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Cannes: Godard e as imagens, o amor e os seus significados

De fantasmas o Cinema está cheio, mas nós não nos fartamos deles. Eles representam uma das melhores características da arte, materializar o invisível, o imaginado, o impensável. Quando refiro a fantasmas, não estou exclusivamente a trancá-los no género definido do terror, porém, na narrativa binária, da alusão, da metáfora, das invocações de reinos debatidos entre crentes e céticos.

Los Silencios, uma coprodução entre a Colômbia, Brasil e França, aborda-nos as questões dos refugiados, apátridas e conflitos armados e ideológicos subvertendo-se a um suposto retrato de inserção social. Nem tudo é o que parece, e o vivo e não-vivo coabitam no mesmo sistema, deixando claro as raízes místicas de uma América apoderada pelas vozes do passado e dos esquecidos. Um filme simples que conquistou a Quinzena dos Realizadores, cuja simplicidade abordada confronta diretamente a sobrenaturalidade com uma desarmante naturalidade. Por estes lados, encaramos um Apichatpong Weerasethakul amazónico e a realizadora, Beatriz Seigner confirmou as influências

Persistindo em fantasmas, o dia ficou marcado pelo regresso de um dos maiores vultos do Festival. Jean-Luc Godard esteve presente, não fisicamente, mas fantasmagoricamente com o seu novo (e possivelmente último filme) Le Livre d’images, um ensaio audiovisual que não deixou ninguém indiferente. O visionamento de imprensa foi a prova do poder das imagens de Godard, por entre saídas repentinas (verdadeiras correrias pela porta fora), lutas inerentes com o cansaço o qual muitos jornalistas debateram-se e ainda … roncos.

Le Livre d’images não iria ser um filme fácil no lufa-lufa de Cannes, já todos sabiam, o que não se previa é que à imagem dos seus últimos trabalhos, este é ainda mais individual, um filme de eremita, feito por um eremita e dirigido para eremitas. No final, a tristeza abateu-nos. Não existe amor naquelas imagens, não existe sabedoria naquelas palavras, mas sempre existirá alguém que irá interpretar tais significados. Jean-Luc Godard beneficia hoje em dia de um estatuto imaculado, diria quase divino, e o que vimos não é ele, é uma sombra. Uma pesarosa e fúnebre sombra. O Cinema Morreu? Com filmes como este diria que sim.

Mas se falta amor em Le Livre d’images, em Cannes não faltam obras que retratam esse sentimento e as diferentes variações do mesmo, cada uma à sua maneira. O polaco Pawel Pawlikowski recorre aos ecos do seu oscarizado Ida para nos trazer um romance impossível em Cold War, que tem sido uma das obras mais amadas nestes primeiros dias de Festival. Decorrido no pós-Segunda Guerra e na expansão do sovietismo, o filme apresenta-nos um amor impossível como tantos outros, mas é na sua condução, no suicídio gradual dos sentimentos entre estas personagens, auto-destruidoras, que Cold War ganha dimensão, rasgando a sua capa gélida.

Para dizer a verdade, não se via um romance platónico desta magnitude em algum tempo, e Pawel Pawlikowski o preenche com compaixão e ao mesmo tempo violência. Se existe uma sequência a ser retirada nisto tudo, é uma vibrante cena de dança, não via nada disto desde que Vischonti andava neste Mundo.

Um habitué no Croisette, Jia Zhangkee, também reserva algumas palavras sobre o tal amor propriamente dito e fá-lo através de uma relação tóxica de dependência que vai desintegrando o orgulho dos seus personagens. Ash is Purest White é, à imagem do filme anterior, uma narrativa que oscila por diferentes ritmos, composições e atos, assim como a apropriação e desconstrução dos elementos do Oeste. O realizador chinês filma os corpos com uma fascinação implacável pelos seus movimentos, filma heroínas da mesma forma que filma seres antagónicos, e vítimas da mesma forma que filma agressores. É uma monstruosidade, como diria Lucrecia Martel, uma utopia fílmica que resulta num puro estado de alma.



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