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«La Patota» (Paulina) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Uma verdade tem sido dita sobre Paulina, é que o filme de Santiago Mitre tem a capacidade de abanar consciências, mas é certo que nem todas as consciências são iguais nem sequer a sensibilidade do espetador. Como tal é fácil apontar o dedo e referi-lo como um fruto do ativismo feminino ou da emancipação da mulher enquanto figura idealista e convicta dos seus próprios atos. Mas o que vemos é uma simples "embirração" entre pai e filha e é com base nisso que a obra prefere desculpar-se perante o cenário aqui exposto.
 
A intriga segue uma mulher que luta contra a vontade do seu progenitor de fortes vínculos patriarcais, assim, sob um jeito desafiador, parte para uma localidade rural algures entre a fronteira argentina e paraguaia para lecionar os mais necessitados dessa região. O encontro com essa comunidade torna-se, no que aparentemente seria uma experiência fortalecedora, num desagradável choque cultural. É que na verdade os seus alunos encontram-se tudo menos interessados nos debates sugeridos por Paulina e a desordem é o habitual nestas aulas, mas o pior estava para vir. Numa noite, sozinha e a caminho de casa, Paulina é atacada e estuprada por um grupo de jovens locais. A partir desse violento episódio, a nossa protagonista terá que viver com os traumas induzidos e manter intactas as suas ideologias desde então formadas.
 
O vencedor da Semana da Crítica de Cannes, Paulina corresponde a um filme de fortes traços de realismo formal, um tom que é injetado neste assumido remake de La Patota (Desonra sem Passado). A outrora obra de contornos classicistas e novelistas do muito "populacho" Daniel Tinayre, é agora convertido num embrião de I Spit in Your Grave, sem os óbvios artifícios gore. Contudo, o "plot" vingativo mantém-se, não como um confronto direto, físico e sangrento aos seus agressores, mas emocional ao próprio progenitor. É tudo uma questão de provocação e pelo meio uma distorção dos padrões sociais e dos maniqueísmos que reflete na sua personagem (brilhantemente interpretada por Dolores Fonzi), mas o filme confunde essas ideologias próprias da homónima figura com o registo narrativo, sendo que a dita aliciação acaba por ser dirigida ao espetador.
 
Até aqui tudo parece bem, mas Paulina é incapacitada em manusear e diferenciar a personagem do filme propriamente dito, acabando tudo por ser uma "traquinice" de uma rapariga mimada e mal comportada. Santiago Mitre, realizador de El Estudiant e colaborador habitual de Pablo Trapero, tenta incutir uma obra cujo instinto é descartado, sendo que a rebeldia contra os vínculos passados é o seu maior objetivo. No final, tudo se resume a uma tentativa de ser politicamente incorreto, enquanto só se sabe ser politicamente correto.   
 
O melhor - Dolores Fonzi
O pior - não separar as águas entre a ideologia da personagem e a ideologia do filme
 
Hugo Gomes
 
 

«Free State of Jones» (Estado Livre de Jones) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Um pedaço de História dos EUA torna-se nas mãos de Gary Ross, o responsável pela adaptação do primeiro livro de The Hunger Games [ler crítica], num enfadonho filme de pedagogia. Ao que parece os tempos de John Ford já lá vão, o que se pretende não é revisitar a Guerra Civil norte-americana, o cenário bélico responsável pela formação do país que é hoje tido, mas sim apurar as causas para as irresponsabilidades sociais atuais. Obviamente, sem querer cair em corretas "politiquices", mesmo que os dias que decorrem motivam-nos a vergar por este ramo, Estado Livre de Jones é um projeto desfragmentado, calculado para ofender o mínimo de faixas (quer etárias, raciais, religiosas e étnicas) possíveis. 
 
A fórmula é simples - apoiar-se nos factos verídicos e exorcizarem-se nele uma espécie de catarse politica. Até aqui tudo muito bem, o problema é que Ross não consegue decidir qual o melhor veiculo para a difusão da sua mensagem (neste caso mensagens). O resultado é uma "trapalhice" narrativa; ora segue (sem aviso prévio) o corte temporal para a oferenda de subenredos despropositados, ora recorre às legendas para situar o espetador no tempo o qual é incapaz de transmitir, ou "tapa os seus buracos narrativos" com breves exposições de fotografias reais, como se tais mudos testemunhos invocassem forças necessárias a toda esta fachada. 
 
A história real por detrás deste Estado Livre de Jones poderá ser fabulosa, nisso não poderemos negar, uma insurreição dentro de uma insurreição é pólvora ardente para um cinema de forte componente politica, mas a maneira como se dispõe estes factos é de uma automatização alarmante, uma mecânica "mastigada" que nos finaliza com um terceiro ato isento de qualquer climax ou de trabalhado conflito. 
 
Pouco mais existe para dizer neste pseudo-bélico sem amor-próprio pelas personagens e sem compaixão alguma pelo esforço cometido por Matthew McConaughey no papel do "justo" Newton Knight, um dos heróis esquecidos de um país que atualmente prefere venerar snipers e empresários na corrida presidencial. Ao que tudo indica, nem as produtoras tiveram fé nesta "causa", a resposta disso foi um filme deste género e com tamanho potencial ter sido lançado "à mercê da sua sorte" por entre os blockbusters de Verão. Lastimável!
 
