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Entrevista com Martín Rodríguez Redondo, vencedor do QueerLisboa 2018

O realizador argentino Martín Redondo Rodríguez inspirou-se num trágico episódio, ocorrido em 2009 numa quinta distante 100 quilómetros de Buenos Aires, para falar da opressão as homossexuais. Marilyn, estreado na seção Panorama do Festival de Berlim, venceu o prémio de Melhor Filme da última edição do QueerLisboa, que encerrou no último sábado.

Nesta entrevista ao C7nema o cineasta falou sobre a dura realidade da violência contra a comunidade LGBT no seu país – independente da legislação de proteção ser das mais avançadas da América Latina.

O filme conta a história de um jovem da zona rural, protegido pelo pai e não propriamente simpático aos olhos do irmão mais velho e da mãe. É com esses dois que ele fica a viver após a morte súbita do seu progenitor – ao mesmo tempo que veste-se de mulher e torna-se objeto de ódio e desconfiança por parte daqueles que o cercam.

Você se baseou nos diários do verdadeiro Marilyn para construir a sua história – que implicou em pelo menos dois episódios de violência. A violência é uma realidade muito presente no que concerne ao universo homossexual na Argentina?

Na Argentina temos uma lei de Casamento Igualitário desde 2010 e uma lei de Identidade de Género desde 2012. A nível legal, estamos muito avançados com relação a outros países da América Latina. No entanto, a realidade que se vive dentro da minoria LGBT não é a mesma numa grande cidade como Buenos Aires do que nas povoações do interior do país. Por vezes não é preciso distanciar-se demasiado da capital para encontrar realidades muito diferentes e a história real de Marilyn aconteceu a apenas 100 quilómetros de Buenos Aires.

Hoje em dia continua havendo violência porque as alterações na educação não acompanharam as mudanças legais – em grande parte por causa da influências das igrejas católicas e evangélicas na Argentina. A igreja católica, principalmente, não permite que existe uma educação sexual nas escolas.

O caso de Marilyn aconteceu em 2009 e foi um caso excecional. Normalmente as pessoas da minoria LGBT violência terminam por suicidar-se. São vítimas que seguem sendo vítimas. E caso dela foi mais complexo porque foi uma vítima que se converteu em agressor.

Às vezes pensa-se que casos como este já não acontecem, porém há alguns dias uma mulher “trans” publicou um vídeo estarrecedor no Facebook – onde mostra os golpes que recebeu por ser “trans” e conta o inferno diário de insultos que sofre na pequena cidade onde vive, não muito distante de Buenos Aires.  

Essas pessoas são muito vulneráveis e discriminadas. Na Argentina a expectativa de vida de uma pessoa nesta condição é de 35 anos, não têm oportunidades de trabalho nem leis que as protejam.

Martín Rodríguez Redondo

No entanto, o foco principal do seu filme é a opressão psicológica, o crescimento sufocamento do protagonista….

Penso que todos nós que pertencemos à minoria LGBT já sofremos na carne algum tipo de violência psicológica ou física por nossa orientação sexual. Sair da norma sempre gera resistência nos setores mais conservadores.

Neste sentido, parecia-me interessante pôr em foco a opressão que sofre Marcos, não só parte da sua família, mas também por parte da população local. Do meu ponto de vista, o filme tem diferentes camadas ou níveis de violência e opressão.

A família é oprimida pelo patrão do campo e pelo povo, e à sua vez ela exerce opressão e violência contra o seu próprio filho. Me interessou refletir sobre as condições que se produzem para o ato final de Marcos, embora sem justifica-lo. Eu queria entender o contexto social no qual aconteceu.

Você entrevistou algumas vezes o verdadeiro Marilyn. O que pode dizer sobre ele? Como ele se sente com relação ao que aconteceu?

A primeira vez que fui à prisão visita-lo ele era um homem e chamava-se Marcelo. Com o passar do tempo, ele começou um processo de transição de género e hoje chama-se Marilyn, e se identifica como uma mulher travesti.

O caso todo é muito complexo e contraditório, pois é alguém terminou sendo “livre” no cárcere – no sentido de que pôde ser quem realmente queria ser mesmo estando preso depois de ter cometido um crime.

Numa das entrevistas me disse: ‘no dia em que o crime aconteceu, Marcelo morreu. No cárcere nasceu Marilyn’. O complexo na sua psicologia é que ela assumiu o nome que usavam para gozar com ela, para ridicularizarem-na.

Ela foi condenada à prisão perpétua e está arrependida do que fez. Porém naquele momento, não via nenhuma possibilidade de ir para outro lugar. Seu mundo era aquele que o rodeava e não via mais além da casa e do campo ao seu redor.

Também fez um trabalho de investigação no meio rural argentino. Como descreveria esse meio em termos de sua relação com a homossexualidade?

Creio que em todos os países, não só na Argentina, as zonas rurais são mais conservadoras que as urbanas. No entanto, no processo de investigação fomos a um pequeno povoado, onde uma festa se celebrava.

E ali havia um rapaz que estava claramente num processo de transição, com uma roupa muito justa e o cabelo comprido. E ninguém parecia preocupar-se com a sua presença, era natural. Porém era aceito se não fizesse nada, se dançasse apenas com mulheres, não podia fazê-lo com os rapazes da festa.

Então percebi que havia uma grande hipocrisia porque enquanto não fizesse nada, estava tudo bem. Se mostrasse uma orientação sexual no era bem visto. É algo que acontece o tempo todo. Como disse antes, casos de violência continuam acontecendo todo tempo na Argentina, sobre contra a minoria “trans”.

Este foi o seu primeiro filme e teve boa passagem no Festival de Berlim. Como foi a experiência? Já tem novos projetos?

Berlim foi uma experiência incrível, é um festival muito grande. Tivemos cinco projeções, todas com boa resposta do público. Em geral os espectadores se mostraram chocados e comovidos com a história. Em relação a novos projetos, estou com muitas ideias mas não comecei a desenvolver nenhuma. Espero que aconteça, porque tenho muita vontade de voltar a filmar!



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