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Paulo Filipe Monteiro: "eu não me vou especializar em filmes de época"

Foto: Mafalda Martins

Antes de ser presidente, era escritor e foi a sua paixão pela escrita que fez Manuel Teixeira Gomes lançar-se no anonimato, viajar para uma Argélia colonialista e escrever a sua mais concretizada obra-prima. Esse pedaço de História esquecida fascinou Paulo Filipe Monteiro, ator e argumentista, e através da imagem de Teixeira Gomes lança-se na aventura da sua primeira realização. Mas o anonimato não mora aqui, e o C7nema testemunhou essa autoria.

Sabendo que esta é a sua primeira longa-metragem, o porquê de Manuel Teixeira Gomes? O que lhe fascinou?

Fascinou-me em primeiro lugar este gesto desmesurado dele de largar tudo, a presidência, a sua vida elegante, a sua coleção de arte, e partir no primeiro barco a sair de Lisboa. Isso, no geral, foi o que primeiramente me fascinou. À medida que ia pesquisando, aprofundando esta história, encontrei outros fatores interessantes na sua vida, uma delas foi o facto de ter sido um caso único no Mundo, o de um escritor de literatura erótica a chegar à presidência de uma Nação. O sensualismo da sua obra, assim como a proclamação das suas raízes, algarvias com ligação ancestral à cultura árabe, a sua paixão pelo Magred [região noroeste da África] que vem em contraponto com a atual demonização do Islão, o seu percurso como Presidente, que foi bastante importante, tendo sido uma figura politica reformista que lutou contra a especulação da banca, a crise financeira (tema atual).

Como funcionou o casting? Porquê Sinde Filipe na pele de Manuel Teixeira Gomes?

Para além de ser também ator, conhecer os meus colegas, e gostar de dirigi-los, faço apostas e pelos vistos, ganhei as todas. A nível de interpretação, Sinde Filipe [ler entrevista] está alto, e eu queria apostar numa nova linguagem, uma nova dimensão, um novo estilo. Com Zeus vão ver atores que por exemplo, toda a gente conhece das novelas ou dos palcos de teatro, duma outra maneira.

Paulo Filipe Monteiro é também o argumentista de Zeus, tentou evitar a esquematização das biopics convencionais?

Pois, eu já escrevi sete longas -metragens, para outros. Aqui, o que consistia era o desejo de fazer um filme em três blocos, como As Horas ou até Magnólia. Zeus presta-se a esses mesmos blocos. O bloco da presidência, escuro e claustrofóbico, em contraponto com o da Argélia, bastante solar e luminoso, e ainda, o romance de Maria Adelaide, que ele escreveu aos 77 anos no seu "quartinho" de hotel. Portanto, o filme vai saltando entre os três e penso que os espectadores vão gostar disso.

Manuel Teixeira Gomes é um homem interessado quer na politica, quer no meio artístico. Como foi consolidar esses dois "mundos" que parecem antagonizar um ao outro?

Ter um homem na política que é um escritor, para além de mais, ser um esteta, um interessado em artes plásticas, na pintura, um coleccionador de arte, faz com que se acha um casamento natural, mais fácil em relação à Arte. Se tivéssemos um presidente, ou até mesmo um primeiro ministro assim, teríamos uma grande afinidade entre a politica e o meio artístico.

Zeus apresenta uma época pouco retratada no cinema português, e até mesmo um pouco esquecida dos nossos manuais de História. Com a cada vez mais adesão ao período salazarista em relação a adaptações cinematográficas, acha importante explorar outros episódios da nossa própria História?

Sim, se repararmos no cinema dos EUA, eles tem menos História, mas a exploram até à exaustão. Quantos filmes existem sobre o Vietname? Nós temos menos filmes históricos, provavelmente por serem de produção cara, e difícil em termos de recursos reconstruir essa visão de época, mas nós temos muito material para explorar, para filmes. Não pensem que vou ser a fazê-los, eu não me vou especializar em filmes de época [risos]. Fiz este, mas o próximo projecto que tenho na cabeça é absolutamente contemporâneo.

Quer falar mais sobre esse novo filme?

É um projeto que tenho na minha mente, veremos se tem financiamento, e é previsto ser um filme bem contemporâneo, moderno, experimental, prometo "rasgar".

Para além de realizador, Paulo Filipe Monteiro é ator. O facto de ter sido um interprete o ajuda na direção do seu próprio elenco?

O facto de ser ator permite-me compreender os actores, como tocá-los, chegar a eles, como conseguir deles certas coisas, ou seja, esses dois mundos complementam. 

 

«Manchester By the Sea» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Dramaturgo, argumentista e agora realizador (contando com três obras no curriculum), Kenneth Lonergan parece cada vez mais chamar a atenção no campo dramático do cinema norte-americano atual, e não é por menos. Manchester By the Sea é-nos apresentado como uma faca afiada de enfâses dramáticas e picos de emotividade através da, e somente, a adaptabilidade dos seus atores, neste caso especifico, Casey Affleck.

Irmão mais novo da reascendente estrela de Hollywood, Ben Affleck, Casey é aquilo que vulgarmente poderíamos denominar de “ninja”, ninguém parece dar por ele, mas quando por fim se revela, é arrebatador. É difícil ficar indiferente ao seu underacting (vertente popularizada por Marlon Brando em que descredibiliza os rasgos de interpretação dramática). Atualmente, Tommy Lee Jones detém o título de mais sucedido dessa categoria, porém, Affleck converte-se numa autêntica carta de trunfos ao conseguir fugir das eventuais armadilhas do campo da comédia involuntária que a sua personagem e enredo parecem suscitar. Por exemplo, a sequência do hospital, após o anúncio de morte do seu companheiro confraternal, a sua visível indiferença abate-nos com um indigestível sabor de dúvida. Por momentos suspeitamos de “canastrice”, mas cedo somos engolidos pela sua figura vencida pela dor, cuja origem será desvendada mais tarde.

