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"Os filmes independentes precisam de público, não de subsídios", diz o realizador de «Prometo Falhar - O Filme»

Descrito como o “livro mais sublinhado de sempre”, Prometo Falhar tornou-se num dos grandes fenómenos da literatura portuguesa recente, torna-se num sucesso de vendas assim como viral nas redes sociais. Escrito por Pedro Chagas Freitas, o livro apresenta-se como uma obra de frases soltas, para alguns, ou de pequenos contos, para outros, cujo foco é o romance como o mais apetecido e fracassado dos sentimentos.

Ame-se ou odeie-se, Prometo Falhar tomou lugar na cultura popular portuguesa, sendo que a oportunidade de o adaptar para o cinema tem sido, mais que tudo, apetecível. Mas o “beneficiário” dessa conversão foi o realizador italiano Alberto Rocco, perito na área do documentário, que encontrou no livro de Chagas Freitas uma espécie de folha em branco. “O processo de produção consistiu em somente falar com o Pedro, do qual sou fã. Encontrei no seu livro uma proposta desafiante, o de adaptar algo sem narrativa.” afirmou o realizador ao C7nema.

O que fiz, na verdade, não foi bem uma adaptação, antes uma interpretação do livro. Se tivesse que seguir a sua narrativa, seria um trabalho muito difícil. Para tal, tinha uma opção, escolher uma das histórias apresentadas nas páginas do livro e levá-lo ao grande ecrã. Foi então que escolhi essa história, a do próprio Pedro.

Prometo Falhar vai mais além dos escritos do livro. Vai ao encontro do homem que o escreveu, Pedro Chagas Freitas, o seu percurso até à sua confirmação enquanto autor. O próprio assume que foram os ‘falhanços’ que ditaram a sua prosperidade, e a sua coragem em enfrentar o grande medo de todos, o de falhar. Alberto Rocco divulgou, para além do processo de adaptação, como escolheu a melhor forma de abordagem. “A forma que encontrei para abordar isto tudo foi o de pegar num concerto de Tchaikovsky, o qual também admiro, e sobre esse conceito tentei montar um filme.”

É sabido que Prometo Falhar – O Filme, em oposição ao sucesso do livro, é um filme independente, cuja produção é da autoria do próprio realizador, que se revelou num grande defensor do termo independente: “É algo que sempre defendi. Os filmes independentes precisam de público, não de subsídios. Não devemos responsabilizar o estado politico, aqueles discursos que ouvimos milhares de vezes de que não há dinheiro. Nós precisamos de público acima de qualquer ajuda monetária. E se o público nos der uma oportunidade, existe a chance de fazer filmes bastante interessantes com produções puramente independentes. Não devemos confundir o interessante com os blockbusters, os independentes têm as suas limitações, mas são no fundo filmes que querem o mesmo – público – e para isso têm que ter a capacidade de entreter uma pessoa pelo menos 50 minutos ou mais de uma hora. Tenho que tentar transmitir essa ideia. Se o público deixar, o cinema independente tem muito para dar. Basta o público querer. Conheço vários colegas que têm conceitos maravilhosos para trabalhar, mas não tem a oportunidade de concretizá-los devido a esse ´desprezo´ pelo termo independente.”

De seguida volta-se com elogios para a distribuidora/exibidora, Cinema City, que detém a exclusividade da estreia: “O Cinema City tem tido um papel importante na divulgação deste cinema português independente.”

Confrontado com a expetativa do seu trabalho, Rocco referiu que concretizou um filme não para o público geral, mas para um objetivo especifico: os fãs do livro. Garantindo que a exigência desses mesmos fãs poderá levar a rigorosas comparações com a matéria-prima, acrescenta: “O filme perderá sempre para o livro, tudo porque quando lemos um livro temos um grande aliado, a nossa imaginação. Em relação a um filme, esse aliado torna-se no nosso pior inimigo, porque não podemos apoiar-nos na imaginação.”

«TAG» (Jogo da Apanhada) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

É preciso continuar a ‘brincar’ para nunca alcançar o mundo adulto. Não é por estas palavras, mas anda lá perto do que uma das personagens deste TAG cita em semi-loop de forma a dar razão ao seu ponto de vista, à imaturidade que parece desenrolar um papel importante nos vínculos afetivos deste grupo. Nem ele sabe certamente de onde veio a citação, aposta-se em Franklin, outros em Karl Groos, porém, certo é aquilo que o espectador irá atravessar, um prolongado “jogo da apanhada” com vista em tomar um lugar deixado por Hangover(A Ressaca), o cinema comédia bromance, hoje impraticável devido à permanente questão da representação feminina do cinema.

