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Fantasporto: tocados pelo culto de «A Touch of Zen»

Um salto ao Porto para a abertura da 37ª edição do Fantas. Seguramente, escasso para captar a dimensão do festival e diversidade das propostas, certamente insuficiente para a merecida cobertura. Ainda assim, motivou-nos a urgência de captar a pulsação das propostas a circular em redor do festival, lá para os lados do teatro Rivoli, como sempre dirigido por Mário Dorminski e Beatriz Pacheco Pereira.
 
O nosso périplo tripeiro não poderia ter começado melhor.  Como recusar a possibilidade de recuperar A Touch Of Zen, essa obra mestra de três horas do chinês King Hu, de 1971, e um clássico absoluto do género wuxia que faz parte da coleção Cannes Film Classics, de 2013, numa cópia primorosa em grande ecrã?
 
 
Seguramente, o filme indicado para perceber de onde surgiu a influência coreográfica assumida por Ang Lee para o fulgurante O Tigre e o Dragão, de 2000. Se bem que anos antes, já Sergio Leone havia bebido da mesma seiva (Era Uma Vez no Oeste), tal como Tsui Hark (Swordsman II), a que se juntaria Tarantino (Kill Bill) ou os manos Wachowski (Matrix), bem como todas as variantes (e são tantas!) que daí advieram, sem esquecer o recentíssimo A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien.
 
Uma imagem escurecida deixa entrever o complexo sistema de uma teia de aranha que acabará por se fundir em temas naturais de céu e natureza até desvendar as ruínas de um forte, iremos saber que está enfeitiçado, onde se desenrolarão alguns dos momentos decisivos do filme. Ainda assim, teremos de esperar quase uma hora até os sabres sejam desembainhados e brandidos em combate. É nessa gradual e poética evolução que Hu vai concebendo uma teia de um cinema rico e demorado no desenvolvimento de personagens. Isto até nos deliciar com a riqueza da sua técnica que não recusa os zooms súbitos, combates lancinantes, uso de cor invertida e mesmo ecrã dividido.
 
 
Assim nos rendemo-nos à sua composição quase pictórica do ambiente natural, guarda roupa e contraste de luz, ao sumptuoso dos bailados coreográficos de artes marciais, já aqui a usarem os cabos que permitiam essas acrobacias aéreas que se tornaram tão populares, em particular na sequência da floresta de bambu, seguramente objeto de estudo para muitos cineastas, devidamente apaziguados com esse clímax de um perfumado “toque zen” de não violência.
 
A narrativa evoca as atribulações do século XIV na China feudal e a tentativa de eliminar uma jovem dama próxima da corte da Dinastia Ming por decreto de um senhor da guerra que já matara o seu pai. Só que esta jovem é uma exímia discípula dos monges budistas Zen que usam um kung fu defensivo com efeitos muito eficazes, mas que surge como uma jovem sem posses que se aloja nesse mesmo forte. O seu caminho e o seu destino é atravessado pelo jovem pintor e professor Gu Sheng-zhai (Chun Shih) cuja mãe (Zhang Bing-you) o critica pela sua falta de motivação para vencer na vida e arranjar uma noiva. No entanto, ao receber no seu ateliê um misterioso solitário chamado Ouyang Nian (Tian Peng), cujo rosto se esconde debaixo de um chapéu um pouco à medida dos vilões de Leone, a história deste artista começará a mudar de rumo. Mas esta é apenas uma das diversas linhas narrativas que tricotam este filme complexo e desenvolvido ao longo de diversos anos.
 
 
Será já na segunda metade que se estabelece a rivalidade entre os presumíveis perseguidores, como o temível Men Da (Wang Jui) e o general Shih  Wenchiao (Pai Ying), bem como o monge impassível (Roy Chiao) que usa apenas os dedos para segurar um sabre ou repetir os mais brutais ataques, imprimindo assim o tal significado do “toque zen” ao filme. Jackie Chan, aqui a dar os seus primeiros passar na profissão, tem até uma curtíssima participação, de resto, não creditada.
 
Talvez não seja desajustado encarar o desenhador Gu como uma extensão do próprio King Hu, já que foram também essa vocação artística como set designer para os estúdios dos populares Shaw Brothers em Hong Kong, com quem Hu começara a sua carreira que o levaria depois à interpretação e, posteriormente, à realização. Já com a sua estrutura de pé, este meticuloso criador haveria de assumir-se como um verdadeiro homem dos sete instrumentos, assegurando a assinatura do guião, realização, montagem, cenários, guarda-roupa e mesmo a caligrafia para o título.
 
Apesar de não conseguir atingir o mesmo sucesso comercial do seu filme anterior, Dragon Inn (1967), ainda assim foi um título que o ajudou a afirmar-se como um dos mestres do género wuxia. De tal forma que em 2003, Tsai Ming-Ling haveria de prestar-lhe justa homenagem em Goodbye, Dragon Inn, o tal que se desenrola no interior de um cinema prestes a fechar as suas portas. Jia Zhang-ke prestar-lhe-ia também homenagem em A Touch of Sin (2013), numa espécie de tributo ao cineasta que desapareceria em 1997.
 
 
 


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