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Berlinale: A Shyamalan polaca e um filme fantástico

Spoor

Mas estão a gozar connosco ou quê?!”, pensámos nós no final da primeira sessão deste quarto dia da Berlinale que abriu com Spoor, da polaca Agnieszka Holland. Trata-se, afinal, de um filme tão ingénuo que não hesitamos em chamar a cineasta de “a Shyamalan polaca”, onde nem falta um twist ending que de twist nada tem.

A intriga revolve em torno da investigação de uma engenheira civil reformada, defensora dos direitos dos animais, no desvendamento dos assassínios em série da sua aldeia, tendo as vítimas como semelhança o facto de todas serem caçadores. Falámos de Shyamalan porque não nos lembramos de ver um conceito tão absurdo desde que o cineasta indiano andou a brincar às plantas homicidas em O Acontecimento. No caso do filme de Holland, está lá a mesma seriedade ridícula que fez desse caso um fracasso crítico e, como tal, o que era suposto ser um policial, acaba por se tornar numa das comédias acidentais mais embaraçosas que vimos nos últimos tempos. Basta olhar para a cena em que a personagem de um entomólogo compara a morte de larvas numa floresta ao Holocausto. Quem, por um momento, julgar que se trata de humor intencional, é rapidamente desmentido pela postura séria com que o ator fala e a proximidade do grande plano com os olhos do mesmo.

Viceroy's House

Seguimos para Viceroy’s House (fora de competição),passado durante a partição da Índia nos anos 40 no palácio homónimo tendo como figuras centrais Lord Mountbatten e a mulher à medida que a independência da Índia se aproxima. Bastou ler o logótipo desconchavado da “BBC Films” para nascer a apreensão. E não houve enganos, já que se trata do típico telefilme de época que a empresa de radiodifusão pública nos habitou onde, se não falta algum cuidado no estudo do guarda-roupa, há uma enorme lacuna no que toca ao estilo cinematográfico, naturalmente académico e televisivo.

Fosse apenas o retrato liso das várias personagens históricas que vão surgindo (ao qual nem o pobre Gandhi consegue escapar) e já seria um espetáculo penoso o suficiente de se observar. Mas a realizadora Gurinder Chadhacoloca, adicionalmente, uma história de amor proibido ao barulho, numa tentativa fútil de obter empatia pela parte do espectador, levando a um final que é uma réplica absolutamente kitsch do último minuto de Rocky. Depois, é só aguardar pela entrada dos triviais cartões epilogares a letras brancas, prontos a reduzirem em cinco ou seis frases, toda a ação que decorreu nas décadas seguintes.

Una Mujer Fantástica

Felizmente Berlim redimiu-se com aquele que é o melhor filme da competição desde o magnífico On Body and Soul. Una Mujer Fantástica traz, após os 3 anos de Glória, o retorno de Sebastián Lelio ao Festival com um drama intenso sobre o processo de luto de uma mulher transgénero após o amante ter falecido. Atormentada pelo fantasma do mesmo enquanto, simultaneamente, tenta desvendar a utilidade de uma chave que lhe deixou, a protagonista passa por um longo processo de violência psicológica com a família do falecido que recusa a possibilidade dessa relação.

Este estudo da força de vontade de uma mulher em ultrapassar uma morte já a vimos este ano noutro filme, Jackie de Pablo Larraín (não por acaso, este é um dos produtores dos filmes de Lelio), mas, ao invés do ritmo irrequieto e oscilação cronológica dessa obra, Lélio encena o filme inteiro calma e determinadamente, sob uma forma perfeitamente fluida. Um triunfo de mise-en-scène que nos dá, de novo, esperanças nesta edição do Festival.



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