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«Tiro e Queda: O Filme» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Poderíamos entrar aqui em mais umas quantas lengalengas sobre a rivalidade entre o cinema comercial nacional e o dito autoral … poderíamos, mas a esta altura do campeonato, até nós sentimos cansados de o invocar, muito mais em encontrar uma “ponta onde se pegue” num projeto como este Tiro e Queda. Aliás, o titulo condiz na perfeição para com a natureza deste … embrião a filme, um verdadeiro headshot à paciência do cinéfilo e um atentado ao gosto, pelo que se traduz segundo os cabecilhas desta tramoia, num consenso para o grande público.

Com produção de Leonel Vieira, que nos últimos anos abandonou as faíscas que o poderiam guiar por caminhos mais dignos, hoje (levado da breca), cedido ao inóspito destas anormalidades, confia em Ramón De Los Santos (na sua primeira longa-metragem) para conduzir a dupla humorística de sucesso (Eduardo Madeira e Manuel Marques) num prolongado anúncio publicitário a uma companhia de seguros.

Por entre o descarado "product placement", Tiro e Queda é a prova de fogo para qualquer espectador, desde a sua transladação da linguagem puramente televisiva (e mesmo dentro dessa linguagem existem “dialetos” mais corajosos), até ao stand-up comedy falhado cujo humor (fácil, demasiado fácil) - possivelmente direcionado à caricatura - apenas ridiculariza o bom senso de quem acredita em milagres vindo destes ventos. Não se trata de ser enfadonho, nem é isso que está em causa na crítica de cinema, nem sequer neste filme. O problema é a sua inaptidão para a indústria portuguesa, sabendo que ela não existe. Porém, com “coisas” como esta, dificilmente existirão razões para a sua existência.

No final, ficamos solidários para com a “personagem” de Óscar Branco: “afinal, somos uns cabeçudos aqui”. Haja paciência …

Hugo Gomes

«Escape Room» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Seis estranhos são convidados a participar num misterioso “escape room”. À medida que jogam este puzzle arquitetónico vão se apercebendo que o entretenimento não é mais do que uma mortal armadilha. Isto, simplesmente, resumiria Escape Room, o enésimo filme de cerco com charadas à mistura que se vai desdobrando num jogo de previsões e ares bafientos. Por outras palavras, é uma produção inútil, esquecível, ele próprio escapista e sem o rigor de sofisticação quanto ao género que representa.

Contudo, a dúvida fica no ar. Porquê falar deste Escape Room? Pelo simples facto que o trabalho de Adam Robitel (vindo do culto found-footage The Taking of Deborah Logan, que espantou o próprio James Wan) é a equação de uma tendência industrial, uma representação daquilo que estamos a presenciar atualmente no cinema de terror. Para tal, gostaria de invocar uma das “inúteis” imagens, sem qualquer propósito para a intriga em si, mas que revela a natureza de toda esta conceção e, quiçá, as cedências que o cinema para massas está a subjugar.

À porta do edifício onde decorrerá grande parte da narrativa, uma das personagens fuma, enquanto outra lança um olhar reprovador para tal ato. “Eu sei que isto me matará um dia”, responde o fumante, sem sucesso, visto que a primeira impressão está concretizada, e essa demonstra uma figura frágil, insegurança ou, sinceramente, quebrada e em busca da sua autodestruição. O simples ato de fumar, o que numa Hollywood clássica era visto como uma sincronização ao erotismo sugestivo, graças à colaboração entre as majors e as diferentes empresas tabagistas afim de aliciar os espectadores, é hoje tido como um comportamento a evitar, quer pela sua ocultação no cinema, ou na sua existência, uma semiótica via para, uma, a personagem a ser salva, ou duas, a figura antagónica da história.

O leitor está nesta altura a questionar o porquê de estar avançar através de factos sem relevância para o filme em si, ao invés de estar a “avaliar” atores, movimentos de câmara e estéticas. Pois bem, o que estamos a tentar dizer, e não querendo reduzir o ato da crítica de cinema ao “vão ver” ou “não vão ver este” filme, porque não é isso que está em causa, é que Escape Room, por mais "latim" que gaste não é um motivo para esbanjar verborreia criativa aqui. Como consolo, refiro que o filme de Robitel é a gota de um oceano cada vez mais presente no nosso horizonte - o cinema de terror contido nos seus máximos eixos para levar o adolescente que começou há poucos dias a experienciar a puberdade.

