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Nasce um fogacho ou um cineasta? Bradley Cooper deixa Londres curiosa

A Star is Born

Há duas semanas em cartaz, A Star is Born, que consumiu US$ 35 milhões para sair do papel, já faturou US$ 135 milhões, configurando-se como um sucesso invejável. Cifras desse patamar já passaram pelo caminho de Bradley Charles Cooper diversas vezes, no seu histórico enquanto ator. Mas é a primeira vez que ele dirige uma longa-metragem. Faz diferença... Na capital de Inglaterra, onde decorre o BFI – London Film Festival, com uma oferta invejável de títulos, o evento não conseguiu competir com o apelo da estrela, que além da função de cineasta, assume o papel masculino principal, num duo romântico com Lady Gaga. E solta a voz ao lado dela.

Consagrado como estrela há cerca de dez anos, quando The Hangover (2009) virou um fenómeno de bilheteria, Bradley passou perto de levar o Oscar para casa três vezes, devido ao seu desempenho como ator e assim como o seu trabalho como produtor: filmes como Silver Linings Playbook (2012), American Hustle (2013) e American Sniper (2014). Aqui, no polémico fenómeno de público de Clint Eastwood, o ator iniciou um processo autocrítico de revisão da sua própria filmografia. No esforço de ir além do posto de galã, Cooper ajudou Eastwood a dar ao militar Kyle a dimensão atormentada do homem que cresceu educado por um conceito bíblico transmitido pelo seu pai. “Um homem pode seguir três caminhos: ser uma ovelha, ser um lobo ou ser um cão pastor. A ovelha é a presa, carente do apoio de Deus. O lobo é o predador desprezível, que mata sem perdão. O cão pastor é a nobreza: é o cachorro que rasga a jugular do lobo do homem e o salva, em nome da caridade, sem medo do autossacrifício”. É esta parábola evangélica – reinventada por Nietzsche como o “paralelismo do cordeiro e da ave de rapina” – que norteia a lógica de Kyle enquanto personagem ficcional. Texano, ex-cowboy, macho alfa, ele foi evangelizado desde menino para não ser uma ovelha e para proteger seu rebanho, afiando as presas ao máximo para isso. A luta contra as tropas do Iraque, nação para onde vai ao se alistar por opção, disposto a “limpar” a Terra de terroristas, é, em sua cabeça, uma cruzada religiosa, uma jihad no qual ele será o Cordeiro de Deus a ser sacrificado, missão a missão, em prol de uma causa sagrada: tirar os lobos do caminho dos fracos e oprimidos.

Bradley Cooper em American Sniper (Clint Eastwood, 2014)

Muito se debateu sobre o discurso conservador de American Sniper e ele tem consciência do arquétipo perigoso que criou. Mas sabe que herdou de Eastwood um humanismo que parece não ter lugar no mundo de hoje. Por isso, agora, aos 43 anos, imbuído do que aprendeu com o realizador de Unforgiven (1992), Bradley dá o seu passo profissional mais arriscado: dirigir Lady Gaga na releitura de um enredo nos moldes de “Pigmaleão” que ganhou múltiplas refilmagens e que consagrou grandes estrelas. A julgar pelas primeiras criticas ao seu trabalho por trás (e também na frente) das câmaras em A Star Is Born, Bradley pode enfim colocar as mãos na tão cobiçada estatueta de Hollywood. E merecidamente...

O que leva uma pessoa à arte é a chance de se deixar levar a lugares inusitados, explorar o que não conhece. Eu sou artista porque acredito no prazer de me deixar surpreender. Pisar no set desse filme, com a Lady Gaga na frente, foi uma daquelas emoções que fazem o nosso peito explodir”, disse Cooper no Festival de Veneza, onde sua esperadíssima love story com acordes musicais virou um acontecimento, pois, lá no Lido, a agilidade dele enquanto cineasta pôs muitos concorrentes ao Leão de Ouro a um canto.

No The New York Times, a crítica da crítica Manohla Dargis crava a palavra “belo” para definir o filme e frisa que “Bradley tem muitos acertos na direção, a começar pela escola do elenco, com uma atuação naturalista, desarmada de Lady gaga”. Previsto para chegar em solo brasileiro na próxima quinta-feira (tendo estreado esta semana em território português), A Star is Born não vem sendo vendido como remake, porém, este ensaio romântico sobre um cantor autodestrutivo (o próprio Bradley, numa atuação memorável) que ajuda uma aspirante a cantora a explodir no mercado fonográfico, revê uma premissa levada ao cinema pela primeira vez em 1937. Janet Gaynor estrelou o original, que, de tanto sucesso, inspirou mais duas refilmagens: uma de 1954, com Judy Garland, e outra de 1976, com Barbra Streisand.

A Star is Born

Na nova versão, Lady Gaga está à altura delas: “Quando eu ouvi Cooper cantar, fiquei bem impressionada também com a intimidade dele com a música. É uma voz única, com muita presença de palco” disse Lady Gaga em Veneza. Em Veneza, Bradley corava diante dos elogios, demonstrando uma inusitada timidez. “Essa é uma história sobre fama, ou melhor, sobre como a fama pode passar rápido e custar caro nessa passagem, até porque muita gente não vê a solidão que envolve as pessoas que interagem com o estrelato. Tenho a sensação que essa experiência na realização tenha me dado uma outra perceção: a do trabalho em equipa, a sensação de ser responsável por uma série de pessoas que confiam em nós”, disse Bradley, que este ano será visto ainda na nova longa-metragem do seu professor, Eastwood: The Mule, sobre um traficante quase nonagenário.

Cantando ao lado de Lady Gaga, a plenos pulmões, Cooper investe ao máximo no realismo ao filmar os shows da sua personagem, Jackson Maine, e as apresentações da cantora vivida por Lady Gaga, Ally. A fotografia de Matthew Libatique potencializa a tragédia da paixão entre os dois. O destaque vem do monstro sagrado Sam Elliott (da série The Ranch), que rouba a cena, com sua voz gutural, no papel do irmão mais velho de Bradley. “Sam Elliott é um ator singular que eu admiro há anos. Ele é tudo que eu espero ser algum dia. Filmar com Elliott era um sonho e tive que inventar uma solução que tornasse crível o facto de ser meu irmão, no filme, dada a nossa diferença de idades. Mas criamos a solução de ser um irmão bem mais velho que criou a minha personagem como se fosse o seu pai. Foi muito bonito ver como as pessoas como ele confiaram em mim”, diz Bradley. “Foi lindo ver Lady Gaga se soltando em cena, ao cantar. Ela é uma grande atriz”.

A Star is Born

Apesar dos ecos de Bradley e Gaga, o BFI – London Film Festival segue firme e forte. Houve uma seleção fina de bons filmes neste domingo, desde documentários como Fahrenheit 11/9, no qual Michael Moore descasca Donald Trump, até dramas moralistas como The Front Runner, no qual Jason Reitman brinca a Sidney Lumet. Até agora, nada equiparado a Destroyer. A cineasta Karyn Kusama desconstrói Nicole Kidman. Ela entra em cena com o rosto devastado, no papel de uma detetive cujo o ânimo está no fundo do poço. A narrativa caminha por uma trilha de suspense exasperante.



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