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Cannes: o Inferno em ecstasy de Noé superado pela mutação de "Girl"

Tu desprezaste I Stand Alone. Tu odiaste Irreversível. Tu espezinhaste Enter the Void. Tu amaldiçoaste Love. Agora experimenta Climax.” Foram estas a palavras [tradução nossa] que destacavam no press release enviado aos jornalista, com o riso matreiro de Gaspar Noé a figurar na capa.

O realizador argentino radicado em França regressou a Cannes com intuito de chocar, e pelo historial tem conseguido mais que uma vez. Irreversível foi de longe a sua missão mais provocatória cumprida, um choque frontal que fez com os espectadores do certame conduzissem à sua pessoa os mais diferentes adjetivos. Gaspar criou uma imagem de bom “odiado” e  - como qualquer feira de aberrações - os seus filmes têm ganho um mediatismo imediato antes de qualquer visionamento, uma curiosidade mórbida de olhar para lá da cortina. Assim foi na Quinzena de Realizadores, na qual o seu novo filme, até então envolvido em mistério, encheu por completo a sala do JW Marriot: “É um filme colectivo” descreveu Noé em palco durante a apresentação de toda a sua equipa, incluindo a atriz-estrela Sofia Boutella, terminando com uma promessa “não se vão embora, temos uma surpresa para vocês no final”.

Em 6 dias de festival somos capazes de enumerar os dois protagonistas: Jean-Luc Godard e agora Gaspar Noé. O primeiro anunciou a morte do Cinema através de um longo mashup, com o pretexto de uma reflexão ao Médio Oriente, mas foi na sua conferência de imprensa que assistimos ao momento mais "godardiano" do festival. Godard surgiu aos jornalistas através do Facetime, transmitido no pequena ecrã de um smartphonena posse do seu diretor de fotografia, Fabrice Aragno. Uma provocação, visto que estamos a falar desse termo aqui, que ao mesmo tempo converteu-se numa delícia para a imprensa. Já o segundo, Noé, tenta manter vivo o cinema como espetáculo circense, um evento sensorial a puxar os limites da nossa suscetibilidade. A este, as críticas são duras, as experiências não se encaixam numa certa ideia de Cinema, enquanto que o primeiro é endeusado com as suas provocações. Um é erudito, e sabemos quem é. O outro atenta-se no conceito mais emocional das imagens. Porém, ambos são violentos, um na descrença e o outro na crença.

Se Godard é Deus, então Noé é o Diabo que nos convida para um dos círculos infernais neste Climax. Simplificando o termo, eis mais um filme de cerco onde o “monstro” reside dentro dos próprios prisioneiros, o quais são despertados por doses industriais de LSD. Dançarinos que se convertem em “anjos exterminadores”, sim, como mandam as tendências buñueleanas que o filme submete para endereçar um conceito autodestrutivo. Claramente é um trabalho de Noé: os neons, a câmera em ecstasy que nos provoca um repugnante point-of-view emocional, os fade outs que esquartejam diálogos e planos de maneira a inserir falsos-raccords. Climax é tudo aquilo que esperávamos e talvez mais de forma gratuita. Porém, há um sentimento de desilusão por aqui, o efeito tóxico desta orgia em estado de guerra encontra-se demasiado tentado em nos chocar que perde o seu efeito surpresa ao longo da sua execução. Por outros “trocados”, este Climax não tem climax e como tal evidenciamos o filme mais fraco da carreira do realizador.

A promessa de Noé, não o filme, foi uma mostra de dança freestyle no final da sessão com os atores. As luzes vermelhas acendem-se no auditório, a festa possui o que poderia ser um suposto Q&A final.

Na verdade, Gaspar Noé ficou-se pela Prata no campeonato de “choques em Cannes”. O Ouro seguiu para Girl, o muito curioso filme de Lukas Dhont, presente na Un Certain Regard. Regressando ao universo do ballet, o realizador belga explora um tormento identitário que agride o corpo de um jovem transgênero em plena transição. Victor, aliás Lara, de 16 anos, muda de cidade com o intuito de começar do zero a sua existência, perseguindo o sonho de se tornar uma dançarina. Mas o dilema apodera-se dela através de um nova panóplia de sentimentos.

Dhont exibe destreza em filmar corpos num intimista body-horror, uma transformação através de sangue e suor que nos guiará a um desfecho chocante … desesperadamente chocante. A dor foi sentida pela audiência que de seguida aplaudiu-o fortemente. Touché!



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