E para tal existe uma clara transposição de “politicamente correto”, seja o tabaco, peça engrenada de uma tendência generalizada, seja o evitar de qualquer e desnecessária polémica (por exemplo, uma personagem batiza outra de Rain Man, como sugestão a um certo autismo, respondido e “castrado” automaticamente por “Hei, isso é ofensivo”), seja o branqueamento das pecados comportamentais evidentes no seu grupo de “bonecos” (aquele cinema de terror adolescente, tão próprio da década de 80, dotado de drogas, festas e sexo, já não existe mais).

Escape Room, uma mistura de Saw com La Habitación de Fermat (há que recuperar essa variação), é o protótipo do perfeito filme de terror para toda a família degustar sem suscetibilidades. Um ponche sem álcool.  

Hugo Gomes

Realizadores Norte-Americanos escolhem os melhores do ano

Foram divulgados os nomeados do DGA (Director’s Guild of America). Esta temporada, o Sindicato de Realizadores destacou o trabalho de Alfonso Cuáron (Roma), Bradley Cooper (A Star is Born), Spike Lee (BlacKkKlansman) [na imagem acima], Adam McKay (Vice) e Peter Farrelly (Green Book). Apenas Cuáron já tinha sido nomeado e conquistou este prémio, nomeadamente com Gravidade.

Bradley Cooper foi ainda nomeado na melhor realização em estreia, concorrendo com Bo Burnham (Eighth Grade), Carlos Lopez Estrada (Blindspotting), Matthew Heineman (A Private War), e Boots Riley (Sorry to Bother You).


Boots Riley

O prémio DGA é um dos principais indicadores para o Oscar desta categoria, com apenas sete vencedores da DGA, desde 1948, a não conquistarem o Oscar de melhor diretor. A última divergência surgiu em 2013, quando Ben Affleck ganhou o prémio DGA por Argo, não sendo nomeado ao Oscar.

Os vencedores da DGA serão anunciados a 2 de fevereiro.

«Vice» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Depois de uma “economia para totós”, Adam McKay providencia algumas lições da politica norte-americana neste biopic costurado em severos tons de sarcasmo. E para quem viu The Big Short, não era de esperar outra coisa.

Em Vice seguimos o percurso do mais notório dos vice-presidentes dos EUA, e segundos as “más-línguas” em tom de verdade, um dos mentores da “invasão do Iraque” e da grande mentira do seculo XXI, as armas de destruição massivas nunca encontradas em território de Saddam Hussein. Sim, esse mesmo, Dick Cheney. Vestindo essa pele de lobo sob vestes de cordeiro, Christian Bale em sacrifício físico e em plena capacidade de mimetismos é o “boneco” perfeito para esta analogia de McKay sobre os disfarces da presidência norte-americana.

Em tempos de Trump e de uma politica constantemente descredibilizada, um filme como Vice vem servir como uma bandeja de pedagogias para mundanos, realçando o sabido sobre um dos episódios mais negros da História recente dos EUA e como George W. Bush, à luz dos ideais de Oliver Stone, era um mero fantoche de um enorme palco chamado Poder. Visto como um dos seus braços direitos, e quiçá, o grande punho do Governo, Cheney orquestrou todo um jogo de guerra em jeito de Dr. Estranho Amor, e Adam McKay seguiu o seu percurso de ascensão (o mais medíocre dos homens convertido no mais brilhante dos políticos), tentando prescrever os pecados morais desse mesmo ecossistema onde a maioria não tem lugar sob as decisões de poucos.

Filme cínico que alterna a sua veia de cinebiografia de vista grossa para a award season com uma trocista crítica a esse mesmo subgénero (as difusas utilizações do “cartões”, a deslocação do “final feliz), Vice funciona como um Guia Politico para Totós, enquanto espelha o evidente, usufruindo de uma ambiguidade para desaguar num dos mais ingénuos gestos de maniqueísmo (como se costuma dizer: “quem vê caras não vê corações”).

Por um lado é a denuncia de caracter, as más índoles que apoiam a constituição e preenchem lugares no Parlamento, elementos caros para um filme no fundo "chico-esperto" que se orienta por sósias instrumentais (mesmo que se note o esforço de Bale em rasgar a sua figura-cópia). 


Hugo Gomes

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