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Olhares do Mediterrâneo: sexualidade e doença em destaque hoje (29/09)

Alguns dos objetos cinematográficos mais interessantes do Festival Olhares do Mediterrâneo, a decorrer no cinema São Jorge, em Lisboa, são exibidos hoje, sexta-feira (29/09), em particular a sessão dupla das 21h30, onde em dois trabalhos de géneros distintos – ficção e documentário – são apresentadas duas mulheres confrontadas por problemas de saúde que definitivamente terão impacto no seu futuro e na sua sexualidade.

Primeiro surgirá Les bigorneaux, a quarta curta assinada pela realizadora e atriz Alice Vidal, que coloca uma jovem a ter de lidar precocemente com a Menopausa. Vidal carimba o argumento entre o drama e a comédia, focando-se essencialmente na relação entre a nossa protagonista, Zoé (Tiphaine Daviot), e o pai (Philippe Rebbot). Os dois trabalham num bar, mas após descobrir o seu problema Zoé quer mudar de vida, entrando em conflito com o progenitor, que nitidamente não sabe lidar com a situação. Com uma interpretação carregada de raiva e frustração por parte de Daviot, Les bigorneaux acaba por se revelar um filme terno e esperançoso, tal como a obra que se lhe segue na programação.

A Tale of Two foi o penúltimo projeto documental de Zohar Wagner, documentarista, artista de performance, poeta e até crítica de cinema, que nas suas obras investiga a sexualidade feminina, o poder entre homens e mulheres, a emancipação e a exploração sexual. Isso está patente em trabalhos anteriores, como Doll – onde revisita o seu passado como stripper em Nova York -, ou Simanay Metiha, onde explora sua sexualidade durante a gravidez e após o parto.

Em A Tale of Two, Zohar parte numa viagem pós-parto em busca do voltar a sentir-se atraente, procedendo assim a uma cirurgia que lhe aumentará o peito. Mas se essa jornada inicia-se com esse propósito, rapidamente o caso muda de figura quando complicações de saúde a obrigam a tomar uma decisão marcante: avança ou não com uma Mastectomia?

Zohar faz um balanço muito curioso nas imagens que apresenta, visitando o espectador as suas performances artísticas (onde poesia reflete o dia a dia), as visitas ao médico, entre e a esperança e a frustração, e as conversas com o marido, onde se discute o futuro, mas também o passado (sempre constante na obra da realizadora). Nisto, a Tale of Two acaba por ser impactante, não só pela temática e dramatismo inerentes, mas por dar a conhecer uma artísta que trespassa nas suas atuações todos os sentimentos que lhe corroem o espírito.

Papagaios e migrantes

Ainda no dia de hoje, e espalhados em duas sessões, temos também três objetos curiosos de análise. Primeiro, The Parrot, uma farsa que coloca uma família de judeus mizrahim (do médio oriente, ou que viveram em países islâmicos) a ocuparem uma casa em Haifa que pertencia a Palestinos (um crucifixo numa parede deixa a dica que seriam cristãos). Com a casa veio o recheio, e com ele está uma arara tagarela que continuamente lança frases pronunciadas pelos donos anteriores.

Protagonizada por Ashraf Barhom, conhecido entre nós como o grande ditador Jamal Al-Fayeed na série Tyrant, The Perrot não é propriamente um filme sobre o conflito israelo-árabe (apesar de ele estar inerente, pela ocupação da casa), mas acima de tudo do tratamento diferenciado, quase num sentido de castas, entre os próprios judeus.

Outro objeto curioso em exibição hoje é Behind the Sea, curta metragem em estreia mundial que aborda, através de relatos na primeira pessoa, a desilusão e as dificuldades dos migrantes na sua chegada à Europa. Assinado por Leila Saadna, é uma viagem humilde pelas tristezas alheias, mas a sua lente percorre as ruas de Argel e de Marselha com vivacidade, cores e música no primeiro caso, e uma paisagem de contentores deprimente no caso da cidade francesa.

 

Um olhar ao primeiro dia do Festival

O Festival Olhares do Mediterrâneo abriu ontem (28/09) com a exibição da curta O Cabo do Mundo, de Kate Saragaço-Gomes, estando reservado a estreia das longas-metragens com The Nurse, um drama de Dilec Celak sobre o relacionamento entre uma enfermeira complexada com o seu corpo e um ativista detido que entra em greve de fome.

Apesar de a espaços The Nurse conter em si duas personagens marcadas pela vida e pelas situações familiares que as acompanham, para além de uma clara referência à política turca nos dias que correm, o filme nunca consegue verdadeiramente estabelecer uma forte ligação com as suas personagens, isto apesar deste «lambe feridas» mútuo ter diversos diálogos poéticos e mensagens idealistas que não caem no vazio.

Os melhores momentos dia vieram sim das curtas, com Duvdevan à cabeça, num conto sobre uma jovem sexualmente livre que tem de lidar com a sua mãe esquizofrénica. Hila Amur consegue nos escassos 25 minutos do filme mostrar o que tem para dizer, servindo-se de boas perfomances das duas protagonistas e de uma câmara focada na expressividade e nos diálogos destas.

Uma nota ainda para o retrato da ativista Souad Doubi pela lente de Farah Abada em Je Suis Là; o revisitar da guerra a partir de um pedido de um copo de água em A Pedra, de Ana Lúcia Carvalho; e uma visita ao Rap da Tunísia  - e das dificuldades desses cantores no seio familiar - pelas mãos de Katri Manel.



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