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«Escape Room» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Seis estranhos são convidados a participar num misterioso “escape room”. À medida que jogam este puzzle arquitetónico vão se apercebendo que o entretenimento não é mais do que uma mortal armadilha. Isto, simplesmente, resumiria Escape Room, o enésimo filme de cerco com charadas à mistura que se vai desdobrando num jogo de previsões e ares bafientos. Por outras palavras, é uma produção inútil, esquecível, ele próprio escapista e sem o rigor de sofisticação quanto ao género que representa.

Contudo, a dúvida fica no ar. Porquê falar deste Escape Room? Pelo simples facto que o trabalho de Adam Robitel (vindo do culto found-footage The Taking of Deborah Logan, que espantou o próprio James Wan) é a equação de uma tendência industrial, uma representação daquilo que estamos a presenciar atualmente no cinema de terror. Para tal, gostaria de invocar uma das “inúteis” imagens, sem qualquer propósito para a intriga em si, mas que revela a natureza de toda esta conceção e, quiçá, as cedências que o cinema para massas está a subjugar.

À porta do edifício onde decorrerá grande parte da narrativa, uma das personagens fuma, enquanto outra lança um olhar reprovador para tal ato. “Eu sei que isto me matará um dia”, responde o fumante, sem sucesso, visto que a primeira impressão está concretizada, e essa demonstra uma figura frágil, insegurança ou, sinceramente, quebrada e em busca da sua autodestruição. O simples ato de fumar, o que numa Hollywood clássica era visto como uma sincronização ao erotismo sugestivo, graças à colaboração entre as majors e as diferentes empresas tabagistas afim de aliciar os espectadores, é hoje tido como um comportamento a evitar, quer pela sua ocultação no cinema, ou na sua existência, uma semiótica via para, uma, a personagem a ser salva, ou duas, a figura antagónica da história.

O leitor está nesta altura a questionar o porquê de estar avançar através de factos sem relevância para o filme em si, ao invés de estar a “avaliar” atores, movimentos de câmara e estéticas. Pois bem, o que estamos a tentar dizer, e não querendo reduzir o ato da crítica de cinema ao “vão ver” ou “não vão ver este” filme, porque não é isso que está em causa, é que Escape Room, por mais "latim" que gaste não é um motivo para esbanjar verborreia criativa aqui. Como consolo, refiro que o filme de Robitel é a gota de um oceano cada vez mais presente no nosso horizonte - o cinema de terror contido nos seus máximos eixos para levar o adolescente que começou há poucos dias a experienciar a puberdade.

E para tal existe uma clara transposição de “politicamente correto”, seja o tabaco, peça engrenada de uma tendência generalizada, seja o evitar de qualquer e desnecessária polémica (por exemplo, uma personagem batiza outra de Rain Man, como sugestão a um certo autismo, respondido e “castrado” automaticamente por “Hei, isso é ofensivo”), seja o branqueamento das pecados comportamentais evidentes no seu grupo de “bonecos” (aquele cinema de terror adolescente, tão próprio da década de 80, dotado de drogas, festas e sexo, já não existe mais).

Escape Room, uma mistura de Saw com La Habitación de Fermat (há que recuperar essa variação), é o protótipo do perfeito filme de terror para toda a família degustar sem suscetibilidades. Um ponche sem álcool.  

Hugo Gomes

Realizadores Norte-Americanos escolhem os melhores do ano

Foram divulgados os nomeados do DGA (Director’s Guild of America). Esta temporada, o Sindicato de Realizadores destacou o trabalho de Alfonso Cuáron (Roma), Bradley Cooper (A Star is Born), Spike Lee (BlacKkKlansman) [na imagem acima], Adam McKay (Vice) e Peter Farrelly (Green Book). Apenas Cuáron já tinha sido nomeado e conquistou este prémio, nomeadamente com Gravidade.

Bradley Cooper foi ainda nomeado na melhor realização em estreia, concorrendo com Bo Burnham (Eighth Grade), Carlos Lopez Estrada (Blindspotting), Matthew Heineman (A Private War), e Boots Riley (Sorry to Bother You).


