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Berlinale: Trump não tem unhas para a guitarra de Django

Reda Kateb (ator), Étienne Comar (realizador), Cécile de France (atriz) e Anatol Weber (moderador)

O céu sobre Berlim estava coberto pelas nuvens da incerteza relativamente à abertura desta secção competitiva. De manhã, o tema que encobriu o júri foi a política. Enquanto Maggie Gyllenhaal afirmava (sem referenciar nomes) “Quero que todas as pessoas à volta do mundo saibam que no meu país há quem resista” e o ator mexicano Diego Luna reforçava com “Estou aqui para aprender a demolir muros”, Paul Verhoeven emancipava-se de preferências, ripostando com “Vim para ver os filmes pelas suas qualidades e não pelas políticas.”. Este, aliás, a pedido de um dos membros da imprensa, contou mais uma vez todo o historial que antecedeu Elle, o seu grande êxito do ano passado que o fez ressuscitar de uma carreira estigmatizada e subvalorizada, qual fénix do meio das cinzas.

Mas eis que, com o tempo passado, chega a hora da sessão de abertura do Festival. Django de Etienne Comar veio (ainda bem) sem qualquer historial em que nos pudéssemos basear e que permitisse a fundamentação de julgamentos antecipados. Estreia do produtor francês na realização que quis adaptar um episódio “pouco conhecido” (palavras do cineasta na conferência de imprensa) da vida do guitarrista Django Reinhardt durante a Segunda Guerra Mundial, o resultado tem tanto de simpático, como de irrelevante, com a dose máxima de profissionalismo que se pode conferir a uma produção da máquina de indústria francófona, mas também com a necessidade de refugiar-se nas superfícies argumentistas sobre tópicos sérios. No entanto, é também no argumento que encontramos intencionais analogias políticas modernas à era Trumpista, juntando-se de forma inesperada, a guitarra de Django às vozes de Gyllenhaal e Luna daquela manhã.

Na conferência de imprensa essas intenções estarão mais explícitas, com Comar a salientar o “poder de liberdade” que a música tem em tempos opressivos, definindo a música de Django como “sagrada”. Mas serão, talvez, as palavras de Reda Kateb que mais pairarão nas mentes jornalísticas à saída, com o ator afirmando que a música é um instrumento militante e o resultado final da obra em que participou um conto anarquista. Não diremos tanto, mas agradecemos o esclarecimento sobre o porquê da escolha deste filme para abrir esta edição do Festival.



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