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«O Silêncio da Chuva»: Lázaro Ramos nas trilhas de Espinosa

Foto.: @Mariana Vianna l Lázaro Ramos como Espinosa em O Silêncio da Chuva

Aos 40 anos, consagrado na TV, nos palcos e no cinema não apenas como um dos maiores atores do Brasil mas também como uma entidade viva em prol das lutas pela afirmação da população negra na América Latina, Lázaro Ramos conclui neste sábado, 21 de dezembro, um dos trabalhos mais simbólicos de uma carreira que ganhou prestígio mundial com a projeção de Madame Satã (2002) em Cannes.

A estrela, escritor e futuro realizador baiano assume o papel do Delegado Espinosa na versão para o ecrã de O Silêncio Da Chuva, romance policial de 1996 que dividiu águas na literatura brasileira. Nenhuma personagem ligada à Lei, na vereda do noir, tem tanta fama (e densidade) nas Letras, no Brasil, do que o investigador criado pelo psicólogo e professor universitário Luiz Alfredo Garcia-Roza, um expert na talking cure de Freud. Quem dirige Lázaro é o octogenário Daniel Filho, um campeão de bilheteria responsável pela franquia Se Eu Fosse Você (2005-2009), idealizador da revolução de linguagem que transformou a TV Globo na maior emissora das Américas (do Sul e Central) nos anos 1970 e 80.

Daniel vai ainda produzir o primeiro trabalho de Lázaro na direção: Medida Provisória, uma distopia calcada na peça teatral Namíbia, Não, de Aldri Anunciação. Em cartaz em solo latino com Beijo no Asfalto, de Murilo Benício, e também como a voz principal da animação The Grinch [em território brasileiro], nas versões com dobragem da longa da Universal, Lázaro fala aqui de sua caracterização para Espinosa, que, filme de Daniel, investiga os bastidores da morte de um executivo.

O que existe de político, quando se pensa em todo o preconceito racial do Brasil, na escolha de um ator negro para ser Espinosa?

Existe uma aproximação maior com a Realidade. Basta olhar a cara da nossa polícia para ver o contingente negro que faz parte dela. Quando Daniel Filho, um mestre com vasto entendimento da potência do quadro, chama alguém com a minha forma de levar a vida e de me colocar no mundo para um papel como esse, ele está a buscar algo pessoal para a personagem. E, se nós formos a analisar a literatura de Luiz Alfredo Garcia-Roza, notamos que o autor nunca descreve como Espinosa é, não fala de sua cor. Este é o Espinosa como o realizador Daniel Filho e eu o vemos. 

Madame Satã (Karim Ainouz, 2002)

E como seria este seu Espinosa?

É um homem que combate o crime nas ruas mas que mantém um hábito de leitura típico de intelectuais. Diferentemente dos livros, aqui ele gosta de samba, tem uma paixão... Eu sempre busquei personagens controversas. É curioso agora ser chamado para uma personagem cujo maior problema é lidar com o excesso de trabalho.

Mas podemos classificar O Silêncio Da Chuva como um filme de género?

É um noir. O Brasil, infelizmente, insiste em vender seu cinema para o público sem comunicar as especificidades de cada género. É como se “cinema brasileiro” fosse um género em si, e não é. Este nosso filme tem uma cara e uma comunicação de género, e sem perder o jeito brasileiro de ser.

Vai filmar uma peça, chamada Namíbia, Não, na qual os negros são expulsos do Brasil para África, por terem ganho na Justiça um processo contra a violência da escravidão. É um projeto que se articula com a sua batalha em prol das lutas raciais no país. O que mudou no terreno da representatividade negra este ano?

Apareceu uma nova geração que se impôs nas universidades, pelas quotas, e que ganhou voz das redes sociais. Porém, a afirmação gerou uma reação contrária. Esses dois grupos estão crescendo, muito. E, ano que vem, ambos vão ter que se reinventar.

Quais são seus planos para Espelho, seu programa de entrevistas no Canal Brasil?

Já tenho 26 convidados escolhidos, com muita gente da nova geração da música, gente de cinema e alguns religiosos: uma monja, um pastor, um pai de santo e um padre. Em janeiro começamos a rodar.



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