Boots Riley

O prémio DGA é um dos principais indicadores para o Oscar desta categoria, com apenas sete vencedores da DGA, desde 1948, a não conquistarem o Oscar de melhor diretor. A última divergência surgiu em 2013, quando Ben Affleck ganhou o prémio DGA por Argo, não sendo nomeado ao Oscar.

Os vencedores da DGA serão anunciados a 2 de fevereiro.

«Vice» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Depois de uma “economia para totós”, Adam McKay providencia algumas lições da politica norte-americana neste biopic costurado em severos tons de sarcasmo. E para quem viu The Big Short, não era de esperar outra coisa.

Em Vice seguimos o percurso do mais notório dos vice-presidentes dos EUA, e segundos as “más-línguas” em tom de verdade, um dos mentores da “invasão do Iraque” e da grande mentira do seculo XXI, as armas de destruição massivas nunca encontradas em território de Saddam Hussein. Sim, esse mesmo, Dick Cheney. Vestindo essa pele de lobo sob vestes de cordeiro, Christian Bale em sacrifício físico e em plena capacidade de mimetismos é o “boneco” perfeito para esta analogia de McKay sobre os disfarces da presidência norte-americana.

Em tempos de Trump e de uma politica constantemente descredibilizada, um filme como Vice vem servir como uma bandeja de pedagogias para mundanos, realçando o sabido sobre um dos episódios mais negros da História recente dos EUA e como George W. Bush, à luz dos ideais de Oliver Stone, era um mero fantoche de um enorme palco chamado Poder. Visto como um dos seus braços direitos, e quiçá, o grande punho do Governo, Cheney orquestrou todo um jogo de guerra em jeito de Dr. Estranho Amor, e Adam McKay seguiu o seu percurso de ascensão (o mais medíocre dos homens convertido no mais brilhante dos políticos), tentando prescrever os pecados morais desse mesmo ecossistema onde a maioria não tem lugar sob as decisões de poucos.

Filme cínico que alterna a sua veia de cinebiografia de vista grossa para a award season com uma trocista crítica a esse mesmo subgénero (as difusas utilizações do “cartões”, a deslocação do “final feliz), Vice funciona como um Guia Politico para Totós, enquanto espelha o evidente, usufruindo de uma ambiguidade para desaguar num dos mais ingénuos gestos de maniqueísmo (como se costuma dizer: “quem vê caras não vê corações”).

Por um lado é a denuncia de caracter, as más índoles que apoiam a constituição e preenchem lugares no Parlamento, elementos caros para um filme no fundo "chico-esperto" que se orienta por sósias instrumentais (mesmo que se note o esforço de Bale em rasgar a sua figura-cópia). 


Hugo Gomes

Matteo Garrone: «Dentro do mecanismo da violência não há vencedores»

Desde Gomorra que o realizador Matteo Garrone não recebera tanta atenção. Face à crise do cinema italiano, e cuja opinião dos mais acérrimos cinéfilos, uma cinematografia completamente morta e refém da linguagem televisiva ou da invocação do passado cada vez mais longínquo, Garrone prova ser um dos nomes a ser falados na atualidade.

Dogman, baseado num mediático crime real, é a história de Marcello, um homem de bom coração mas apegado à violência do seu meio, um retrato de uma Humanidade constantemente comparada com os companheiros de quatro patas. Castrados obedientes ou rafeiros gerados no ódio, são as inúmeras opções que não conseguem afastar-nos do universo canino, sabendo nós que os cães são fruto da nossa Humanidade.

O C7nema falou com Garrone durante a sua passagem em Cannes, festival que premiou o ator e protagonista Marcello Fonte. Foi uma conversa sobre o mais velho dos temas e igualmente o mais atual: a violência da nossa sociedade, do Mundo e de nós próprios.

 

Um facto é que depois Tales of Tales, este Dogman leva-nos à mesma essência dos seus primeiros filmes e em especial ao êxito de Gomorra. Foi sua intenção regressar às “origens”?