Já um crítico “qualquer” norte-americano centrou a sua crítica na forma como as personagens femininas são introduzidas e solidificadas na trama, acima da própria proposta desta partida de marmanjões a reviver a infância. Sob o oportunismo modista do “baseado numa história real”, TAG leva-nos a um grupo de amigos que todo o mês de maio executam um interminável jogo da apanhada, uma forma encontrada para não deixar morrer os seus laços de amizade que duram desde os primórdios. Sendo o conceito mais interessante que toda a pratica, esta é levada pelos inconscientes pecados da comédia de Hollywood em geral: o de nunca conseguir esgalhar astúcia nos seus gags nem o de conseguir o efeito emotivo que, neste caso, suscitaria.

TAG é somente um filme escapista da pior espécie, batoteiro (com tiques apropriados de outros, a evidência de um Guy Ritchie na vida do realizador Jeff Tomsic é embaraçosa) e fanfarrão, com caricaturas ao invés de personagens e a anedota ao invés de trama. Perdemos a noção, caímos no generalizado e na inconsequência que nunca encontra a sua sobriedade, mesmo que o final (existe um plot twist pelo caminho) solicite esses trilhos improváveis. Bolorento e inapto, somente adquire a sua refrescante postura frente aos maçudos-verborreicos de Judd Apatow e companhia. Mas isso não chega. Bem … é a tua vez!

Hugo Gomes

 

Porto/Post/Doc dedica edição a António Reis e Margarida Cordeiro

António Reis e Margarida Cordeiro serão alvo de retrospetiva na quinta edição do Porto/Post/Doc. O festival portuense exibirá na integra as respetivas filmografias incluindo uma nova cópia restaurada de Trás-dos-Montes, umas das obras maiores do drama etnográfico português. Em complemento, decorrerá um painel, "Rever Reis e Cordeiro", tendo inúmeros convidados do ramo cinematográfico e jornalístico disposto a debater e discutir sobre o cinema da dupla.

Em paralelo, o festival contará com um workshop teórico orientado pela investigadora e realizadora britânica Laura Mulvey, no qual focará diversas questões de género no cinema, muitas delas estudadas pela própria há já vários anos (com inscrições até ao final de setembro).

O 5º Porto/Post/Doc – Film & Media Festival acontece de 24 de novembro e 2 de dezembro no Teatro Municipal do Porto – Rivoli, Cinema Passos Manuel, Cinema Trindade, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Maus Hábitos e Universidade Católica Portuguesa (Porto).

«Hotel Artemis» (Artemis: Hotel de Bandidos) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Um Hotel que é automaticamente um refúgio a toda a classe de criminosos. Familiar? Temo que o conceito já tenha sido aplicado com “forçada” subtileza no duo de John Wick? Sim, mas Hotel Artemis, a primeira experiência no formato da longa-metragem de Drew Pearce, não é nenhum spin-off da saga do assassino reformado e amargurado, é antes uma distopia futurista, palco de fundo desnecessário para se aventurar num filme de uma ideia só a dividir pelos inúmeros problemas inconsequentes de execução.

Começamos pela tristeza que é testemunhar uma atriz de historial - Jodie Foster - a ser ruminada por estes papeis de “paga-contas”, agorafobias ao quadrado como tem sido refém a sua carreira ultimamente. Ela é a cabeça de cartaz deste estabelecimento de sócios “only”, tendo como sidekick um Dave Bautista subserviente na capa do comic relief, à imagem dos seus acumulados sucessos. Ambos lideram um elenco de clientes de passageira estadia sob o signo de arquétipos ou de obrigações contratuais. Sente-se o desaproveitar destas personagens dependentes das vontades subjugantes de um guião preguiçoso e demasiado rebuscado no seu desenvolvimento (é doloroso ver Jeff Goldblum a ser desprezado desta maneira).

Como repesco nas primeiras linhas do texto, é a ideia generalizada, este futurismo carente de criatividade e de tom crítico, sem nenhuma conexão com o nosso mundo, a materializa-se como um bilhete de ida e volta. Contudo, nada de metáforas, apenas parábolas desmioladas. O realizador e argumentista Drew Pearce revela-se automaticamente impreciso quanto ao ritmo a ter e a reter. Este, altamente contaminado por um estilo sufocante e das pretensões estabelecidas da série B, com mais intenção de sê-lo do que encarná-lo.

Mas sublinhamos, não é a devida virtude da dita série, é Hollywood travestida sem a audácia nem a capacidade de transmitir o elo do anti-herói (visto termos um filme recheado de tais). E para uma obra sobre bandidos, é estranho que Hotel Artemis seja tão lamechas e moralista.

Hugo Gomes

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