Morreu aos 91 anos a realizadora e argumentista Liliane de Kermadec.

Nascida na Polónia, Kermadec estudou para ser atriz nos conservatórios de Nancy e Estrasburgo, antes de seguir para Paris, onde trabalhou no Teatro Vieux-Colombier. Na década de 1950 começou a trabalhar como fotógrafa de cena, primeiro para Jules Dassin (Rififi, 1955) e depois – já com o seu nome nos créditos – em Duas Horas na Vida de Uma Mulher (1962) e Muriel ou o tempo de um regresso (1963), respetivamente assinados por Agnès Varda e Alain Resnais.
Além de participar como atriz em A Última Aventura (1959), de Alex Joffé, e As Donzelas de Rochefort (1957), de Jacques Demy, Kermadec passou para a realização em 1963 com “Le Temps d’Emma”, uma curta sobre a pintora Emma Stern. Dois anos depois filmou outra curta, “Qui donc a rêvé?”, onde trabalhava com uma parceira da luta feminista da época: Delphine Seyrig.
Numa entrevista televisiva onde se juntaram cineastas que tinham rodado com Seyrig, nomeadamente Chantal Akerman, Liliane de Kermadec e Marguerite Duras, esta última referiu: “O cinema feminino faz parte de um cinema diferente. O cinema diferente é, por definição, um cinema político. Não existe qualquer comparação em termos financeiros entre as obras do senhor [Henri] Verneuil e de Liliana Kermadec.“
Kermadec estreou-se nas longas-metragens em 1972, com “Home Sweet Home”, obra filmada a preto e branco e produzida por Paul Vecchiali, mas foi em 1975 que conquistou o público e a crítica com Aloïse (1975), onde dirigia Isabelle Huppert e, mais uma vez, Delphine Seyrig. Presente no Festival de Cannes, o filme coescrito pela realizadora e André Téchiné seguia a vida da artista suíça Aloïse Corbaz, uma mulher internada durante quarenta anos por esquizofrenia que preserva a sua criatividade e expressão através do desenho.

Huppert, Kermadec e Seyrig em Cannes
Quando tudo parecia indicar que a sua carreira ia arrancar a todo o gás, chega um valente tropeção. Três anos depois do sucesso de “Aloïse”, inicia os trabalhos de “Sophie et le Capitan”, uma nova longa-metragem. Porém, apenas duas semanas depois de começar as rodagens, estas são travadas pelos produtores Irene e Serge Silberman, impedindo assim a sua estreia numa grande produção internacional.
Ao que consta, os Silberman suspenderam a produção do filme (que se baseava numa história controversa e erótica de travestismo) após ficarem desapontados com o resultado das primeiras semanas de filmagens. Temendo o desastre financeiro do filme, que tinha grande orçamento e era protagonizado por Julie Christie, a dupla deu por encerrado os trabalhos. Kermadec ficou terrivelmente afetada com essa decisão e, apesar do apoio de Julie Christie, dado através de uma série de conferências de imprensa destinadas a retomar os trabalhos, no inverno de 1979, o projeto foi finalmente abandonado, seguindo-se uma batalha em torno da propriedade das filmagens executadas.
Depois disto veio uma longa travessia no deserto cinematográfico, virando-se Kermadec para o pequeno ecrã, executando, entre outros trabalhos, “Le Petit Pommier” em 1980; “Personne ne m’aime“, em 1982; “Un moment d’inattention“, em 1986; e “La création du monde de Théodore”, em 1991.
Em 1994 regressa ao cinema, mais uma vez seguindo mulheres fortes e maduras que sobrevivem num ambiente hostil. Em “La Piste du Télégraphe”, filme passado na década de 1920, acompanhamos uma camareira russa em Nova Iorque que decide voltar a pé à Sibéria (pelo Estreito de Bering), onde nasceu.

“La Piste du Télégraphe”
No novo milénio, o “registo do real” foi o seu principal foco, primeiro com “La route de la soie chinoise” (2000) e depois investigando a complexa questão de Nagorno-Karabakh em 2005 (“La très chère indépendance du Haut Karabagh”).
Em 2008, na altura com 80 anos, segue novamente para Nagorno-Karabakh com a sua pequena câmara de filmar e executa “Le murmure des ruines“, um híbrido classificado de “amador” pelo Le Monde, que foi coescrito com os moradores de uma vila emaranhada nos escombros da guerra.
“Um dia, ela ligou-me desesperada, pois havia competido em Cannes em 1975, e sentia-se vazia, sem produtora, sem ninguém para acompanhá-la na sua criação e com a consciência de não ser mais capaz de ir às profundezas da China com sua pequena câmara, como o fez em 2009 e 2011“, disse Evelyne Dress, membro da ARP (Sociedade de Autores Realizadores e Produtores), numa mensagem de despedida à realizadora.
Esses dois “projetos chineses” foram He Film, documentário sobre He Fu Quang, um homem que percorre a China rural, levando o cinema e a arte até às pessoas; e “Péripéties et perfections des acteurs de l’Opéra de Pékin”.
Cinco anos depois chegou “Le cri des fourmis” (2016), também um trabalho documental, mas agora no Uruguai, onde acompanha oito antigos Tupamaros, entre eles José Mujica. Em 2018 executa o seu último trabalho após recorrer a donativos: “Paris ou l’Utopie perdue“.
Segundo Evelyne Dress, Kermadec deixou um projeto por executar e que a cineasta lhe tinha confidenciado na semana passada: um filme sobre um miúdo durante o Holocausto nas ruínas de Varsóvia. “A sua preocupação era escolher o idioma das filmagens. (…) Ela morreu antes de filmar, mas, tenho a certeza, ela foi para lá com sua pequena câmara e encontrará uma maneira de enlouquecer Deus“, concluiu.