Existe uma linha, ou conexão, entre os meus primeiros filmes, incluindo o Gomorra e este Dogman, até porque tentei esboçar neste último projeto um retrato humanista e densamente psicológico da violência e do ser humano. Interesso-me por personagens em conflito com os seus arquétipos obsessivos e isso reflete na natureza de Marcello, um protagonista que nos faz simpatizar desde os primeiros momentos. É curioso que senti isso quando o encontrei. Ele tinha aquela face amigável e os olhos eram detentores de uma certa doçura. O argumento, esse, foi alterado ao longo de 12 anos, não por causa da pesquisa da minha parte, mas pelas minhas mudanças, a minha relação com a violência mudou ao fim de mais uma década.

E como conheceu Marcello Fonte?

É uma história trágica e divertida, mas mais trágica que divertida. Marcello é um guarda num centro social, onde vive e que participa num grupo de teatro composto por ex-presidiários. Ele entrou nesse grupo pois um dos membros faleceu devido a um aneurisma. Assim, Marcello substituiu-o. Durante o casting que fiz a essa mesma companhia, ele foi selecionado.

Mas esta não é a sua primeira experiência cinematográfica, Marcello fez pequenos papéis em outros filmes e ainda escreveu as suas memórias de infância, qua adaptou para um pequeno filme que marcou presença em Locarno. Contudo, é em Dogman que tem a sua grande oportunidade, até porque toda a obra gira e torno à sua face como um Buster Keaton moderno.

Matteo Garrone

E foi fácil trabalhar com ele? Como o dirigiu e trabalhou a sua personagem?

A sua abordagem foi bastante emocional. Para mim, era o ator ideal, porque o Marcello quando está dentro de cada situação consegue manejá-la com destreza e rigor, quer para o argumento, quer para connosco. Resulta por possuir um passado forte.

A sua interpretação é pura e humanista, foi um perfeito casamento entre a personagem que escrevi e a personagem que se gerou. Por vezes peço ao ator para aproximar-se da personagem. É claro que fizemos ensaios e avaliamos esta visão em relação à história verídica. E sim, de forma a não nos afastarmos do tom pretendido, descartamos imensas partes da história original, incluindo a tortura, a qual não conectava com a personagem que escrevi.

É curiosa essa adulteração para com a história verifica e ao mesmo tempo transformar um facto numa história ficcionada. Ao mesmo tempo, a ficção torna-se mais original que a realidade. Foi por isso que decidiu cortar essas sequências de tortura que tornaram-se mediáticas no crime real?

Sim, foi por causa disso que percebi o porquê desta história estar na minha secretária durante 12 anos. Eu constantemente voltava a ela, mas descartava imediatamente, porque sentia que tudo aquilo era uma “história repetida”, algo que vi diversas vezes na minha vida enquanto cineasta. A ideia de vingança, os fracos sobre os fortes, este tipo de enredo conduzia-me a lugares-comuns. Após essas decisões, deparei-me com um território mais subtil. Falamos de violência, porém, de um modo mais psicológico.

Tirando o enredo, existe uma força cénica. O filme é bastante atmosférico. Foi sua intenção a escolha do dito cenário?

O cenário é propositado. É um espaço que liga à história e por isso torna-se numa personagem própria. Para além da vila trazer um certo ambiente western, é uma personagem coletiva, e tentamos usar isso para alicerçar a personagem de Marcello. É importante para a história percebermos como a comunidade vê Marcello e como o julga. Essa relação entre o protagonismo e os elementos cénicos leva-nos a um filme quase à parte. Digo isto, até porque na primeira parte de Dogman encontramos um ambiente bem solarengo e na segunda um clima bem chuvoso e negro. No primeiro tópico, este cenário foi um achado, a luz insere-se perfeitamente.

Martin Scorsese referiu que para os seus contos de violência, inspirava-se em acontecimentos vividos pelo próprio. Questiono ainda, visto que Garrone aborda esses territórios de certa maneira “scorseseanos”, como é encontrar a ética na não-ética destes enredos?

