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«Une Nouvelle Amie» (Uma Nova Amiga) por Hugo Gomes

Segundo François Ozon, a tragédia leva-nos ao encontro dos maiores dilemas do nosso íntimo, neste caso o travestismo como escape dos nossos fantasmas interiores, mas nunca a sua confrontação. Nesta sua nova obra, Une Nouvelle Amie, somos remetidos a um homem que (re)descobre a mulher que há em si depois da morte da sua mulher. Tendo vergonha desse seu desejo, ele fecha-se em casa durante dias até ser incentivado pela melhor amiga da sua falecida amada.

Vamos ser sinceros, é deveras embaraçoso assistir um ator como Roman Duris a pavonear-se como uma "drag queen" neste drama trágico-cómico, que é conduzido mais pela intuição instantânea do autor e menos pela tentativa de obter um balanço entre os diferentes teores fílmicos.

Também é verdade que filmes destes, de momento, já estabeleceram os seus próprios lugares-comuns, estereótipos e arquétipos, mas neste caso Ozon demonstra a sua inesperada faceta, a de manipulador. Ou seja, por teoria o realizador do maravilhoso Dentro de Casa arranja todas as desculpas possíveis e impossíveis para que possa abordar o dito travestismo sem cair no ridículo argumentativo ou vergar pela comédia pura e "screwball". A verdade é que consegue por vias da sua mestria como realizador, havendo sequências de tirar o folgo pela sua exímia orquestração e pela forma como este emocionalmente expõe os assuntos de teor sexual.

Pois bem, quando por fim chegamos a aceitar com seriedade o enredo transmitido, Ozon tem outra "safadeza" na manga, fazer o espectador duvidar da orientação sexual dos seus outros personagens em função de um prolongado jogo de sugestão. Tal como a bela assistente do ilusionista que só está lá para nos distrair, enquanto o respetivo artista prepara o seu truque descaradamente, o cineasta francês intercala a atenção do espectador com subenredos psicadélicos para que este desvie a atenção ao satírico que a trama apresenta. E é sob essa mencionada "manipulação" que atribuímos uma ambígua consideração a este Une Nouvelle Amie.

Sim, trata-se de uma obra bem filmada, interpretada, tecnicamente composta, aliás, todos elementos característicos e salientados na carreira do autor que cada vez mais afirma na indústria cinematográfica. Porém, este é o seu filme mais desequilibrado e desinspirado desde Potiche (que nos concluiu que a comédia satírica não foi feita para ele). Ao percorrer território já caminhado por Almodóvar, o realizador prova-nos que aqui apenas consegue iludir.

O melhor - a realização de Ozon e os atores (principalmente a transexualidade de Roman Duris)
O pior - o enredo não consegue a seriedade necessária em que pese Ozon esforçar-se para obtê-la


Hugo Gomes
(Crítica originalmente escrita em setembro de 2014)

 



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