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Berlinale: Um belo filme, um jantar mal-servido e um «Trainspotting» nostálgico

Trainspotting 2

Ainda a recuperarmos da frustração compartilhada com os outros jornalistas da estreia mundial de Django, soltámos os primeiros aplausos entusiastas no final da primeira sessão do segundo dia desta edição do Festival de Cinema, com o magnífico On Body and Soul da cineasta húngara Ildikó Enyedi.

História de amor entre um diretor de um matadouro com um braço paralisado (débil de “corpo”) e uma controladora de qualidade, fria e emocionalmente distante (débil de “alma”), Enyedi constrói uma aproximação gradual entre estes dois seres totalmente opostos através de metáforas visuais (longas cenas de cortejo de um veado para uma corça), o uso acertado de uma palete de cores bem estudada (o azul gélido para ela, o laranja acalorado para ele) e um trabalho de atores coerente e com ótima noção de timing em cenas inspiradas que provocam o comportamento obsessivo-compulsivo mecanizado da protagonista, no que é uma original comédia romântica de autor.

The Dinner

O mesmo não podemos dizer, infelizmente, do prato mal servido que nos foi dado em The Dinner, adaptação homónima de um romance em torno de dois casais que se encontram a fim de discutirem o futuro dos respetivos filhos, responsáveis por atearem fogo a uma sem-abrigo. Estes atritos conjugais, encenados de forma fortemente teatral, poderiam ser descendentes de Quem Tem Medo de Virgína Woolf de Mike Nichols ou do mais recente Deus da Carnificina de Polanski, mas ao americano Oren Moverman falta a capacidade de transmitir a violência psicológica que fizeram dessas obras experiências viscerais e emocionantes. A falta de intensidade dramática e excesso de diálogos insípidos, associada a uma estrutura cifrada com flashbacks, fantasias e o jantar do título, acabam por provocar um efeito de letargia prolongada no espectador, cujo final abrupto não chega para compensar.

Prosseguimos, enfim, a uma das sessões mais atendidas do Festival. Trainspotting, o filme de culto dos anos 90 que catapultou Danny Boyle e Ewan McGregor para o estrelato, tem agora continuidade e denomina-se T2 (fora de competição). Regressam as personagens, agora atormentadas pela nostalgia, e regressa também a estética de videoclip surreal do realizador, feito explorador da textura das imagens digitais de uma forma mais ou menos reminiscente do cinema recente de Michael Mann. O que impressiona verdadeiramente (e que torna o filme apelativo) é a forma como Boyle exercita os músculos da memória da audiência, seja através da banda sonora cool, energética e parcialmente reciclada, ou da atualização de momentos icónicos que fizeram do original um sucesso.

É com ele (acompanhado por 3 membros do elenco) que nos encontramos na conferência de imprensa. Fala que o título, T2, é mesmo uma referência a o Exterminador Implacável 2 de James Cameron, que as personagens considerariam “um dos maiores filmes de sempre” e que se a sequela só saiu agora, foi porque não quis desapontar ninguém. A dada altura, perguntam-lhe que diferença há entre o Boyle de agora, com o dos anos 90. A resposta, sabemo-la nós: Boyle, como as suas personagens, está mais atinadinho, já não contendo interesse pelo “bizarro” das alucinações das mesmas, mas apenas pelas relações de fraternidade entre elas, usando-as para partir numa divagação invulgar sobre a irreversibilidade do tempo. Se este Trainspotting não é o mesmo, é porque não tenta sê-lo, mas porque tem a iniciativa de crescer com os 20 anos que passaram.



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