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Berlinale: Kaurismäki é a nossa esperança!

The Other Side of Hope
 
Foi com Kaurismäki que abrimos este sexto dia da Berlinale, com o seu novo filme, o estrondoso e surpreendente The Other Side of Hope. Nele encontramos um refugiado sírio que começa a trabalhar num restaurante em Helsínquia, pertencente a um vendedor de camisas ambulante, ao mesmo tempo que tenta reencontrar a sua irmã. Trata-se de uma obra com fortes traços humanistas, aliado à estrutura fílmica classicista e, no entanto, original do finlandês, onde não faltam todas as suas marcas, desde as cores vivas dos cenários aos concertos de Rock n’ Roll, que, associados a uma mensagem política atual, tornam o esforço ainda mais bonito. Seja pela mestria da encenação, seja pela relevância social, trata-se já de um dos fortes candidatos ao Urso de Ouro desta edição.
 
Igualmente memorável foi a conferência de imprensa onde, com o seu tom cínico e de cigarro eletrónico na mão, Kaurismäki falou que o filme pretende tocar “as três pessoas que forem vê-lo e que percebam que amanhã podem ser elas naquela situação”, que o título do filme “não quer dizer coisa nenhuma, originalmente chamava-se “O Refugiado”, mas assim pareceu-me mais poético” concluindo com “A nossa cultura é 1 mm de pó. Merkel parece ser a única interessada na situação dos refugiados, enquanto os restantes andam a fazer joguinhos. E isto não é um manifesto político.” e onde, para desviar as atenções da imprensa que estavam totalmente encaminhadas para a sua pessoa, pediu ao ator Sakari Kuosmanen para cantar um tema finlandês à capela.
 
Outra conferência seguiu-se, a do desapontante The Lost City of Z de James Gray. Falámos-lhe das expetativas que vinham com o trailer, de ser um filme de aventuras, mas do resultado final só nos fornecer cerca de 40 minutos na selva. Segundo ele, não são 40 minutos, mas metade do tempo de filme (mas se assim é, porque é que não é essa a impressão com que ficamos?), que não tem de corresponder a quaisquer expetativas porque toda a gente as tem (mas então, que reação espera da audiência quando lhe está a vender algo que não é o que a campanha publicitária aparenta?), que filmes passados totalmente na Amazónia já existem e que não queria fazer rip-offs (mas, Nas Teias da Corrupção não era, ao fim e ao cabo, um rip-off de Há Lodo no Cais de Elia Kazan?) e que as cenas da Inglaterra são aquelas que servem para mostrar o interior da personagem (ou assim o pretendem). Com as pretensões explicitadas, caberá a cada espetador decidir por si se estas foram alcançadas ou não.
 
 
The Lost City of Z
 
Posteriormente, foi exibido o único documentário em competição, Beuys de Andre Veiel em torno do artista germânico. Até agora, trata-se da melhor montagem dos filmes a concurso, usada de uma forma altamente criativa e quase ensaística. O que torna o filme pertinente e distinguível (e talvez justificável a sua inclusão para o palmarés principal) é o focar-se no artista enquanto criador inconformado e contracorrente, não dando relevância aos pormenores golelheiros da sua vida íntima, mas apenas ao seu trabalho. Que isso seja o suficiente para aguentar duas horas de filme, fá-lo um objeto didático pelo qual que, mesmo que saia desta edição de mãos vazias, ficamos gratos por ter assistido.
 
E a secção oficial fechou por hoje com Sage Femme (fora de concurso) de Martin Provost, conhecido pelos seus dramas Séraphine e Violette. Uma comédia dramática que reúne duas rainhas do cinema francês, Catherine Deneuve e Catherine Frost, nesta história onde uma parteira ajuda a antiga amante do pai a vencer um cancro. Embora a curiosidade pelo filme nasça das duas protagonistas, nunca se chega a alcançar o patamar de grandiosidade de representação que se esperaria. Para não falar da realização, mera formatação do cinema de autor francês recente. Uma desilusão que esperemos que seja remediada amanhã com a presença portuguesa de Villaverde bem cedo.
 


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