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Berlinale: ao terceiro dia, a felicidade não mora aqui

Felicité

E ao terceiro dia, esta edição do Festival de cinema de Berlim dá três tiros no pé na secção competitiva. Se não havia grandes expetativas, também é verdade que não acabou por haver entusiasmos, tendo faltado aplausos na audiência e risos no júri.

Começámos com Felicité, drama francês em torno de uma mulher negra de classe baixa, cuja principal vocação é cantar nos cafés do Congo. Determinada a tudo, tenta a ferro e fogo obter uma maquia elevada para pagar uma operação ao filho, após este ter tido um acidente trágico de moto.

E felicidade não tivemos nenhuma. Alain Gomis agarra-se à pele da sua protagonista de forma pseudo-Dardenniana (muito nervosismo, mas pouca intimidade) usando-a para finalidades explorativas, daquelas que celebrizaram von Trier ou que foram levadas a um extremo de sadismo na Vénus Negra de Kechiche. Como tal, sob o pretexto de estabelecer um retrato sobre o amor de mãe, assistimos a uma mulher a ser, gradualmente, despojada do seu orgulho, sendo despedida, humilhada e até mesmo agredida de diferentes maneiras. Claro que Gomis tenta justificar o seu título, criando um happy ending malogrado que apenas arrasta, desnecessariamente, o filme por mais meia-hora do que ao que se pediria.

Final Portrait

A situação piorou com Final Portrait de Stanley Tucci (fora de competição), onde Geoffrey Rush interpreta o artista Alberto Giacometti na criação daquele que viria a ser o seu último trabalho na pintura. Making off’s de quadros já foram feitos de melhor maneira, como A Rapariga de Brinco de Pérola, filme que vivia de um trabalho de fotografia genuinamente pictórico e quase sobre-humano, bem como de encontrar no silêncio dos seus protagonistas uma maneira de progredir com a ação. E, embora a direção fotográfica de Danny Cohen não se desaproveite, o realizador opta justamente pelo inverso, havendo a permanência de diálogos cómicos filmados num registo escassamente cinematográfico e muito reiterativo.

Restou-nos a última sessão que esperaríamos que funcionasse como qualquer lenitivo. Ao invés, deparámo-nos com a comédia austríaca Wild Mouse, um produto meramente industrializado já com lugar nas salas de cinema assegurado e que não merecia ocupar um lugar dos dezoito destinados a candidatos da secção competitiva a concurso. Após 25 anos a trabalhar no mesmo jornal, um crítico de música (interpretado pelo próprio realizador Josef Hader) é despedido sem grandes justificações. Nos meses que se seguem tenta então vingar-se do seu antigo patrão através de atos de vandalismo, ao mesmo tempo que abre uma montanha-russa inspirada na música clássica que tanto venera.

Se a imprensa achou piada, o júri liderado por Verhoeven não, já que manteve uma postura quase sempre inerte face à visualização do filme. E com razão. Falta inteligência na encenação (toda ela raquítica),desenvolvimento e psicologia nas personagens, bem como um propósito que mostrasse que o filme tinha algo que lhe destacasse de produções semelhantes. Não tem e, independentemente do que o nome acarrete, este “rato” não poderia ser mais obnóxio.



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