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«Nobody Wants the Night» (Ninguém quer a Noite) por Paulo Portugal

Há qualquer coisa com os filmes de abertura dos grandes festivais. Normalmente, sempre vistosos; raramente, obras-primas. Pois, exceção feita a Grand Budapest Hotel, o eleito para abrir Berlim o ano passado, e que poderia muito bem ter abrilhantado a competição. Este ano, a honra coube ao novo filme da catalã Isabel Coixet, numa co-produção entre a Espanha, França e Bulgária. Percebem-se os meios, pois exige se teria de captar a vontade de acompanhar a teimosia da mulher do explorador Robert E. Peary a procurá-lo na Gronelândia, em rota para o Pólo Norte, onde haveria de reclamar o feito, em abril de 1909.

O problema é que Nada Quiere la Noche (Nobody Wants the Night) nunca se descola de uma narrativa maçadora, dificilmente credível e deixando-se frequentemente cair no lugar-comum. Nem mesmo a presença de uma francesa Juliette Binoche, escrava de uma caricatura, nos convence no perfil da nova iorquina que embarca nessa jornada como se estivesse a fazer inveja às senhora de Park Avenue. Coixet acrescenta mais uma vinheta à sua filmografia de figuras femininas, mas contorna todas as possibilidades de ir além do mero esboço de personagens.

A jornada começa com a super-confiante Josephine Peary (Binoche) em Ellesmere, no Canadá, a convencer uma equipa de homens treinados às dificuldades do Ártico, deixando mesmo pelo caminho o experiente Bram, numa contribuição do irlandês Gabriel Byrne. Gradualmente, os homens vão sendo substituídos até a teimosia de Josephine  a deixar a sós com uma jovem Inuit Allaka, numa contribuição da japonesa Rinko Kikuchi, com quem trabalhou em Mapa dos Sons de Tóquio, em 2009, e que acaba por ser mesmo o melhor da fita. Entre ambas estabelece-se a tradicional distância de culturas, mas que acaba também, como seria de esperar, numa relação de cumplicidade. Não só quando aceita passar com ela a grande noite do inverno Ártico, mas também quando percebe que o marido a tivera como companheira e que Allaka espera mesmo um filho dele.

Sempre com alguma dificuldade em convencer o espetcador com esta história baseada em pessoas reais (mas não em factos reais!), Coixet enverga como bandeira o déjà vu, não se coibindo sequer de se servir de uma banda sonora pueril apenas destinada a acentuar o que a imagem já nos mostra.

Na verdade, ninguém quer a noite, mas torna-se ainda mais difícil quando a abundância de meios acaba por tolher a imaginação deixando-nos cair numa jornada sensaborona. Em vez dos meios facilitados por uma co-produção ficamos a pensar o que faria, por exemplo, Kelly Reichardt com menos de metade do orçamento...


Paulo Portugal



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