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Doclisboa: Whitney Can I Be Me - crónica de uma tragédia-cliché

  • Publicado em Artigos

Artista famosa não suporta a pressão. Tem uma mãe dominadora. Está cercada de parasitas. A única amiga verdadeira é suspeita de ser sua amante.

O desejo de ter uma familia normal faz a artista famosa agarrar-se a um Outro idealizado. Que, certamente, não corresponderá. A artista famosa é o centro de uma máquina em andamento. Não pode parar ou toda a gente deixa de ganhar dinheiro. Não importa como se sente. A artista famosa tem uma filha; ser mãe não é uma mera questão de vontade. A artista famosa sequer conseguirá que a filha tenha um destino melhor que o seu.

A história triste de Whitney Houston seria apenas um filme-cliché se não fosse verdadeira. Ninguém nos anos 80 parecia notar: Whitney veio do gueto. A primeira coisa a fazer quando se quer que ela transcenda o audiência negra e transite para o mainstream é apagar as suas raízes. É o que lhe é pedido e é o que ela faz: representa um papel. Assim, logo de início lhe é arrancado o primeiro traço da sua identidade. Fundamental dentro da ideia exposta pelo realizador Nick Broomfield no título do seu filme. Depois de um episódio duríssimo, a vaia no Soul Train (para os negros ela era uma traidora), ela vai lançar ao produtor uma pergunta retórica na elaboração do álbum a seguir: "posso ser eu"?

Todos os entrevistados avançarão respostas para a escolha de Whitney por um caminho sem volta. A religião, tal como compreendida por ela e sua família tem um papel fundamental na sua derrocada. Os dogmas são baseados em "verdade reveladas" repletas de medo e preconceito. Há quem sugira pelo filme que talvez ela estivesse vive se tivesse assumido uma relaçao com Robyn Crawford, sua amiga de infância. Tal jamais seria suportado por alguém. Tempos mais tarde ela tentará a família idealizada de todo o temente a Deus. Ingénua ela fará,claro, uma má escolha.

Antes disto, uma cantora da sua banda resume a situação de uma forma brutal: "A mãe dela estava muito contra. Clive (o produtor) estava muito contra. Porque não era bom ter um caso lésbico. Acho que que se ela fosse artista hoje, não teria problema. Estaria tudo bem. Provavelmente ainda estaria aqui. Mas a essa altura, havia uma pressão tremenda para ela ser a rapariga perfeita. 

Tornou-se um conflito e é interessante, porque há as drogas, há esta família consumida pelas drogas, e mesmo assim é na homossexualidade que eles se focam. Quando teria sido melhor tentar lidar com essas drogas do que, provavelmente com isso. É de novo aquela religião, a religião feroz que, eu penso, que Cissy tinha, que era muito importante para ela, Ela era uma anciã na igreja, a filha não podia ser homossexual".

Outro momento: Whitney procura desesperadamente por Deus, mas este náo é de forma alguma o Deus que ela precisava: é um ser esmagador, que a cobra por ter lhe dado um dom e ela não sabe cuidar dele.

Quanto a Bobby Brown, a ingenuidade da cantora é tocante: num "talk show" ela diz que ele tinha tido outras mulheres como qualquer homem mas, agora, tinha ganho juízo e decidido "assentar e ter uma família".

Talvez a cena mais "aterradora" e surreal desta trajetória para o caos seja protagonizada pelo seu pai. Não se encontra tão facilmente episódios assim: moribundo num hospital, a última coisa que se lembra de fazer é processar a própria filha. Já a morrer, demanda que ela lhe pague o que lhe deve. Nas suas contas são 100 milhões de dólares. A vida da artista famosa tinha, afinal, um preço.

Doclisboa: «No Intenso Agora» – um poema estupendo e o fim das utopias

 

Um lindo crepúsculo chuvoso sobre o complexo de vidro que rodeia as salas do CinemaxX. A estreia mundial de No Intenso Agora, no Festival de Berlim, tem um teatro a abarrotar. O filme termina, os aplausos são entusiasmados; alguns estão tocados pela delicada teia urdida a partir de comoventes filmes familiares que funcionam como testemunhos oculares de momentos coletivos dramáticos – cozidos com a leitura das imagens feitas em off pelo cineasta.

João Moreira Salles fala com o público. Que está interessado: No Intenso Agora fala de muita coisa, cabe um mundo nas suas duas horas de projeção. Mas é muito mais do que os fragmentos da Revolução Cultural chinesa, o Maio de 68 francês, a invasão da Checoslováquia pelos russos no mesmo ano.

No dia a seguir à sessão na Berlinale, Moreira Salles conversou com o C7nema.

