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Manoel de Oliveira "resgatado" da invisibilidade. Uma retrospetiva Cinemateca Portuguesa.

  • Publicado em Artigos

Cristovão Colombo: O Enigma (2007)

A Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema será palco da primeira retrospetiva integral da obra de Manoel de Oliveira, intitulado de O Visível e o Invisível.

O cineasta português será alvo de revisão e imortalização num programa que arranca no dia em que Oliveira celebraria o seu aniversário (seriam 110 anos, para ser exato), que se prolongará até ao inicio do próximo ano. Uma iniciativa que pretende celebrar todo o seu percurso cinematográfico, o qual, tirando as óbvias menções das suas curtas, médias e longas metragens, incluirá os seus filmes encomendados que de certa forma serviram de sustento ao realizador.

Talvez envolvido por um certo estigma, suscitado por volta da década de ’80, numa altura em que se edificava ainda mais a barreira entre o cinema de autor e o comercial em Portugal (a desaprovação do seu Amor de Perdição foi um dos impulsores dessa corrente), Oliveira foi sempre, apesar de tudo, apreciado pelas mentes inteletuais deste mundo fora, ostentando um cinema de artifícios com um certo primitivismo (salienta-se), que embebia sobretudo de muita da criação literal e teatral do nosso património.

“Teatro filmado” como muitos apelidavam (num jeito pejorativo), o cineasta “demoliu” diversas vezes essa barreira ténue que separava as duas plataformas / artes, como é o caso (curiosa coincidência de palavras), Mon Cas (O Meu Caso, 1986), onde a perspetiva e o contexto entram em acordo com um gesto de recriação narrativa, ou a ópera que vai desconstruindo o glamour associado ao serviço de um crítica social a uma aristocracia decadente em Os Canibais (1988).


Mon Cas (O Meu Caso)

Como se poderá evidenciar neste ciclo exaustivo em sua homenagem, Manoel de Oliveira nunca foi um realizador de uma só linguagem cinematográfica, aliás, os períodos fizeram parte do seu percurso como um dos mais notórios artistas, seja qual for a arte. Começando no Cinema como uma paixão jubilante, um prazer em filmar que o levou a concretizar Douro Faina Fluvial (1931) nas suas horas vagas, Oliveira solidificou a sua visão cinemática através da montagem e o poder desta em prol de uma narrativa. Visto como um dos grandes tesouros da nossa cinematográfica, a curta-metragem contraria o rótulo que mais tarde seria atribuído ao cineasta: o detentor de planos longos, “mortos” e sem conflito.

Os seus primeiros anos foram sobretudo devedores ao poder da montagem (mesmo com Aniki Bobó, o seu filme mais popularmente apreciado), até porque Oliveira é um homem do seu tempo, sendo que mais tarde parte para outras aventuras, motivadas por uma acidental descoberta. Através de uma tradicional encenação da Paixão de Cristo pelos habitantes de uma aldeia em Trás-os-Montes durante a rodagem da A Caça (1963), o realizador deparou-se com um retrato etnográfico de um Portugal profundo e à sua maneira místico. A visão despertaria ao mesmo um gosto pela teatralidade, pelo afastamento do real (mesmo que encenado) e uma aproximação da moldável fantasia do crer. Tornou-se na formulação de uma perversa docuficção, e assim nasceu Ato da Primavera (1962), indiscutivelmente uma das suas obras importantes que acabaria por dar-nos um realizador novo até então. Foi um percurso que o guiou à sua próxima fase, que se poderia resumir em “artística”, visto que nesta mesma etapa salientaria a fixação pelo palco e pelas quebras da canónica narrativa digna do chamado storytelling, recorrendo ao teatro e à literatura.


O Ato da Primavera

A partir dos anos 90’, Manoel de Oliveira, pelo positivo ou pelo negativo, torna-se numa tradição do anuário de estreias, produzindo uma obra em cada ano. Fase que se prolongou até ao fim dos seus dias, onde gerou alguns das mais respeitadas pulsações de criatividade e ao mesmo tempo os seus filmes menores, fruto de um cansaço, uma exaustão alicerçada numa vontade de filmar como uma resistência à vida.

Diversas vezes Manoel de Oliveira apoiou-se na História (“Non” ou A Vã Glória de Mandar é um dos mais saudosos hinos ao espirito português) e nos escritos de Augustina Bessa-Luís (a qual suscitou 7 obras, não incluindo com isto os diálogos do muito pessoal Visita ou Memórias e Confissão, gesto biográfico que é resgatado após a sua morte como um póstumo e novo filme), que validaria uma gosto pelos diálogos pomposos, onde a força das palavras proferidas pelo seu grupo de atores (um rol de caras que gradualmente se converteriam em residentes de uma “fundação Oliveira”) salientaria a emotividade do artificialismo.

Os cenários de set, o cinema de estúdio hoje perdido no nosso panorama, a luz que incinde em cada espaço com um fixação magnética (a recordar a sua última longa, O Gebo e a Sombra, onde a fotografia esteve a cargos de Renato Berta), marcas que se imprimiram na pele de Oliveira, convertendo-o em muito mais que um cineasta, mas um ícone, para o bem e para o mal, colocando o Cinema Português no mapa.


