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«Verão Danado» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Se há algo que sempre pensei faltar no cinema português, mesmo naquele mais aclamado e festivaleiro, foi falar para os jovens. Uma coisa é termos tido há 20 anos Teresa Villaverde a lidar com os "adolescentes problemáticos" (para uma sociedade cada vez mais sociopata) em "Os Mutantes". Sim, foi um retrato duro, real. Mas Pedro Cabeleira fala de uma outra realidade, de outra "juventude inquieta" (aquela que outra geração, chamará certamente de "perdida", esquecendo-se, consciente ou inconscientemente dos seus próprios pecados).

O argumentista e realizador, assina à sua primeira longa-metragem, uma das obras mais fascinantes do ano, um retrato do "aqui" e "agora" - mas sem grandes tiques de montagem pós-modernistas - nos antípodas de morangadas televisivas, portanto - e contando com um leque de personagens "janadas" que podiam ser os nossos amigos. Podíamos (podemos!) até ser nós, ali numa dessas noites loucas com direito a direta no Europa Sunrise.

É essa empatia que, por entre tensões eróticas polissexuais crescentes (diria que já desde Boi Neon que não via um filme tão perdidamente erótico), típicas de corpos em busca do que há para vir e nunca efetivamente chegou - "à espera, do melhor que já não vem"? como a "Canção do Engate" de António Variações nos canta a meio do filme? - gera a rendição incondicional a esta obra, o viver cada rave e after, por muito longa que pareça. No centro deste corpo de conhecidos está Xico (excelente Pedro Marujo), um jovem que vem para a cidade, para um desses inúmeros quartos para alugar, para aí encontrar uma Lisboa festiva, de entretenimento garantido, até esse entretenimento se tornar demasiado anónimo e repetitivo. 

"Verão Danado" fala para o espectador, e deve constituir uma das provas essenciais dos últimos anos aos críticos dessa instituição chamada Cinema Português, que tanto se queixa de obras viradas, ou totalmente para o umbigo, ou totalmente para a caixa registadora. É um filme assumidamente mais artístico que comercial, sim, mas bem mais equilibrado do que o desequilíbrio que nos provoca - repare-se, como a opção de abrir a película com a vida aborrecida do campo, faz ligação direta com também o relativo estagnamento do after. Filme danado, este. 

André Gonçalves

«Only the Brave» (Só Para Bravos) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

 

A América está ferida. E não, não falamos de Trump - pelo menos diretamente. Falamos de algo que precisamente a administração do novo Presidente decidiu negar ser uma realidade: o aquecimento global, o aumento médio da temperatura do planeta, que por sua vez tem gerado uma vaga de incêndios cada vez mais difíceis de domar, com ou sem mão criminosa. Esta é uma realidade particularmente próxima - e particularmente fácil de empatizar, portanto - enquanto portugueses que testemunharam em 2017 a pior época de incêndios até ao momento.   

Only the Brave é então um "filme-memorial" feito para dignificar todas as vidas perdidas na luta contra a Natureza - mais concretamente, as dos que defenderam o incêndio de Yarnell Hill em 2013, que vitimou 19 bombeiros da então força especial "Granite Mountain Hotshots". É também um biopic coletivo, uma dramatização dos eventos que levaram à tragédia final, que infelizmente não se safa dos clichés do género que enunciei precisamente a propósito do "biopic" de Morrissey há uma semana atrás, num parêntesis. A saber: o separador "baseado em factos reais", e uma montagem final de todas as personagens reais com os atores respetivos.

O que há então para testemunhar de novo nesta obra? Bem, a força do fogo, e esta luta concreta do "fogo com fogo", foi raras vezes capturada de uma forma tão realista como a que testemunhamos aqui. E o realizador Joseph Kosinski (Tron: Legacy) amolece esta história de underdogs com final trágico anunciado ao contrapôr sempre o lado familiar com o lado profissional, e as dificuldades em conciliar estas duas carreiras, quando o trabalho se resume a apagar fogos, e a pôr a vida em risco sempre que se sai de casa. Há também aqui um momento curioso, de uma transferência de vícios, como se o fogo fosse o novo álcool, fazendo aqui ponte com o estado de guerra de Bigelow em The Hurt Locker. Claro que o filme imediatamente guina para outra direção, o que é pena.

Dos 20 membros do corpo, apenas quatro ou cinco ficaram minimamente desenvolvidos enquanto personagens, fazendo pensar que no meio de um tributo final tão igualitário, o filme tenha sido obviamente forçado a contar as histórias mais exemplificativas do culto do herói norte-americano (na vertente underdog, claro), auxiliadas por um naipe de atores com bagagem emocional suficiente para cumprir as marcas exigidas (Josh Brolin, Miles Teller, Jeff Bridges, Jennifer Connely, Andie MacDowell...).

