Logo
 Imprimir esta página

«Insaciável»: como a série mais enxovalhada do ano se tornou no ato mais revolucionário de 2018

À semelhança da agressão no derradeiro episódio da primeira e potencialmente última temporada de Insatiable, também a crítica não tardou em reagir da mesma forma, gritando para si: "Sou uma boa pessoa! Sou uma boa pessoa! Sou uma boa pessoa!". 

Convém dizer de antemão o inevitável: não, Insaciável não é perfeita, e não parece algo que almeje ser, em boa verdade. Ou melhor, seria difícil para uma obra que goza de um apetite tão ou mais voraz como a sua protagonista/antagonista sê-lo. A ânsia por querer mais leva a esta criação de Lauren Gussis a uma lista de compras atípica, que vai sim do bullying às pessoas gordas ao poliamor, passando pelo meio pelo assédio, pedofilia, homossexualidade, bissexualidade, transgenderismo, religião, suicídio, cultura selfie, pelas prioritizações por vezes maradas que temos na hora de nomear vítimas e agressores, enfim... se pensarem num tema polémico do dia, as probabilidades de o verem retratado aqui são altas. 

Claro que esta atitude entre o punk e o atirar barro à parede para ver o que cola teria logo à partida detratores à vista. E nem foi preciso ver um único episódio, mas sim um trailer, para se tecer todo o tipo de julgamentos, apelando via abaixo-assinado o cancelamento da série, por fat shaming (termo inglês que significa à letra "envergonhar gordos"). Curioso como o gritar pela discriminação por vezes tem o efeito perverso de revelar a maior das discriminações, a mania recente de se varrer para debaixo do tapete temas desconfortáveis, só porque não adotam claramente uma postura pró ou contra, mas sim, observam e mimicam o que está de podre na nossa sociedade (estamos a falar afinal da mesma América que forçou que a 2ª temporada de 13 Reasons Why tivesse um aviso "moral" no início de todos os episódios). E na nossa saciedade natural, também, acrescente-se.   

Convém esclarecer os que conseguiram, por sorte, escapar à onda de ódio perante uma potencial propagação de ódio (o chamado "fogo por fogo" dos ditados populares, suponho). Patty é uma adolescente gorda, que encontra na comida o seu melhor amigo para além da amiga Noonie e dos filmes de Drew Barrymore. "O que faria Drew Barrymore" é assim o seu "O que faria Britney" para esta milenar relegada para uma estatística, uma alcunha ("Fatty Patty"). Até que um dia, um sem-abrigo tenta roubar-lhe um chocolate, dando-lhe um murro no maxilar que lhe impede de comer sólidos ao longo do verão. Et voilá, como um conto de fadas, ou um filme dos anos 80 (como a série faz questão de dizer), a Gorda transforma-se em Bela. As "boas pessoas" assim autointituladas começam obviamente a espumar pela perpetuação do estereótipo nesta história de Cinderela. 

Mas calma. Há mais. E mais. E mais. Obviamente que esta transformação tão repentina acaba por dar torto. Patty não está de todo habituada ao elogio, e mesmo (bem) mais magra, não consegue enfrentar o biquini. Num dos momentos mais tocantes em várias tentativas de apelar à lágrima que a sátira tem, a melhor amiga de Patty tenta chamá-la à razão, ao seu auto-ódio, dizendo que mesmo gorda, a considerava bonita. Mas a verdade é a que poucas séries conseguem abordar, de forma mais ou menos explícita: mesmo tendo emagrecido, permanece aqui um buraco por preencher - e dado que o trocadilho é a arma de eleição aqui, podem garantir que o buraco é tão metafórico como desejarem; nele cabe o que se quiser meter. No caso de Patty, a droga de eleição principal será mesmo comer. Mas com este desejo entretanto domado por um novo sonho em ser Miss América (entra o co-protagonista, co-narrador, com os seu rol de problemas pessoais por resolver Bob Armstrong, advogado e treinador de modelos nos tempos livres), surge então um desejo igualmente incontrolável por sangue, por uma frustração palpável.

A frustração de Patty será ironicamente a frustração de muitos dos críticos que mais deitaram abaixo a série, mas preferiram olhar para o superficial, quando a série não se contenta por tanto, e dá os ziguezagues típicos da mudança de idade que em simultâneo oferecem a lenha necessária para a incendiar e repudiar. A saber: uma irritação pelo tratamento mediático díspar que se dá às pessoas consoante o seu peso corporal, à culpabilização fácil da obesidade como sendo uma preguiça, um problema de primeiro mundo, ignorando assim o contexto, a raíz - como a saúde mental do indivíduo, o seu historial familiar de negligência ou abuso.

Sim, a série prepara um bolo de várias camadas, disforme, e come-o, e lambuza-se nele. Começa até a escavar ao ponto de não encontrar uma saída que não encontre um terreno pantanoso, deliciosamente camp, polissexual, feminino, onde todas as personagens pretendem algo de outras que se torna bastante difícil de obter, se não por violência ou chantagem. Dá o papel principal a, sim, uma estrela Disney (Debby Ryan), coloca-a num fato especial para conferir gordura extra nos primeiros momentos, para ali pelo meio comparar, com uma audácia teen (ingénua), tão precisa na era do #MeToo e do politicamente correto, a um transsexual (outro dos momentos mais criticados).

"- I used to be fat.

- I used to be a boy.

A brincar, a brincar, a postura adolescente traquinas, presa muitas vezes em trocadilhos "pimba", de Insaciável revela-se até ver no ato mais revolucionário na televisão norte-americana em 2018. 



Itens relacionados

Copyright © 1999-2018 C7nema. Todos os direitos reservados/All rights reserved.