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«Joaquim» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

A estreia de Joaquim vem a condizer com todo um ambiente politico-urgente que se vive no Brasil e funciona com isso numa apetência à reflexão desse mesmo sistema e da própria identidade brasileira.

Dirigido por Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), eis uma incursão na vida de Joaquim José da Silva Xavier, ou imortalmente designado por Tiradentes, uma das importantes figuras da revolução anticolonialista, antes de se tornar no estandarte ideológico. Porém, ao contrário do que poderia suscitar aqui, a fita não se revê em parâmetros patrióticos idealizados, renegando sobretudo qualquer lavagem dessa natureza, e sim, aposta num retrato subliminar dessa concentrada ala politizada. Lembramos também que o nome Joaquim remete também a uma personalidade destacada durante a Ditadura Militar, só para termos a perceção da dualidade do seu próprio simbolismo.

Mas voltando ao filme que descortina perante o modelo martirológico que Joaquim, interpretado com certa pujança por Júlio Machado, se converteu após a sua trágica sentença, Marcelo Gomes aposta numa frente em constante ebulição de um homem ambicioso quevai estagnando perante uma desilusão, no qual espelha ou se auto-recompensa através de uma proclamada luta entre classes identitárias. Em certo aspeto, este constante jogo de humilhação de um homem só entra em dialogo com Zama, a mais recente fita de Lucrecia Martel, apoiando-se ambos em discursos de deceção do sistema colonialista. Nesses termos, não querendo inteiramente seguir esse paralelismo entre as duas obras citadas, Joaquim joga em puro modo de defesa, enquanto o passado encenado tende em dialogar com um presente atribulado.

Se a culpa é dos portugueses, diversas vezes citados como um desvio de responsabilidades (como é o quase da corrupção, mencionado como algo culturalmente hereditário), o nosso Tiradentes abraça com isso um turbilhão de ideias que se escarnecem como afronta às suas próprias injustiças. Aqui entramos em território de ingenuidade que se confunde com a politica dos nossos dias, um ódio vinculado que suscita uma idealização projetada, não correspondendo a intenções demarcadas com a realidade dos factos. Como tal, Joaquim converte-se numa figura refém desta mesma “fantasia”, acreditando piamente na igualdade dos homens que não se reverá na estrutura formada dos colaboradores.

A sequência final demonstra essa “desigualdade” disfarçada, essa hierarquia que tende em operar em conformidade com um entranhado triângulo de cadeias e a tendência de ideologias divergentes que trazem resultados idênticos. A dita cena transmite com todo um detalhe sugestivo os efeitos desse iminente motim colonial, que entra em contraste com as similaridades culturais entre os diálogos babélicos entre o escravo (Welket Bungué) e o indígena (Karay Rya Pua).

Em suma, renunciando a esquematização quase imperativa das cinebiografias de hoje, Joaquim lança o seu trunfo, assumindo como um relatório perfilado da psicologia de um “bem histórico”, olhando para esses factos com a convicção de abordar o nosso existente panorama. Mesmo que o filme em si, em termos técnicos, oscile na boa vontade de um realizador incisivo e inerente (como o encanto algo narcisista da personagem de Júlio Machado quanto ao seu reflexo no lago) ou na câmara, por vezes "embriagada", que confunde o método guerrilheiro como a única solução de filmar em ambiente silvestre.


Hugo Gomes

«Candyman» poderá regressar aos cinemas

Segundo a Bloody Disgusting, Jordan Peele (produtor de BlackKklansman e realizador de Get Out), e a sua produtora Monkeypaw Productions poderão ser os responsáveis pelo regresso de Candyman aos grandes ecrãs.

Inspirado numa criação do escritor do género fantástico, Clive Barker, Candyman é um espirito tragicamente amaldiçoado que surge a quem repetir o seu nome durante cinco vezes em frente de um espelho. A personagem protagonizou três filmes, todos eles encarnados pelo ator Tony Todd.

A mesma fonte indica que esta futura aparição do vingativo espirito poderá ser um remake e não uma sequela direta ao filme original, datado de 1992, que havia sido falado há alguns anos atrás.

«Hagazussa: A Heathen's Curse» vence 12º MOTELx

Hagazussa: a Heathen’s Curse, do austríaco Lukas Fiegelfeld, é o vencedor da 3ª Competição Europeia de Longas-Metragens do MOTELx. O filme, que reflete o papel da Mulher numa época em que a bruxaria é mais que superstição, um medo irracional, competiu pela distinção com outras oitos longa-metragens, incluído duas produções portuguesas (Inner Ghosts e Mutant Blast).

Já na categoria de curtas-metragens, A Estranha Casa na Bruma, de Guilherme Daniel, saiu-se consagrado, recebendo 5.000 euros em prémio e um lugar entre os nomeados para a competição internacional Méliès d`Or, galardão atribuído anualmente pela Federação Europeia de Festivais de Cinema Fantástico. A curta Agouro, de David Doutel e Vasco Sá, recebe uma menção especial.

O 12º MOTELx decorreu em Lisboa do dia 4 a 9 de Setembro, apresentando como principal destaque um ciclo sobre Frankenstein e ainda uma exposição de ilustrações baseadas nas criações de H.P. Lovecraft. O filme Elizabeth Harvest, de Sebastian Gutierrez, encerrou o evento.

«Inner Ghosts» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Chega a ser frustrante estas tentativas de explorar um cinema de género no panorama português e Inner Ghosts, uma produção com quase quatro anos (e o desaparecimento do realizador original, João Alves), veio confirmar esse suplicio.

Aqui seguimos Helen (Celia Williams), uma mulher seguida pela tragédia que divide a sua vida com a investigação médica e o seu dom pelo sobrenatural. Decidida em abraçar estes dois mundos tão opostos numa só ciência após a morte da sua mentora, ela abrirá “portas” que não deveriam ser abertas e “fantasmas interiores” que não podem ser revelados. Isto é tudo o que precisamos saber para arrancar um filme com inteira consciência da sua fraude Advertimos os espectadores que não existem graças nestas preces da mesma forma que não existe originalidade nesta criação.

Para além de copista dos territórios à James Wan que têm se apoderado do boca-a-boca da industria de terror (a própria Celia Williams tem muito de Linn Shaye da saga Insidious, e não só coincidências), Inner Ghosts atenta-se com um falta de noção de ridículo tendo em conta a seriedade transmitida. O seu ritmo desvanece por uma longa e apática introdução, provando (ou tentando) com isto ser o mais esperto da sala, um Deus entre formigas, para no final ostentar um resultado inglório embalsamado por climaxes apressados e estampados às três pancadas (para epiléticos, o final é mesmo a evitar).

O que este filme de Paulo Leite destaca-se dentro do panorama português (sublinha-se português para que não haja dúvidas) é o esforço na área visual, desde a caracterização a outros efeitos visuais algo modestos. Só que essa “arte”, assim chamaremos, é insuficiente para nos salvar de um produto com aspirações globais (português só de teoria, porque na pratica temos inglês para mercado internacional ver), mas que se fica pelo requintado medicamento genérico. No cinema de género, convém avançar para não se reter no conformismo oportunista e Inner Ghosts aprecia, mais que tudo, ficar pela última estância.

Nesse aspeto, a mais recente aposta de série B lusitana, As Linhas de Sangue, saiu-se mais corajoso, mesmo fracassando pelas óbvias razões.

Hugo Gomes

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