Perante um espectáculo vistoso q.b., tão bem comportado, com tanto cuidado para não ferir susceptibilidades - tirando as dos canais lacrimais, reside também a frustração para quem desejaria algo mais... incendiário em termos narrativos. 

 

André Gonçalves

 

Amazonas despem-se para «Justice League»

Justice League estreia já nos cinemas nacionais esta quinta-feira (16 de novembro) mas um pormenor de guarda-roupa está já a causar a ira de alguns fãs. 

Em causa está a indumentária usada para vestir as amazonas do universo Wonder Woman. No filme com a "mulher maravilha" estreado este verão, notou-se um cuidado especial em vestir as mulheres, sem as sexualizar em demasia obtendo roupas efetivamente práticas. Ora, no filme que os espectadores poderão assistir a partir de quinta-feira, temos este grupo bem mais despido. No lugar das armaduras, temos biquínis. 

O site Golden Lasso fez já questão de comentar a opção adotada por Justice League e ilustrada na foto acima, dizendo o seguinte: "O retrato empoderador das personagens femininas, incluíndo a técnica de combate e a cultura estilizada das Amazonas foi uma das coisas que os fãs mais adoraram sobre" o filme de Patty Jenkins (Wonder Woman). O artigo prossegue, comparando o visual destas novas Amazonas ao de mulheres bárbaras de um jogo de Dungeons & Dragons. "Porquê mexer com a perfeição? Oh, certo. A equipa de realizadores e executivos composta só por homens queria que as mulheres lutassem em biquínis.". De salientar que também o designer do guarda-roupa "mudou de género" entre os dois filmes, por assim dizer: em Wonder Woman, era Lindy Hemming; em Justice League temos o figurinista Michael Wilkinson (Twilight).

 

 

«A Fábrica do Nada» vence Festival de Sevilha

A Fábrica do Nada, filme de Pedro Pinto, acaba de conquistar o prémio máximo do Festival de Sevilha: o Giraldillo de Oro. 

Tal como no artigo publicado por nós há umas horas atrás, Sevilha tem vindo a trabalhar sobre uma ideia de Europa, acabando por conferir também a este triunfo um carácter político - a obra trata afinal dos efeitos da crise da zona Euro; a quebra de um projeto europeu que este festival soube, como poucos, mostrar existir uma saída para novas narrativas. 

O júri decidiu atribuir o Grande Prémio (2º lugar) a Western, de Valeska Grisebach. Foi ainda atribuída uma menção especial ao novo filme de Lucrecia Martel (Zama), enquanto que o Prémio de Realização foi para Barbara de Mathieu Amalric. 

Segue-se então o palmarés completo: 

GIRALDILLO DE ORO
A fábrica de nada, de Pedro Pinho

GRAN PREMIO DEL JURADO
Western, de Valeska Grisebach

MENCIÓN ESPECIAL DEL JURADO
Zama, de Lucrecia Martel

PREMIO A LA MEJOR DIRECCIÓN
Barbara, de Mathieu Amalric

PREMIO AL MEJOR GUION
A Violent Life, de Thierry de Peretti

PREMIO A LA MEJOR ACTRIZ
Selene Caramazza por Corazón puro

PREMIO AL MEJOR ACTOR
Pio Amato por A Ciambra

PREMIO A LA MEJOR DIRECCIÓN DE FOTOGRAFÍA
Maria Von Hausswolff por Winter Brothers

PREMIO A LA MEJOR PELÍCULA DE LA SECCIÓN LAS NUEVAS OLAS
Niñato, de Adrián Orr

PREMIO ESPECIAL LAS NUEVAS OLAS (ex aequo)
The Wild Boys, de Bertrand Mandico e Pin Cushion, de Deborah Haywood

PREMIO NUEVAS OLAS NO FICCIÓN
Distant Constellation, de Shevaun Mizhari

PREMIO A LA MEJOR PELÍCULA DE LA COMPETICIÓN OFICIAL RESISTENCIAS
Ternura y la tercera persona, de Pablo Llorca

PREMIO DELUXE
El mar nos mira de lejos, de Manuel Muñoz Rivas

PREMIO EUROPA JUNIOR
El malvado zorro feroz, de Patrick Imbert, Benjamin Renner

PREMIO CINÉFILOS DEL FUTURO
Just Charlie, de Rebekah Fortune

GRAN PREMIO DEL PÚBLICO
Insyriated, de Philippe Van Leeuw

PREMIO EURIMAGES A LA MEJOR COPRODUCCIÓN EUROPEA
L’intrusa, de Leonardo di Costanzo

PREMIO ROSARIO VALPUESTA AL MEJOR CORTOMETRAJE PANORAMA ANDALUZ
El mundanal ruido, de David Muñoz

PREMIO ESPECIAL ROSARIO VALPUESTA A LA CATEOGRÍA ARTÍSTICA (DIRECCIÓN)
Ayer o anteayer, de Hugo Sanz Rodero

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