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Seis Noites de Terror: quantas piadas apocalíticas cabem num bar?

O segundo dia do Motelx (06/09) traz Álex de la Iglesia e a sua montagem epilética a confabular sobre medos reais e imaginários (“El Bar”), uma história de “salve-se quem puder” florestal (“Killing Ground”) e o campeão da nojeira – o americano “Kuso”. Já Roger Corman tem sessão de autógrafos prevista; posteriormente passa o seu filme mais estranho – “X: The Man with the X-Ray Eyes”.

EL BAR

O cinema de terror será dos mais prolíficos a contar histórias em espaços fechados. Coube a um outro espanhol o recorde da aventura: Rodrigo Cortéz construiu um enredo inteiro dentro de um caixão (“Buried”).

Álex de la Iglesia, por seu lado, descobriu que ligar a montagem à corrente produz faísca (“Las Brujas de Zugarramurdi”) e a intensidade do acontecimento ficará completa com piadas em catapulta, beldades banhadas em azeite e um ácido comentário social que trai a aparente brincadeira.

Em causa está o medo – e uma sociedade dominada por ele; a grande ameaça é o Outro – que pode ser um terrorista, um sem-abrigo, ou uma simples “barbie” que não parece ter nada na cabeça. E mais: o pavor facilmente baralha o real com o imaginário.

El Bar

Segundo o filme, na luta mais terra-a-terra pela sobrevivência o vizinho do lado torna-se rapidamente um alvo a abater; a televisão conspira sempre (tema de “La Chispa de la Vida”) contra todos e os poderosos vão-se ocultar através das suas fogueiras e falsas imagens; só um louco apocalíptico poderá chegar perto da verdade e apenas a descoberta do amor romântico trará alguma redenção no labiríntico esgoto por onde escoa a fealdade humana.

Mais prosaicamente, de la Iglesia quis criar personagens a partir de frequentadores de um café próximo à sua casa. É fácil de imaginar que, a partir daí, a ideia tenha evoluído para o seguinte: sob o medo e o horror, as máscaras sociais caem e o ser humano revela-se em toda a pureza do seu objetivo primordial – que consiste essencialmente em tentar não morrer. Tema certamente já explorado – mas o que importa é a forma.

KILLING GROUND

O mesmo princípio vale para o australiano “Killing Ground”: aqui a auto preservação põe em causa as juras de amor eterno. Há pinceladas de realismo na ação dos protagonistas face a situações de perigo: assim, eles se contrapõe duramente a jornada do grande super-herói hollywoodiano.

Killing Ground

De resto, basta um casal apaixonado, uma família com um bebé e dois delinquentes tarados para meter fogo na floresta. O argumentista/realizador australiano Damien Power decidiu, no entanto, evitar a qualquer custo levar o passageiro pela trilha do óbvio. Duas narrativas paralelas servem para deixar o espetador perdido – até porque só mesmo com uma história não-linear para percorrer este caminho gasto.

Em algum lugar dos anos 70 jazem atrocidades semelhantes cometidas no bosque (“I Spit on your Grave”), numa vizinhança perto de si (“The Last House on the Left”) ou no matadouro de nenhures (“The Texas Chainsaw Massacre”) – e que levaram os vilões humanos a horizontes além da imaginação. “Killing Ground” é uma proposta eficiente de méritos não aparatosos.

KUSO

Quanto ao americano “Kuso”, é preciso dar algum crédito a um filme que chega com o selo Variety de “filme mais nojento já exibido em Sundance” (pôs gente a fugir da sessão). Pode não ser relevante: espíritos sensíveis em festivais de arte andaram a desmaiar no muito mais palatável “Grave” (Raw). Mas “Kuso” é, efetivamente, repelente – embora esse venha a ser o menor problema dos aventureiros da sessão da meia-noite no cinema São Jorge: uma colagem surrealista de momentos grotescos que podem lembrar uma bizarra alegoria distópica – ou, na pior das hipóteses, não remeter a coisa alguma. Um rapper/DJ/produtor musical, Flying Lotus, está por trás da doença.

Kuso

E por que o nome do filme significa m* em japonês? E por que todos os personagens têm feridas asquerosas (algumas até falam)? A razão mais simples é que Lotus queria homenagear o grande Takashi Miike. “Eu gostaria de fazer um filme que o fizesse sorrir”, disse ao britânico Independent. Mas houve outros objetivos: para Lotus (o nome dele é Steve Ellison) o que é entendido como “cinema negro” é muito pouco visceral. “Eu quis trazer novos elementos para a discussão, fazer um verdadeiro filme de terror”.

A proposta não deixa de ser curiosa para alguém que escondeu-se atrás de um pseudónimo para lançar um álbum de rap. Aconteceu em 2012 e codinome era Captain Murphy. ”Eu sou tímido e achei que todo mundo ia odiar”, justificou-se. Bom, pelo menos agora corre um sério risco…


X: The Man With the X-Ray Eyes

X: THE MAN WITH THE X-RAY EYES

Ray Milland consumiu parte considerável dos magros orçamentos de Roger Corman para dar vida ao cientista que inventa um soro para ver além da superfície. À boa moda dos filmes de monstros que infestaram as três décadas anteriores, ele quer provar algo temerário e que, certamente, vai dar errado. Mas curiosamente os efeitos não são o caos social, mas uma singular jornada para dentro.

Roger Corman andava muito ocupado por esta altura com o seu ciclo baseado em Edgar Allan Poe; mas enquanto estes são belos poemas góticos visualmente rebuscados, “X: the Man with the X-Ray Eyes” leva o espectador à uma viagem por um urbano cinzento e à uma travessia que ruma da ciência para o místico, onde não há lugar para o moralizante deus gótico/vitoriano.



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