No Intenso Agora é exibido amanhã (22/10) no cinema São Jorge, com a presença do cineasta.

 

O MAIS ROMÂNTICO DOS SONHOS REVOLUCIONÁRIOS

De todas as fantasias revolucionárias retrospetivas, a imagem do Maio de 68 é das mais duradouras."É a mais romântica", diz o cineasta. Fragmentos do filme: em Paris os estudantes tiram a voz aos mais velhos, filhos de burgueses batem-se nas ruas com as tropas de choque enviadas pelos seus pais; a Paris Match paga uma viagem a Daniel Cohn-Bendit e torna a revolução num adereço de marketing; estudantes e operários falam de alturas diferentes; nunca se entenderão. As imagens são poderosas: no fim de uma greve, uma operária traída.

O realizador assinala: "O maio de 1968 envolve uma nostalgia, é o mais romântico, com as suas palavras de ordem, a poesia, é deslumbrante. Mas, na verdade, nos Estados Unidos e na Checoslováquia ele foi mais rico, tinham mais coisas em jogo. E foi mais corajoso, teve mais consequências. O maio de 1968 francês foi socialmente conservador, as mulheres estão em segundo plano e os negros estão ausentes".

Tampouco estudantes e operários concordaram em apertar as mãos. "Houve uma única passeata em que, pela primeira e última vez, estudantes saíram em passeata com a organização sindical. Estes, no entanto, disseram que não apertariam a mão de Cohn-Bendit, ele que fizesse passeata em outro lugar".

No filme, Cohn-Bendit encontra a glória e é consumido por ela - agora é o maior intelectual francês, Jean-Paul Sarte, quem o entrevista. O pensador está espantado com a falta de um programa dos estudantes.

"Sartre dizia a eles: vocês têm que ter um programa, uma direção. Quando não se tem ganha-se algumas coisas – a vitalidade, a espontaneidade, a alegria, a irmandade, mas perde-se noutras, que é a capacidade de impactar de verdade", reflete.

Tudo terminará numa "acordo sórdido" a envolver questões salariais, dirá um anónimo.

 

TANQUES EM PRAGA: O FIM DE TODAS AS ESPERANÇAS

A História é algo móvel. A escolher um momento para o fim de todas as esperanças, Salles optaria pela invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Este é mostrado por comoventes imagens familiares, colhidas através de arquivos de preservação do país. "O material que encontramos sobre esta altura é um achado", lembra.

O cineasta analisa: "Podemos afirmar que a experiência de 68 acaba aí. Aí temos um país socialista esmagando uma experiência progressista de um país que não queria necessariamente emigrar para a esfera do Ocidente. Quando aquilo ocorreu a juventude que tinha saído às ruas em 68 em nome de um socialismo mais progressista percebeu que não havia caminho, não havia jeito."

Os russos já tinham apoiado os sindicatos franceses a acabarem com as greves e encerrarem os tumultos. Fidel contribui com a pá de cal: "Cuba apoiou a invasão. Fidel naquele momento ainda era a grande luz no sentido da revolução libertária. Ele diz que moralmente era indefensável, mas politicamente a invasão de Praga era necessária. Aí as pessoas se deprimem, a ideia de socialismo acaba".

 

UM PONTO DE CHEGADA: BRASIL, 2013

O filme restringe-se ao ano de 1968. Pergunto ao cineasta o significado simbólico deste fim de ideia utópica para o Brasil, um país com muito a conquistar.

"Sob um certo aspeto abandonar a utopia foi uma coisa boa. Sob um certo ponto de vista, a utopia é um "não-lugar", algo onde você nunca vai chegar. É bom o fim desta ideia, temos que lidar com coisas possíveis, palpáveis. As manifestações que ocorreram no Brasil em 2013, por exemplo, eram anti-críticas, conservadoras, que desqualificam a política. Diziam 'partido político não!'. Mas o que você vai pôr no lugar? Essa via abre espaço para a Bolsonaros *".

* Referência a Jair Bolsonaro, política brasileiro com estilo e discurso semelhantes ao de Donald Trump.

Fragmentos do mundo contemporâneo: começa hoje (19/10) o Doclisboa

O festival decorre entre 19 e 29 em espaços como a Culturgest, a Cinemateca, o Museu Berardo e os cinemas São Jorge e Ideal. A programação desloca-se em diversos tempos e locais para oferecer um amplo panorama temático; o enfoque alternativo presta-se a outros olhares sobre o mundo que nos cerca.