O Gebo e a Sombra (2012)

 

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Trailer: «Shaun The Sheep» regressa em mais um filme

Shaun The Sheep, ou em bom português Ovelha Choné, vai protagonizar mais um filme. Depois do êxito de 2015, a criação em stop-motion dos estúdios Aardman (os mesmos de Chicken Run e as aventuras de Wallace & Gromit) vai confrontar-se com uma invasão alienígena. O primeiro trailer já se encontra disponível.

Shaun the Sheep Movie: Farmageddon, dirigido por Richard Phelan e Will Becher, contará com estreia nos inícios de 2019 (em Portugal aposta-se com antestreia no Festival Monstra).

«Roma» é o filme do ano para a Sight & Sound

Chegou a vez da revista Sight & Sound divulgar os melhores do ano. Roma, a obra de Alfonso Cuáron, conquistou mais uma lista, desta vez constituida por 20 títulos, escolhidos por 164 críticos internacionais. Entre os mais bem destacados estão ainda os mais recentes trabalhos de Paul Thomas Anderson e do sul-coreano Chang-Dong Lee.

1º Roma (Alfonso Cuarón)

Phantom Thread (Paul Thomas Anderson)

3º Burning (Chang-Dong Lee)

Cold War (Pawel Pawlikowski)

First Reformed (Paul Schrader)

6º Leave No Trace (Debra Granik)

7º The Favourite (Yorgos Lanthimos)

You Were Never Really Here (Lynn Ramsay)

Lazzaro Felice (Alice Rohrwacher)

Zama (Lucrecia Martel)

11º Le Livre d'Images (Jean-Luc Godard)

12º If Beale Streets Could Talk (Barry Jenkins)

13º BlackKklansman (Spike Lee)

16º Shoplifters (Hirokazu Koreeda)

16º The Other Side of the Wind (Orson Welles)

16º Shirkers (Sandi Tan)

17º Sorry To Bother You (Boots Riley)

20º Visages Villages (Agnès Varda, JR)

20º Western (Valeska Grisebach)

20º The Rider (Chloe Zhao)

«A Nossa Loucura » (Our Madness) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Por mais (más) críticas que existam, assim como desprezo vindo (principalmente) da imprensa portuguesa, A Batalha de Tabatô foi possivelmente um dos primeiros filmes nacionais a apresentar uma África sob uma perspetiva fora do olhar colonialista. Uma canção de amor frente ao ódio, assim como mandam as melodias reconhecíveis e imortalizadas de John Lennon. Pegando agora em Our Madness, a segunda longa-metragem de João Viana, Tabatô ficou além, converteu-se num espectro cada vez mais longínquo (até de certa maneira, parte integrante dessa nova conceção). Nesta nova “loucura”, a narrativa torna-se mais críptica, o simbolismo apodera-se da encenação do real, os horrores tornaram-se abstratos, assim como a nossa memória da história.

Aqui, a Guiné de Tabatô é substituída por Moçambique, um país registado pelos olhos da loucura oriundas de um sanatório, onde um muro separa esse biótopo utópico das diferentes devaneações para com o vermelho-sangue dos assombrados.  Como Gil Vicente e as suas Barcas Infernais, o Louco corresponde à figura do verdadeiro sem o filtro da cordialidade civil, hoje, equiparado a discursos populistas. Em Our Madness, essa loucura materializa-se em fantasias impactantes em direção ao centro da raiva exercitada pela Humanidade. Novamente a Guerra Colonial serve de fronte às sentenças da culpa branca, e a Escravidão um elo para com o ensurdecedor silêncio que se faz sentir.

É um filme que presta no seu “surrealismo”, assim chamaremos com a nossa indiscrição, à vontade de ser decifrado. Contudo, o críptico deste amontoado de representações prende-se, não fechando um filme mas tornando-o vaporoso, não denso, e sim etéreo. As interpretações são múltiplas nesta viagem por uma narrativa quase isente de diálogos, onde a voz off sussurrante atenta-se de forma xamânica nas diferentes questões (essa encruzilhada representativa leva-nos a encontrar gratuidade nas próprias reinvenções do fisico). Desde o país imaginário nunca concretizado, aquele visto pelos olhos do louco(a), ou dos ídolos ocidentais que não se vingam em terras sangrentas cujo vermelhão é diversas vezes filtrado pelo preto-e-branco (a fotografia é da autoria de Sabine Lancelin, que trabalhou com cineastas como Manoel De Oliveira, Raoul Ruiz ou João Mário Grilo) ou até mesmo pelo negativo (o contraste do eros e thanatos).

Our Madness é assim, uma viagem por grifes da irracionalidade, o único pensamento digno de uma Humanidade em autodestruição. João Viana aproxima-se mais das montanhas sagradas de Jodorowsky, é o dialogo profano a prevalecer sob a naturalidade das coisas. Mas falamos de temas abstratos aqui, o colonialismo continua a prevalecer como algo (não)concreto apenas enraizado na fé de alguns. Tabatô está longe, a Loucura sente-se, e João Viana persiste.

Hugo Gomes

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