitar tamanho fascínio por entre os adereços ostentativos da exposição.

Os fluxos migratórios, essas crises em que todos parecem reservar opiniões, são transitados (ótimo termo para a temática) para territórios domésticos. Num país “faz-de-conta” - assim o espectador se aperceberá graças a uma eventual reviravolta sem as antecipações shyamalianas - os camponeses vivem restringidos a uma terra isolada, contornada por um rio; a fronteira vista pelos seus próprios olhos. Cada camponês nasce e vive com o conhecimento de que é património de uma Marquesa, uma “aristocrata fabulista” que vive nos confortos do seu decadente castelo. Esta imensa “farsa”, um engano que leva a uma involuntária ignorância (sem com isto inibi-los de gestos e atos voluntários) por parte deste coletivo, é só uma camada para este embuste, desta vez sob tons de próprio inocente engodo.

Assim, somos introduzidos a Lázaro (um estaticamente doce Adriano Tardiolo), o conhecido “tonto” da comunidade, quase um autómato devido à sua incapacidade emotiva e sobretudo intelectual. Mas como titulo sugere, Feliz como Lázaro, este consegue ser o ser mais satisfeito em todo este enredo. Mas essa sua felicidade fantasiada é só a mentira contada ao espectador para o negar da principal consciência fílmica de Rohrwacher, assim como a escancarada menção bíblica, porque na verdade o que evidenciamos é uma Itália vivida numa prolongada burla, uma mentira não tão doce e igualmente discriminatória e castradora.

A realizadora articula todas essas variações e perpetua um cinema em constante saudosismo para com o seu legado. Por entre o rocambolesco de um Ettore Scola ou do tradicionalismo espiritual de um Ermanno Olmi (contraindo também uma ruralidade digna de L'albero degli Zoccoli), há que encontrar aqui, até porque o principal ingrediente está na mentira e como esta é forjada e mantida, especiarias do próprio Fellini. Sim, existe em Lazzaro Felice todo um cocktail de referências e tiques que se mesclam dando origem a um objeto cuidado, mesmo que a sua aparência seja sobretudo intuitiva e “sujamente” desleixada, uma metáfora a ser lida em qualquer que seja dos lados a começar.

Infelizmente, está longe da caricatura suspensa de Le Meraviglie, mas está perto de aquecer o nosso coração cinéfilo e acima de tudo em acreditar numa cinematografia absolutamente grata aos seus mestres. Agora só esperamos que Itália veja o seu Cinema a seguir as pisadas de Lázaro, ou seja, a ressuscitar. Não apenas a voltar à vida, mas encarando-a com nova vida.

Hugo Gomes

Primeira imagem de "Batwoman"

Ruby Rose, conhecida pelos seus papéis na série Orange is the new Black e de xXx: Return of Xander Cage, será a Batwoman no especial crossover anual para a CW, que detém todas as séries televisivas da DC Comics (Arrow, Legends of Tomorrow, The Flash e Supergirl). Fala-se que depois desta aparição (com estreia prevista para dezembro), a personagem de Rose poderá protagonizar a sua própria série, mas ainda não é certo. Confirmado é que caso isso aconteça, Batwoman fará história como a primeira série de TV focada num super-herói LGBT. A série está atualmente em desenvolvimento, com Kane/Batwoman descrita como "uma lutadora de rua lésbica e altamente treinada".

Vale a pena salientar que Batwoman, o alter-ego de Kate Kane, é uma vigilante nos moldes de Batman, com o “cavaleiro das trevas” como a sua principal inspiração. 

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