TERRITÓRIO NACIONAL

Tudo começa em Lisboa: Ramiro, de Manuel Mozos, mergulha na rotina dum alfarrabista da capital e faz as honras de abertura do Doclisboa 2017; para o Encerramento o teatro desloca-se para a capital do Brasil (Era uma Vez Brasíla), que surge distópica na ótica de Adirley Queirós – que retorna ao festival depois da passagem com Branco Sai, Preto Fica em 2014.

Em Portugal os temas da Competição são muitos e trazem uma mostra que ignora a duração dos filmes – há curtas, médias e longas-metragens. A crise económica perpassa em Notas de Campo, a destruição do património histórico e o desalojamento de famílias em função do negócio em Dom Fradique, enquanto muito se passa em interiores (À Tarde, Eclipse, Barulho, António e Catarina), Espadim acompanha a vida de três homens entre a casa e o trabalho e Vira Chudnenko trata de uma mulher atacada por cães rotweiller.

Entre as longas, há o inevitável tema da desertificação e do envelhecimento das populações do interior em obras como Diário das Beiras, de João Canijo, enquanto dois destaques que apontam para outras fronteiras: I Don't Belong Here (Paulo Abreu) aborda a dura vida de imigrantes açorianos deportados para ilha vindos dos Estados Unidos – que não estão nem aqui nem lá e O Canto do Ossobó (Silas Tyni) marca uma viagem a outro arquipélago, o de São Tomé e Príncipe, em busca de identidade pessoal entre os fantasmas da longa história de escravatura da população.

Fora de competição João Salaviza estreia em Portugal aquilo que já mostrou em Berlim – uma mistura de paranoia com rap cabo-verdiano em Altas Cidades de Ossadas; por seu lado Todas as Cartas de Rimbaud (Edmundo Cordeiro) é uma aventura intelectual que entrecruza poesia e filosofia e Filipa Reis mergulha em cenários da Guiné-Bissau em Spell Reel.

Um dos grandes momentos deste Doclisboa será, porventura, Quem Foi Bárbara Virgínia (Luísa Sequeira), narrativa que segue os passos da personagem-título para entender o cruel "apagamento" da história da primeira mulher a fazer longas-metragens em Portugal. Três Dias sem Deus, o seu filme, também cometeu a proeza de ser selecionado para a edição inaugural do Festival de Cannes – exibida lado-a-lado a monstros do cinema como Alfred Hitchcock, Billy Wilder e Jean Cocteau!

PELO MUNDO

Risk desdobra-se pelo mundo para Laura Poitras contar a claustrofóbica história de um herói à moda do século XXI, Julian Assange; muito longe também foi o veterano Claude Lanzmann na mistura de comentário político com memórias pessoais em Napalm, resultado de uma visita à Coreia do Norte; Ainda na Ásia há o suspeito do costume, Wang Bing, com Bitter Money e Mrs. Fang, e Barbet Schroeder a abordar o budismo em Venerable mr. W.; preocupado com a Terra toda estará em videoconferência Al Gore para a sessão de The Unconvenient Sequel: Truth to Power.

Do Brasil, além da sessão de encerramento, há um poema de rara beleza (No Intenso Agora, de João Moreira Salles) e um achado de construção histórica (Histórias que o Nosso Cinema não Contava, de Fernanda Pessoa) – onde uma sociedade sob uma ditadura sangrenta (anos 70) é transgressivamente retratada num subgénero cómico-erótico que passou à história como "pornochanchada". Como parte da Competição está Martírio (Vincent Carelli), um amplo panorama sobre a destruição dos índios pelo agronegócio.

AS ARTES

Como sempre umas tantas cerejas do topo do bolo do Doclisboa vêm da secção Heart Beat, inteiramente dedicada ao mundo das artes.

Este ano há divas provocativas (Grace Jones: Bloodlust and Bami), trágicas (Marianne Faithful em Faithfull, Whitney Houston em Whitney Can I Be Me), grandes astros de outros tempos (Becoming Cary Grant), cinema indie com música (Alive in France, de Abel Ferrara), música com cinema indie (The Inertia Variants" com Matt Johnson, dos The The, Never Stop com os eletrónicos alemães, Bamseom Pirates Seoul Inferno, com uma banda punk coreana), jazz (Bill Frisell: a Portrait), artes plásticas revolucionárias (Beuys), entre outros.

Uma menção adicional que poderia ser escolhida entre muitas: do Afeganistão vem a história de um cineasta que, contra todas as probabilidades, faz filmes numa terra devastada – em The Prince of Nothinwood (Sonia Kronlund).

A HISTÓRIA

Cineasta com mais sorte na proveniência, Jean-Luc Godard tem um raro momento seu recuperado: Grandeur et Décadence d'un petit Commerce de Cinema foi feito para a televisão nos anos 80 e, como sempre, parte de uma coisa (um thriller, neste caso) para chegar a outra muito diferente.

