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«Marighella» é um espetáculo de ação pautado pela dialética

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No meio da caçada pelo guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), lá pelos idos de 1968, um ano interminável para os brasileiros, dado seu simbolismo sombrio para nosso passado militar, um americano ligado ao governo brasileiro, cujo papel não se explica bem (como não poderia mesmo se explicar, dada a presença da CIA por lá, naqueles anos), cobra do delegado Lúcio, o rastreador de militantes ditos subversivos, maior eficiência. Essa cobrança dá se em uma das comentadas sequências de Marighella, o primeiro filme dirigido pelo excepcional ator baiano Wagner Moura (Tropa de elite), exibido na sexta na reta final do Festival de Berlim.

Charles Paraventi é o representante made in USA e Bruno Gagliasso vive Lúcio... vive, não... transborda fúria. Lúcio vira se para o "gringo", destilando ódio e fala: "Vá mandar no seu país". Gagliasso, estrela da atual novela das nove da TV Globo (O Sétimo Guardião), liberta ali o Klaus Kinski que há dentro dele e se põe na cólera dos deuses, desafiando autoridades e exercitando dialética. É essa a palavra central do filme de Wagner: um competente espetáculo narrativo que consegue levar a plateia a refletir sem maniqueísmos ou retóricas baratas. Atacam-se falas da esquerda e da direita, tendo um Seu Jorge luminoso a galvanizar as incongruências da sua personagem, o poeta, deputado e defensor da luta armada Marighella, pai amoroso antes de tudo. A sua relação com o filho costura toda a longa metragem, que ganha, plasticamente, contornos trágicos na luz esmaecida, chumbada de Adrian Teijido, um fotógrafo que traduz com cada vez mais vigor as entrelinhas das dramaturgia que encampa.

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Editado com vertigem, à la Costa-Gavras (em Z), Marighella funcionou como um "filme de encerramento" pra Berlinale 2019 com uma beleza, uma nobreza e um virtuosismo técnico na direção impecáveis. Não há que comparar Marighella com Tropa de elite, nem Wagner Moura com Zé Padilha. São caminhos bem distintos. Olhares em estéticas que, por vezes, até se tangenciam, mas correm por veios autónomos em seu ethos. Wagner estreou como realizador com uma enorme coragem e desenvoltura, causando a melhor das impressões em Berlim. Arrancou de Gagliasso uma atuação de marcar época. E as suas cenas de ação fariam Vin Diesel aplaudir. Mas não há sequência mais febril que a de um hino nacional, cantado em coro, que entra quando menos se inspira, dando a um elenco de veteranos e jovens talentos (com destaque para Bella Camero e Humberto Carrão) um holofote de ética e estética. É um filme de raça, de quem está aprendendo a dirigir na liderança, com muito a dizer (e com segurança no que diz).

Acerca da competição oficial, permanece o favoritismo de God exists, Her name is Petrunya, de Teona Strugar Mitevska, sobre uma historiadora sem emprego que é hostilizada ao tocar numa cruz em que só homens poderiam pegar. Há ainda uma aposta em láureas para La Paranza dei Bambini (Os Meninos da Camorrapt; Piranhasbr), de Claudio Giovannesi, sobre um grupo de adolescentes a serviço da máfia. Mas os críticos andam apontando uma outra direção para o palmarês aqui.

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O preferido da crítica europeia, adorado pela Cahiers du cinema, o israelita Nadav Lapid [na foto acima], um realizador de 43 anos, consagrado por The Kindergarten Teacher (2014), confirmou seu prestígio, construído de 2003 para cá na forma de nove filmes, ao conquistar, na última sexta, em terra alemã, o Prémio da Crítica, dado pela Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, na Berlinale.69. Synonymes, a sua nova longa-metragem, esbanja rigor formal em seus enquadramentos ao representar uma reflexão sobre identidade nacional, em tempos de tensões políticas na Europa. É um dos 16 concorrentes ao Urso de Ouro de 2019 e tem fortes chances de sair daqui com o troféu de realização. Na sua trama, Yoav (o ótimo Tom Mercier), um jovem vindo de Israel que tenta a sorte na França, tenta apagar seu passado e criar uma nova identidade para si, adaptando-se a uma realidade que não é a sua.



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