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Cannes: Entre famílias fabricadas e "homens-cães"

Hirokazu Koreeda volta a encantar Cannes com um filme à sua medida. Isto depois do seu anterior The Third Murder ter feito alguns dos seus fãs desesperar devido à drástica mudança de tom, o cineasta retorna ao seio familiar, o centro das suas intrigas para nos trazer um raro retrato da precariedade japonesa.

Shoplifters é um filme de evadidos, de personagens em prolongada fuga aos seus arquétipos sociais, que nos remete aos afetos como a mais importante ligação familiar, e com isso desafia a mais forte característica nipónica, a imperatividade do sangue. Por entre “adotados” por indivíduos sem vínculos alguns, forma-se uma família, um pré-fabricado que depressa transforma-se numa estrutura aparentemente imbatível. Koreeda joga com os nossos julgamentos iniciais, brinca, mas não os despreza, ao invés disso abraça-nos, calorosamente, como as personagens que se abraçam uns aos outros, desfazendo emocionalmente perante tal toque. Temos aqui um dos fortes candidatos à Palma.

Mas falando de candidatos fortes à estatueta e a famílias fabricadas, o novo trabalho da libanesa Nadine Labaki, Capharnaum, é um registo que tem tudo para conquistar o júri do certame. Zain (Zain Alrafeea), um rapaz de 12 anos tem o ousado ato de processar os seus próprios pais. A acusação? Por estes terem lhe dado a Vida. Uma historia síria com as promessas de exodus e a precariedade miserabilista no qual Labaki faz o “prazer” de explorar de forma pornográfica enquanto seduz o espectador com os baratos truques da manipulação (por vias da sonoplastia e do visual, como os constantes slow motion). A premissa inicial cai no esquecimento, resgatada ocasionalmente quando convém. A suposta intriga de tribunal transforma-se numa versão árabe de Slumdog Millionaire, mas a força de Zain incendeia o fácil jogo de sensibilidade muito mais os arquétipos infantis do Cinema. Há aqui algo de variação agressiva do mítico Antoine de 400 Golpes, mas infelizmente o filme não faz jus ao seu protagonista.

Contudo, a Palma de Ouro poderá estar ao seu alcance, os "elementos" estão lá, e em Cannes, ultimamente, são as causas que tem sido premiadas, muitas delas frente aos filmes o qual representam. Felizmente, e se o júri não for em cantigas sociais, existem outros filmes com potencial para a estatueta. Lazzaro Felice, a terceira longa-metragem de Alice Rohrwacher, é a continuação da Itália fabulista e dotada de uma mitologia religiosa. Lazaro (Adriano Tardiolo) é o habitual tonto de uma comunidade ao serviço de uma Marquesa. Ele é um ser feliz, porque vive exclusivamente através dos seus sentimentos, boa índole portanto, sem saber que essas mesmas características o levarão para determinadas desventuras. Rohrwacher determina um filme de metáforas, parábolas e alusões, cruzando com influências de Ettore Scola e Ermanno Olmi. Um delicado Feios, Porcos e Maus.

Já Matteo Garrone retorna à “boa graça”, aclamação não vista desde o sucesso de Gomorra. Neste seu Dogman, fortemente aplaudido, o cineasta invoca a violência animalesca que reside adormecida no proprietário de um “hotel” para cães. Marcello é querido no seu bairro, um pai divorciado que ama os “amigos de quatro patas” igual ou mais que as pessoas ao seu redor. Contudo, ele próprio é um cão, não no sentido literal, mas evidenciando uma passividade e a fidelidade quase inabaláveis. Em Dogman, existe uma personificação de bestialidades nas suas personagens, não só no seu protagonista, mas em tudo o resto vai nos guiar a um filme atmosférico e igualmente seco. E ao contrário do que se poderia esperar, tendo em conta as suas obras, Garrone não está domesticado; é um vira-lata, no bom sentido, obviamente.

Menos feliz e com menor hipóteses em conquistar a desejada estatueta é o nipónico Asako I & II, um ensaio de doppelgangers revestido em romance para japonês ver. As idiossincrasias nipónicas que converteram em caricatura encontram-se imaculadas neste filme de Hamaguchi Ryusuke. Tendo em conta a comparação com o seu conterrâneo Koreeda, Asako I & II é desastroso na construção das suas personagens, tornando-os em bonecos artificiais e “fingidos” numa tragédia juvenil sob toques "rohmereanos". No ano passado, em Cannes, o realizador Takashi Miike tinha referido em entrevista que a indústria japonesa encontrava-se cada vez mais “childish” (imatura/infatilizada). Aqui temos a prova. Só pena integrar a Competição de uma montra internacional.

Desilusão também é a segunda longa-metragem de Agnieszka Smoczynska, que integrou a seleção da Semana da Crítica. A realizadora tinha vencido uma edição do Fantasporto com um alucinado musical de terror, The Lure, onde cruzava o folclore de sereias com cabarets. Aqui apresentou Fuga, um registo bem diferente do seu primeiro filme. Paciente, negro e bastante silencioso, a realizadora polaca centra no mistério de uma mulher amnésica que se reencontra com a sua família. Casada e com um filho, esta mulher aventura-se numa demanda pela sua identidade, mas ao invés de querer recuperá-la, deseja regredir à estaca zero da sua existência neste Mundo. Esperava-se mais loucura aqui. Smoczynska parece ter ficado num aperitivo de uma densa atmosfera que questiona a percepção ao nosso redor. Nesse sentido, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt foram mais aventurosos numa sátira dirigida a um certo craque de futebol que tão bem identificamos. Sim, Diamantino, vencedor da Semana, é um dos mais filmes mais curiosos do ano.

Já que continuamos com portugueses, existe uma satisfação em ver João Salaviza, que ao lado da brasileira Renée Nader Messora, a abraçar a naturalidade ao sobrenatural à lá Apichatpong Weerasethakul no subtilmente denunciador Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Este docudrama exótico sobre a comunidade indígena Krahô, vivente na Aldeia Branca, e com especial atenção à sua relação com o Brasil moderno, é uma das grandes apostas para os Palmarés do Un Certain Regard.



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