Sim, Casey Affleck é o melhor que o novo filme de Lonergan tem para nos oferecer. O resto induz-nos para o maior engodo de “colo”. Ao contrário das aclamações que têm sido viabilizadas lá fora, Manchester By the Sea é enfraquecido pela tendência de Lonergan transformar este ensaio de interpretações num filme, sob o signo cinematograficamente mainstream. Até porque o importante é chegar às audiências mais vastas e, porque não, miná-lo de flashbacks. A cortante e afiada fórmula narrativa parece despedaçar a minimalidade do enredo (pelo menos era o que julgávamos) e o plot twist precocemente concebido trai-nos e leva-nos a uma previsibilidade sem limites quanto aos modelos de redenção emocional.

A viagem torna-se então atribulada, mas Casey Affleck é um resistente, a demonstrar que é um campeão no que requer a embater em filmes que, cada um à sua maneira, fogem da conformidade do espectador. Longe da obra-prima que fora catalogado, Manchester By the Sea é a presença de um actor pouco convencional nas tendências oscarizadas.

O melhor - Casey Affleck e o seu underacting

O pior - ser "glorificado" a obra-prima

Hugo Gomes

Entrevista com Sinde Filipe, o ator de «Zeus»

Foto: Mafalda Martins

Zeus, a primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro, apresenta-nos a história real de um escritor ascendido a Presidente da República, que passado dois anos de mandato vira as costas ao máximo cargo para viver no anonimato numa Argélia colonial. Esta é a biografia de Manuel Teixeira Gomes, um homem, actualmente, esquecido da memória dos portugueses, que encontra nova vida na interpretação de Sinde Filipe. C7nema falou com o veterano ator, um dos mais queridos da sua arte, demonstrando o quanto sabe sobre esta desafiante personagem.

O que lhe interessou em Manuel Teixeira Gomes?

Manuel Teixeira Gomes interessou-me por vários fatores, como cidadão, exemplar devo dizer, como diplomata, como presidente, mas sobretudo pelo seu lado de escritor. Esse seu lado é grande, pelo que deve ser lido, e irá ser lido.

Mas actualmente a obra de Teixeira Gomes encontra-se um "pouco" esquecida.

Não, muito esquecida, é por isso que este filme é importante. Para trazer à memória dos portugueses esta personalidade tão rica e de grande relevância literária.

Fez pesquisa sobre a personalidade ao integrar o elenco de Zeus?

Obviamente que fiz uma pesquisa sobre a personagem. Contudo, devo dizer que já tinha conhecido desta importante figura, mas foi durante a pesquisa e a sua encarnação que tentei descobrir mais e mais sobre Manuel Teixeira Gomes. Tentei impregnar a personagem, espero ter feito justiça.

Ao longo da rodagem, descobriu algo de novo em Manuel Teixeira Gomes que não havia encontrado durante o seu processo de pesquisa?

Não lhe consigo dizer, tenho a noção de que as biografias que li fora devidamente esclarecedoras e clarificadoras quanto à sua personalidade. Não senti, de todo, que ao longo filme tenha feito alguns importantes descobertas. Julgo que não tenho acrescentado muito sobre a sua figura.

O período que Manuel Teixeira Gomes integra, é um período esquecido entre os portugueses. Até mesmo nos manuais de História. Acha importante explorar no cinema esta subestimada época? Visto que exploramos em demasia o período salazarista.

Da mesma forma como referi a figura de Teixeira Gomes, este filme também tem o dever de trazer à memória dos portugueses esta fatia de História pouco falada, os primeiros passos da República em Portugal. E claro, Manuel Teixeira Gomes é uma personagem, que em muitos aspetos, precisa de ser redescoberto e revalorizado nos dias de hoje. Precisamos tirá-lo da sombra.

Manuel Teixeira Gomes foi um homem dividido entre o seu lado artístico - a escrita - com a sua politica. Qual destes lados vingou-se na nossa História? Segundo a sua opinião.

Como escritor. Ele quando esteve na presidência não escreveu muito, aliás ser Presidente sobrepôs-se bastante à escrita. Foi como fizesse uma pausa nessa sua vertente artística, felizmente foram só dois anos. Porque a politica não o invalidou de ser o grande escritor, pelo qual deve ser reconhecido.

Ele sempre foi um escritor, acima de politico, mesmo na sua fase de diplomata, Teixeira Gomes não desistiu de escrever. Apenas parou temporariamente essa sua arte durante o seu cargo presidencial.

Novos projetos?

Apenas teatro, foi trabalhar numa peça que fora feita por Villaret há muitos anos, Esta Noite Choveu Prata

Yorgos Lanthimos e Kirsten Dunst preparam série de TV

Yorgos Lanthimos (A Lagosta, Canino) está a desenvolver para a AMC a série On Becoming A God in Central Florida, uma comédia negra que será protagonizada por Kirsten Dunst (Fargo).

Lanthimos e George Clooney estão entre os produtores. Passada nos anos 90, a produção segue Krystal Gill, uma mulher que trabalha num parque temático mas que encontra o caminho para o sonho americano através de um esquema em pirâmide.

Robert Funke e Matt Lutsky vão escrever o argumento, não sendo certo que Lanthimos realize todos os episódios.

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