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Motelx: o grande ultraje dos 70s num cinema perto de si

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Get ready for the weirdest film trip ever. Say goodbye to the ordinary - let your imagination soar.”

Quem recomenda são Catal Tohill e Pete Tombs, autores do livro Imoral Tales – European Sex & Horror Movies – 1956-1984. Da compilação que fizeram, reunindo seis realizados europeus que se aventuraram por rumos inusitados numa época onde o “cinema de terror ficou totalmente louco”, um dos capítulos é destinado a Walerian Borowczyk, o homem por trás de um dos grandes escândalos dos 70s.

Se querem seguir a sugestão de Tohill e Tombs e enveredar pelo arriscado caminho onde a racionalidade não consegue deter o “triunfo da besta”, a sessão de La Bête (ou The Beast, no título em inglês) é no cinema São Jorge, dia 10. Mas fica o aviso de Edward van Sloan extraído da abertura do clássico Frankenstein (James Whale, 1931), altura em que a Universal decidiu aterrorizar a sua audiência: "… present this picture without a word of friendly warning (…) I think it will thrill you. It may shock you. It might even – horrify you (…) Well, we warned you."

O despertar da besta

O filme conta a história da jovem e alegre Lucy Broadhurst (Lisbeth Hummel) que, no início do século XX, dirige-se com a tia a um castelo do interior francês para conhecer o seu futuro marido. Seu entusiasmo é tal que nem a amedrontam as esquisitices e o aspeto de Maturin (Pierre Benedetti), filho de um nobre falido que precisa desesperadamente do casamento. Mas, mais importante que isso, durante o trajeto e a estadia na casa, enquanto espera pelo padre que celebrará a união, ela vai colhendo elementos que vão se unir miraculosamente num delirante sonho que despertará a “besta” da sua sexualidade ardente. Até poderia ser a base para algum pobre filme porno, mas La Bête traz antes uma verdadeira proposta erótica.

Por trás do projeto está Walerian Borowczyk, falecido em 2006, um pintor e ilustrador nascido na Polónia mas radicado em França. Antes do filme, a sua carreira respeitada já andava a meter-se por “desvios” de conduta que andavam a chocar os puritanos com obras como Contos Imorais. Uma curta-metragem de La Bête, por seu lado, havia horrorizado alguns críticos um ano antes da longa. E o pior estava por vir.

Os sonhos inquietos são uma loucura passageira

Esta é a epígrafe do filme; na sua sequência, é lícito pensar que sonho e loucura são o melhor que se pode querer numa obra de arte. Os psicanalistas, por sua vez, afirmam que, quanto mais reprimidos são os desejos, mais fortes se tornam no inconsciente – e é nos sonhos que eles se libertam: livres das correntes da consciência, manifestam-se na sua espantosa animalidade. “Ainda bem que somos civilizados”, diz-se no filme – mas o facto de a afirmação vir de um padre pedófilo só reforça de forma anedótica o que o discurso subliminar insinua.

A sequência onírica é, certamente, o tour de force de La Bête e não é justo detalha-la. Basta dizer que a “loucura passageira” de Lucy envolve o arquétipo de uma história gótica perversa, com uma floresta, uma dama em apuros e um monstro que, para dizer pouco, acaba com a graça dos demais – essencialmente porque nenhuma história convencional poderia ser mais divertida, bizarra e ultrajante na concretização de fantasias inconfessáveis.

Iconografia erótica

Claro que o filme não teria interesse se não fossem os atributos técnicos deste pintor e colecionador de objetos eróticos. Para montar esta peça de rara sensualidade, Borowczyk vale-se de uma atenta manipulação na montagem que intercala os objetos devidamente fetichizados ou repletos de simbolismos, com as cenas mais explícitas – criando um verdadeiro sentido de antecipação que se aperfeiçoa nos enquadramentos inusitados e nos planos de detalhe (a sequência da masturbação com a flor, por exemplo).

Outros elementos estão a serviço de um humor negro desapiedado – como nos ângulos e movimentos de câmara que simulam o ato sexual na floresta ou a forma como o inconsciente de Lucy transforma em banda sonora (do sonho e do filme) a música executada por um dos pupilos do padre num cravo que está na sala.

As bestas somos nós

Os anos 70 foram a grande década das ousadias para o cinema de terror - mesmo no que diz respeito à sua relação com o público. Em que outra época um filme onde uma menina desfigurada de 12 anos automutilava os seus genitais com uma cruz berrando “fuck me Jesus” seria um êxito de bilheteira e até chegasse aos Óscars? Mas, enquanto em O Exorcista havia um outro a quem culpar (quem senão a encarnação do Mal Absoluto poderia ser o culpado de tais desgraças?) em La Bête não há um vilão que nos redima. O monstro aqui nasce dos nossos sonhos; por outras palavras, as bestas somos nós. 



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