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Berlinale: o pior James Gray de sempre

The Lost City of Z

Mesmo que nos tenha reservado uma grande frustração do cineasta americano (já lá vamos), o quinto dia desta edição da Berlinale mostrou-se portador de uma grande heterogeneidade e consideráveis surpresas.

Com Bright Nights, o cineasta alemão Thomas Arslan regressa ao Festival que havia acolhido o seu Ouro há três anos através de um road-movie consistindo por um pai e um filho à descoberta da Natureza e onde os seus silêncios importam mais que qualquer diálogo que possam estabelecer entre si. É uma obra sofrida e sofrível sobre a reaproximação de um amor paterno que é sucessivas vezes posto em causa durante a fase dura que é a adolescência. Mas, por melhor transparecida que esteja a temática pré-estabelecida, será que o seu minimalismo não o atraiçoa face a alguns objetos complexos deste Festival que por aqui já passaram?

Seguiu-se o filme que, até agora, conseguiu arrecadar mais aplausos da imprensa no decorrer da sua visualização. The Party de Sally Potter é um fogoso ensaio huis clos a preto-e-branco em volta de um grupo de amigos (interpretados, todos eles, por grandes atores, entre os quais uma Patricia Clarkson imperial, Kristin Scott Thomas, Timothy Spall e um Bruno Ganz como ainda não tínhamos visto) que se reúnem para celebrar a promoção a ministra da saúde de um deles. Ao longo dos seus setenta minutos decorre uma série de revelações incalculáveis e transformações imponderáveis nas personagens que levará a um aumento gradual da violência psicológica naquela casa. O excelente trabalho de atores associada à forma como os seus rostos surgem iluminados e o constante turbilhão por que passam criam uma das experiências cinematográficas mais singelas e absorventes que por cá passaram.

The Party

Posteriormente, exibiu-se Mr. Long de Sabu, o filme que, até agora, foi o mais abandonado durante a respetiva exibição (pouco mais de sessenta espetadores). Uma mistura de géneros típica do cinema oriental, onde um homem passa de assassino-a-soldo imperdoável a cozinheiro bem-sucedido, numa tentativa vã de escapar a um grupo de mafiosos vingativos. É neste processo que conhece um rapaz e a sua mãe toxicodependente, cujas vidas irá mudar de uma forma irremediável. Embora não se trate de um dos pontos mais altos desta competição, é, no mínimo, um dos filmes mais raros da mesma, feito de forma competente e suficientemente emotiva.

E foi ao final da tarde que nos partiram autenticamente o coração com a nova longa-metragem de James Gray, The Lost City of Z (fora de competição). Aquilo que parecia um filme de aventuras ou, ainda, o Apocalypse Now do realizador americano, rapidamente revelou-se uma obra maçadora e dissimulada nas estratégias de marketing, em torno da história verídica do explorador Percy Fawcett que efetuou buscas consecutivas na floresta da Amazónia à procura de uma cidade dada como perdida. Ou assim o pensávamos… Gray foca-se essencialmente na vida de Fawcett na Inglaterra e dos subsequentes debates em que teve de intervir contra os colegas e até mesmo familiares acerca das suas ambições desmentidas, sendo que só cerca de 40 minutos dos 140 anunciados são, de facto, passados na floresta (obviamente, as melhores cenas do filme). Poderia funcionar como aprofundamento da psicologia do protagonista, mas o ritmo excessivamente moroso com que é desenvolvido, associado a prestações de qualidade dúbia e um final anti climático, fornecem um resultado pouco eficaz e de reduzida coesão.

E depois, nunca Gray pareceu tão deselegante a filmar, limitando-se a um par de planos nas cenas da Inglaterra que só lhes atribuímos a autoria pelas já reconhecidas cores de âmbar. Falta drama e conhecimento em como encená-lo neste pedaço de cinema. Olhamos para os lados durante a exibição, uns abandonam frustradamente a sala, outros não ocultam os bocejos nem as escapadelas de olhares para o relógio. No final, nem um par de mãos se atreve a bater. Chegamos assim à triste conclusão de que se trata, indubitavelmente, do pior filme do cineasta até agora.



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