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Seis Noites de Terror: pausa para falar com a Morte

No terceiro dia do Motelx: a magia de “The Masque of the Red Death”, o delírio distópico “The Bad Batch” (estreia comercialmente em Portugal com o título “Terra sem Lei”) e a violência sexual de “The Hounds of Love”.

THE MASQUE OF THE RED DEATH

O príncipe Próspero é o mais perfeito vilão de Vincent Price ao lado do caçador de bruxas de “Witchfinder General”; quando não está a extorquir campónios e a condenar inocentes à morte, salva da peste (a Morte Vermelha) uma turba de aristocratas escroques. Praticante de todas as vilanias possíveis, apenas aguarda o momento do grande festim em honra de Satanás.

Muita acima do poder dos homens e dos deuses, no entanto, está a Morte; a exibir um variado número de faces e um colorido figurino, ”Ela” explica a Próspero que “não tem chefe”. Na parábola de Corman o bom e o mau surgem sob uma interpretação quase herética: satã não reina, mas o deus cristão (os “bons” do filme parecem saídos de um filme bíblico) também não.

Mais não vale dizer: a poesia que emana do filme é para degustação in loco. Há um sumptuoso banquete oferecido pela qualidade habitual de Daniel Haller (diretor de arte), aqui apoiado por ninguém menos que um Nicolas Roeg (fotografia) em início de carreira (havia sido assistente em “Lawrence da Arábia”) e maiores ofertas de capitais provenientes pela associação da AIP com uma das mais interessantes produtoras dos anos 60, a britânica Anglo-Amalgamated. A mudança faz-se notar: a companhia do produtor Nat Cohen vinha desde o final dos anos 50 a oferecer alternativas marcadas de sadismo às convenções sobrenaturais da Hammer – produzindo filmes brutais como “Horror of Black Museum” (1958) e “Peeping tom” (1960).

O filme é o ponto alto de um ciclo. Aquilo que começou para ser um projeto único baseado em Edgar Allan Poe (“House of Usher”, de 1960) passou a seguir a lógica do que deu lucro: “The Pit and the Pendulum” (1961) foi uma réplica, “The Premature Burial” (1962) um claro sinal de desgaste. Se Corman tivesse um lema havia de ser “quem fica parado é poste”: assim “Tales of Terror” (1962) trazia uma narrativa em episódios e, com o sucesso dos momentos de humor, veio uma comédia explícita – “The Raven” (1963). “The Haunted Palace” (1963) mudou de fonte e foi para H.P. Lovecraft, mas foi vendido como vindo de Poe por razões de marketing. A estas alturas, no entanto, não se imaginava o passo de gigante do penúltimo filme da série – completada com “Tomb of Ligeia” (1964) – obra novamente com belos ambientes, mas que acabou por se ressentir do argumento confuso de, quem diria, Robert Towne, Óscar na categoria em 1975 com “Chinatown”.

THE BAD BATCH

Sob a sombra do serrote de “Mad Max” há uma nova distopia a céu aberto; o título refere-se aos excluídos por decreto (óbvia referência aos refugiados) e tem a fórmula infalível para agradar: canibalismo, amputações, assassinatos gratuitos e “trips” no deserto (a sequência da pastilha é sensacional e a viagem é a borla). Já quem reconhecer Jim Carrey ganha uma entrada para Comfort (onde vivem os privilegiados) e Keanu Reeves está um verdadeiro filósofo enquanto narcotraficante e líder da comunidade.

Enquanto no interior a bizarrice estilizada corre solta e a luta pela sobrevivência termina frequentemente em churrasco, do lado de fora outras batalhas decorreram. “The Bad Batch” ganhou o prémio do júri no Festival de Veneza do ano passado; mas muitos críticos não gostaram da ementa. A acusação mais justa dos detratores será a de pastiche; certamente muita coisa parece ter saído de algum lugar. No mais pode-se acrescentar que atriz principal (Suki Waterhouse) é ruim e o argumento (da própria realizadora) se perde no deserto a partir de certo ponto.

Os filmes de Ana Lily Amirpour, independente dos méritos ou deméritos, inspiram descrições inventivas. Quando deu nas vistas em Sundance em 2014 com “A Girl Walks Home Alone at Night”, foi a própria a inaugurar a série: “o primeiro filme iraniano que mistura vampiros com western spaghetti”. A sensação foi muita e o resultado foi a esta sua estreia em língua inglesa.

THE HOUNDS OF LOVE

Dos espaços abertos para a clausura: no terceiro filme australiano com mulheres amarradas do Motelx (“Killing Ground”, “Berlin Syndrome”) um casal de psicopatas, sequestra, tortura, viola e mata adolescentes e continua a sua vida como se nada fosse. Até que a nova vítima afeta o “equilíbrio” da relação. Livremente inspirado num caso real.

Vendido como thriller, mas sem polícias (retratados de forma patética) e com a maior parte da violência fora de campo; a ênfase é no drama. Se Stephen Curry (o sequestrador) é um monstro tranquilo e à vítima (Ashleig Cummings) resta chorar e esperar (ganhou um prémio em Veneza, onde o filme estreou em 2016), cabe a Emma Booth (vítima, sádica, frágil, implacável) assegurar as contradições e o desenlace.



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