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Cannes: recordar os sentimentos que faltaram no filme de abertura


Opening Ceremony © Alberto Pizzoli /AFP

Pourquoi t’as l’air triste?”, pergunta Jean-Paul Belmondo a Anna Karina numa das muitas cenas fulcrais de Pierrot le Fou, ao que ela responde: “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments”. Não é por menos que o beijo entre os dois atores/personagens, o Ferdinand (Belmondo) e Marianne (Karina) encontra-se imortalizado no cartaz desta 71ª edição de Cannes. Eles levaram o Cinema por outros caminhos e sobretudo por outros sentimentos, estes que são relembrados com tamanha nostalgia.

Depois da feira das vaidades do tapete vermelho, o Grand Théâtre Lumière aplaudiu serenamente este trecho de uma das obras-mestras de Jean-Luc Godard, que foi seguido por um monólogo especial por parte de Edouard Baer, o mestre de cerimónias, com acompanhamento do piano de Gérard Daguerre, tributo que tocou no coração da própria Anna Karina, presente num dos balcões.

Pierrot le Fou entra novamente em cena, desta vez com a mítica sequência em que Belmondo dirige-se aos espectadores, quebrando a quarta barreira. São tempos em que o Cinema comunicava diretamente connosco, sem filtros nem rodeios, e - condizendo com a cena inaugural da cerimónia - olhava para os espectadores com sentimento. Coisa rara no Cinema de hoje, mas o Festival de Cannes é sobretudo feito disto - uma busca incansável pelo Cinema que nos “fala” de forma emocional - e que melhor pessoa para rastrear tais “pegadas” que Thierry Frémaux, o qual tem demonstrado nos últimos tempos uma paixão cinematográfica cega, porém, apaixonada por causas algo perdidas. Ora as guerras com a Netflix e mais recentemente o seu olhar desconfiado às séries de televisões, o delegado artístico de Cannes tende usar como escudo a sua cinefilia, para o bem e para o mal. É um amante de cinema à moda antiga e durante 11 dias queremos acreditar que sim.

Com isto, Frémaux subiu ao palco, apresentou um a um o seu Júri de 2018, com especial homenagem à sua presidente, Cate Blanchett “Madame, madame … and monsieur”, assim se dirige a atriz ao público. A cantora Juliette Armanet sobe ao palco para cantar Les Moulins, música que ecoou no grande teatro. Foram visíveis algumas lágrimas perante a melosa melodia.

E é então que chega-nos outro convidado, Martin Scorsese, o qual relembro que irá receber o Le Carrosse d’Or na Quinzena de Realizadores, que teve as honras, ao lado de Blanchett, em dar como aberto mais um Festival de Cannes. O 71º ano que arranca já com uma tremenda desilusão.

Asghar Farhadi tornou-se nos últimos anos num dos mais respeitados nomes do chamado world cinema e não é para menos. Um Urso de Ouro acolá e dois Óscares conquistados, uma mão cheia de obras que têm sobretudo seduzido a crítica e público cinéfilo, o iraniano tinha tudo para fazer deste Everybody Knows (Todos Lo Saben) num fascinante thriller dramático. Resultado, uma telenovela encurtada cujo o enredo provocou gargalhadas no visionamento de imprensa, um humor involuntário perante personagem barrocas fragilmente construídas e Javier Bardem a falhar o alvo dramático. Esperamos que este equivoco não se reflita no resto da Competição, até porque contamos com uma remessa refrescante de Cinema com muito a provar e, claro, “caras conhecidas” que não desejem ficar para trás. Por enquanto, Farhadi mostrou que até mesmo os “campeões” não são imunes à derrota.



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