O melhor - Matthew McConaughey
O pior - O tratamento que estes fatos veridicos receberam
 
Hugo Gomes 
 

«The Neon Demon» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Promovido como um herdeiro do cinema provocatório de Lars Von Trier, o também dinamarquês Nicolas Winding Refn aposta num prolongado concurso de beleza, um universo enxugado de luzes e sons psicadélicos, porém, anorético em tudo o resto. 
 
É o seu conceito de filme de terror, segundo a ambição do realizador que confronta o espetador com mais outro retrato fascinado pela violência gráfica, visto que a psicologia é somente uma atmosfera dissipante e frágil nestas “ruelas”. Em certos aspetos, The Neon Demon resulta na extensão do moralismo fabulista. Neste caso o já rudimentar debate da beleza (a estética contra tudo o resto), apoiada na visão incandescente e por vezes alucinogénico que Refn alastra neste enésimo “conto” de procura e concretização de sonhos em terras dos “Anjos”. 
 
Neste episódio, seguimos Jesse (uma hipnotizante Elle Fanning), uma adolescente determinada a tornar-se numa modelo, nem que para isso tenha que vender a sua alma a uma entidade faustiana. Até porque no preciso momento em que assina o tão precioso contrato das mãos de Christina Hendrick algo de sobrenatural acontece, um íman inquebrável rodeia a nossa protagonista, um magnetismo que capta novas oportunidades como também novos e mortais inimigos.
 
Uma bênção, um dom, ou uma inerente maldição? O destino de Jesse converte-se numa luxuosa descida aos infernos, com Nicolas Winding Refn a providenciar ferramentas visuais e sonoras ao serviço de tal tarefa danteana. Cada flash de fotografia ocorrida em Neon Demon é como a palpitação de uma monstruosa criatura se tratasse, uma anormalidade que se revela pouco a pouco mas nunca se desvenda na sua totalidade, como tal o filme parece não cumprir a sua simples premissa. 
 
O que soava como um estilizado produto de terror urbano, colorido sob um holofote néon, cede-se infelizmente à mera masturbação. Uma direção em redor do seu umbigo, um punhado aleatório de referências que vão desde a Historia Antiga (alusão à trágica condessa Báthory), o cinema tingido de um Mario Bava ou do sucessor, Dario Argento, e até o neo-noir voyeurista de Brian DePalma. 
 
Contudo, é no interior deste festim de espontânea coloração que se esconde a verdadeira "espinha dorsal" deste projeto - o expressionismo alemão. The Neon Demon é um filme absolutamente influenciado por esse movimento; pelos enredos de pactos infernais, pela figura da femme fatal (que floresceu durante o expressionismo, ao contrário do senso comum da expansão do film noir norte-americano) e dos constantes jogos de sombras, aqui cambiados pelos berrantes néones que deixam transparecer as emoções das suas respetivas personagens.
 
Uma euforia que resultaria num bem costurado tecido, mas como havia referido, Nicolas Winding Refn cede ao seu pesado ego e deixa cair por terra qualquer indicio de análise estética e psicológica. Provas disso, temos um final à deriva de um grotesco desnecessário, um evidente toque masculino em temática tão feminina e sob o cinismo de uma "improvável" homenagem à mulher do realizador e por fim, uma barafunda de elementos que nos leva aos mais desconcertantes "becos sem saída" narrativos. Depois do subvalorizado Only God Forgives [ler crítica], eis a obra mais desastrosa da sua carreira, um pretensioso exercício a ser distinguido com o título "mas que raio" (!?) do ano.  
 
O melhor - o visual, a tentativa, Elle Fanning
O pior - o prejudicial ego de Nicolas Winding Refn
 
 
Hugo Gomes

Trailer de «Juste La Fin Du Monde», o novo filme de Xavier Dolan

Chega-nos o primeiro trailer de Juste La Fin Du Monde (Only The End Of The World), o mais recente filme de Xavier Dolan que contou com estreia mundial no Festival de Cannes, uma presença premiada com o Grande Prémio de Júri e o Prémio de Júri Ecuménico, mas apupada durante a sua apresentação à imprensa. 
 
O filme é uma adaptação da homónima peça de Jean-Luc Lagarce, sobre um escritor (Gaspard Ulliel) que regressa a casa após uma longa ausência, afim de anunciar a sua iminente morte ao seio familiar. Uma tarefa nada fácil visto que a sua família possui assuntos não resolvidos.
 
Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel são os outros atores deste filme que tem distribuição portuguesa garantida pela Alambique. 
 
Vale a pena recordar que o próximo projeto do realizador, The Death and Life of John F. Donovan, encontra-se em produção. Trata-se do primeiro filme em língua inglesa da sua carreira, o qual remete-nos à troca de correspondência entre um famoso ator, John F. Donovan (Kit Harington), e um menino de 11 anos, e a exposição dessas mesmas cartas pelos media, principalmente por uma revista cor-de-rosa gerida por uma Jessica Chastain de má índole. 
 
Kathy Bates, Susan Sarandon, Natalie Portman, Thandie Newton, Nicholas Hoult e a cantora Adele completam o elenco. 
 

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