Por fim, mas não menos importante, os destaques especiais são Vera Chytilova, nome absoluto do Cinema Novo da antiga Checoslováquia, e a americana Sharon Lockhart. O festival contará ainda com uma grande retrospetiva dedicada ao cinema de Québec e um trabalho essencial sobre a  antiga Presidente do Conselho Europeu, a francesa Simone Veil (Simone Veil – a French Story), falecida em junho deste ano.

A programação completa pode ser conferida aqui.

Entre a "arte pela arte" e a fogueira das vaidades: começa hoje (17/05) o Festival de Cannes

O festival mais pomposo do mundo começa hoje (17/05) e termina a 28. Enquanto abrem-se as passarelas para a fogueira das vaidades fazer o seu desfile entre tapetes vermelhos e coquetéis à beira-mar, ficam para os suspeitos do costume a tarefa de salvar o conceito romântico de "arte pela arte".

É um "dream team" autoral numa programação irrepreensível: este ano a Seleção Oficial é de tal ordem precisa que nem desordeiros como Nicholas Winding Refn ou Paolo Sorrentino estarão por lá para a guerra dos apupos. E arte visceral... haverá?

Marion Cottilard volta dos mortos

Arnaud Desplechin e o seu Ismael's Ghosts garantem uma abertura caseira – com elenco de luxo: Matthieu Amalric, Charlotte Gainsbourg, Marion Cotillard, Phillippe Garrel. Amalric é um realizador prestes a iniciar um novo filme – quando a sua antiga amada (Cotillard) "retorna dos mortos" e torna a sua vida um inferno. Ele então remete-se à reclusão junto dos seus fantasmas. Por estas horas já exibido à imprensa (a sessão de gala é à noite), parece ter recebido uma ensurdecedora indiferença

De resto no alinhamento francófono há um François Ozon com seu (quase) infalível filme anual, Amant Double, o "artista" Michel Hazanavicius com Le Redoutable e o veterano Jacques Doillon com Rodin. Mas a maior promessa será Robin Campillo, que ainda não teve tempo de dececionar: fez apenas dois filmes e Eastern Boys, o anterior, é magnífico. O novo chama-se 120 Beats per Minute.

Murros no estômago e futurologia

Entre aqueles que raramente desiludem estão os cotados para atingir aquele píncaro que faz da arte uma experiência visceral. O maior de todos é Michael Haneke que, segundo previsões astrológicas bastante "precisas", vai levar a Palma de Ouro com Happy End: o cineasta é genial, Isabelle Huppert está no elenco e o filme é sobre um campo de refugiados no norte da França.

Se tudo correr bem numa segunda-feira potencialmente eletrizante (22/05), os presentes levarão um duplo murro no estômago: a fazer companhia ao austríaco estará Yorgos Lanthimos – que conseguiu segurar a pressão de uma estreia internacional com A Lagosta e agora traz The Killing of a Sacred Deer.

I'm afraid of americans

Da América as propostas circulam entre o indie-nova-iorquino hipster e as falsas promessas de Sofia Coppola. Entre o melhor espera-se Todd Haynes, cujo Wonderstruck tem sessão já amanhã, particularmente porque o último plano de Carol foi iluminado; já Noam Baumbach trás The Meyerowitz Stories e os irmãos Safdie (Benny e Josh) Good Time. Quanto à Sofia Coppola, que devia ir a Cannes escondida numa burca depois de Bling Ring, surge com The Beguiled.

Sem Liga dos Últimos

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O húngaro Kornél Mundruczó (de Deus Branco) nunca falhou o festival: cinco filmes, cinco presenças. O novo chama-se Jupiter's Moon. Por seu lado o russo Andrey Zuyagintsev, outro habitual, vem da megaunanimidade de Leviathan e aparece com Loveless, enquanto o ucraniano Sergei Loznitsa trás A Gentle Creature.

O naipe de asiáticos é do mesmo patamar de relevância: tem Naomi Kawase (Radiance), Bong Joon Ho (Okja) e Hong Sangsoo (The Day After).

Por fim, mas não menos importante, o sueco Ruben Östlund (The Square) vem do consagradíssimo Força Maior e Lynn Ramsay deixa a incógnita sobre o que virá com You're Never Really Here depois do estupendo Temos que Falar sobre Kevin ser seguido pelo desastre de As Armas de Jane (quando abandonou as filmagens um dia antes de elas começarem). Talvez o grande corredor por fora será o turco Fatih Akin, muitos anos depois do Urso de Ouro do Head-on- A esposa turca.  O projeto chama-se In the Fade.

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