Uma coisa é certa, a violência está em todo o lado. Por exemplo, na escola entre os miúdos ou até mesmo na relação entre um homem e uma mulher. Graças a esta violência omnipresente, tentei criar Marcello; um individuo sensível, criado num mundo de violência, onde o medo o levará a estes trilhos. Aliás, é o medo a maior das vias para a violência, assim como é uma importante ferramenta de controlo politico.

O que tento dizer é que a violência é invisível, não é preciso ir para Gomorra, por exemplo, para deparamos com isso.

Mas em Dogman encontramos contornos de neorrealismo, principalmente no retrato da comunidade da vila.

De facto, inspirei me no cinema de De Sica, o seu modo de interpretar o género. O neorrealismo foi um modo moderno de fazer cinema e é a partir daí que a abordagem dos meus filmes arranca para depois pegar em tal material e reinterpreta-lq para uma nova dimensão, que diria abstrata.

Mas repare, mesmo sobre diferentes abordagens, todos os meus filmes remetem ao mesmo tema. Retrato obsessões, desejos, sentimentos, arquétipos, por outras palavras, falo sobre a natureza do ser humano. Conforme a dimensão que seja.

Tive a sensação que as personagens humanas foram criadas à imagem dos cães.

Sim, de certa maneira, o filme, novamente repescando a temática da violência, retrata a relação canina para com esta. E nesse sentido tentei criar as personagens humanas como cães, e a personagem de Simon é um exemplo disso. Para ser mais especifico, ele é praticamente o cão raivoso que surge inicialmente em Dogman.

Podemos falar do final. Um pouco péssimista, não? Ou reformulando - descrente para com o destino da Humanidade.

Dentro do mecanismo da violência não há vencedores, principalmente se fores um individuo pacifico que foge constantemente dessa veia. É uma questão de sobrevivência. Porém, mesmo para esses “pacíficos” que repudiam toda a violência existente nas suas vidas, eles acabaram, de uma maneira ou de outra, a tornarem-se vitimas desse sistema. Morrerá algo dentro de ti, quer queiras, quer não. Não se pode escapar a estes mecanismos, nem mesmo quem procura justiça. Porque até mesmo esses colocam mais violência nas suas vidas e no geral. Violência gera violência, não há maneira de fugir a isso. É simplesmente instinto.

Mas Marcello não é nenhum herói, nem sequer o exemplo perfeito de isenção da violência.

Vamos ser claros aqui, eu não criei Marcello de um forma tão inocente assim. Ele é um traficante de droga e por vezes cúmplice dos impulsos violentos de Simon. O que tento dizer é que a inocência assim como a violência são complexas e ambíguas. Marcello é a representação disso, o anti-maniqueismo.

Se olharmos com atenção, e mesmo não ignorado esses gestos criminais, Marcello é uma personagem movida pelo amor e cheio dele.

Uma pergunta descontraída, tendo em conta o filme, gosta de cães?

Eu cresci com cães e por isso tenho afeto enorme por eles.

Quais foram as suas influências cinematográficas em Dogman?

Como referi, para além de De Sica, a minha grande referência são os filmes de Buster Keaton. Contudo, quando nós realizadores concebemos um filme, apropriamos-nos de vários elementos e influências. Mas sim, Keaton foi a minha principal inspiração para criar a personagem de Marcello, assim como Chaplin e todo aquele dócil carisma. Mas também posso afirmar que pensei muito em Pasolini enquanto fazia este filme.

Curioso falar de Pasolini, senti por vezes estar a assistir uma espécie de atualização desse cinema.

A verdade é que estou a ficar velho e apercebi-me disso durante as filmagens de Dogman, em que encontrava similaridades destas cenas com os meus outros filmes [risos]. Mais do que me inspirar em Rosselini, Pasolini ou outros, começo a cair em déjà vu e cito inconscientemente os meus próprios filmes.

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