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«La Isla Mínima» por Jorge Pereira

O fascínio por Sevilha, por espaços marginais e figuras de anti-heróis era mais que óbvio em Grupo 7, um filme de 2012 assinado por Alberto Rodríguez que contava os esforços policiais, dentro e fora da lei, em retirar o tráfico de droga da cidade antes da exposição universal que iria ocorrer em 1992. Neste La Isla Minima continuamos na Andaluzia, mas vamos ainda mais atrás, ao inicio dos anos 80, altura em que Espanha está em plena transição para a democracia, não só nas ruas e mentes, mas no modo de operar das forças da lei e da justiça.

O cenário é uma pequena povoação situada nos tão enigmáticos como belos pântanos do Guadalquivir, espaço que inspirou o fotógrafo Atín Aya para um dos seus ensaios fotográficos mais reconhecidos nos anos 90 (Marismas del Guadalquivir) e que décadas depois viria a inspirar Rodríguez a querer filmar na zona. É neste cenário belo mas extremamente limitante e agreste para a sobrevivência humana que o filme se desenrola, sendo fácil encontrar pontos comparáveis no cinema e na TV em filmes e séries rodadas na zona de Nova Orleães, Baton Rouge (ambos no Louisiana, EUA), na Geórgia e na Florida.

Mas é aqui «ao lado» que duas raparigas, conhecidas na aldeia «como fáceis», desaparecem, deixando os pais desesperados e a população sobressaltada. Para investigar o caso são enviados de Madrid dois detectives de homicídios que, juntamente com os agentes locais (de hierarquia militar), vão tentar descobrir o que se passou.

O mais curioso e melhor conseguido que, por exemplo, em Grupo 7, é que desta vez as duas "estradas" narrativas funcionam em pleno e sem sobressaltos no ritmo, ainda que sem nunca serem de uma calibragem que transforme tudo numa obra-prima. É que se por um lado temos uma veia de thriller sufocante bem engendrado com pequenos crimes que virão a revelar ramificações maiores do que aquilo que se pensava, por outro temos um pano de fundo politico e social colado não só na época, mas nas personagens, em particular nos dois policias que servem como protagonistas, quase que representando um deles a velha Espanha, Juan (Javier Gutiérrez), e o outro, Pedro (Raúl Arévalo), a nova.

Curiosamente, e certamente de forma nada ingénua, o cineasta acaba por colocar os seus dois homens a irem contra alguns idealismos, voltando assim a uma temática também de Grupo 7, que era a perda da inocência de um dos agentes (que a certa altura já tortura uma testemunha por aqui), Pedro. Por outro lado, Juan – que sabemos ter ligações às antigas forças ditatoriais- parece fazer a viagem inversa, quase que de redenção policial e humana, até porque temos indícios que o seu estado de saúde não é o melhor. Pelo meio, um grande número de secundários tentam adensar e enriquecer a narrativa, embora nem todos o consigam de forma particularmente conseguida, como Quini (o inexpressivo Jesús Castro).

Ainda assim, La Isla Mínima é uma bela sessão de cinema para os fãs do género, embora acumule outros pecados. Se a sua cinematografia é extraordinária (palmas para Alex Catalán), é também verdade que o realizador se perde muitas vezes a filmar o enigma paisagístico que tem pela frente, por vezes até numa apaixonante forma de ortofotomapa cinematográfico. Apesar de belo nos primeiros momentos, torna-se repetitivo e cansativo ao longo do filme.

O Melhor: Duas camadas narrativas com valor: o thriller de investigação criminal e a transição para a democracia incutida nos dois protagonistas de forma a criar momentos paradoxais e de tensão 
O Pior: Por vezes há o exagero de carregar/caracterizar alguns secundários com tiques, maneirismos e bizarrias que procuram dar ao espaço alguma mística à americana 


Jorge Pereira



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