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Paco Plaza: "Eu e o Jaume Balagueró gostaríamos de fazer mais um [REC]"

 

O cineasta espanhol, principalmente conhecido pela saga [REC], veio a Lisboa ao MOTELx, não só apresentar o seu mais recente filme, Verónica, mas também participar numa Masterclass onde vai falar do cinema de terror espanhol. 

Sentado na esplanada do São Jorge, Plaza mostrou-se ao C7nema encantado com a cidade e extremamente feliz com a recepção que recebeu na Capital, em especial por a sessão do seu filme, exibida hoje na Sala Manoel de Oliveira, ter esgotado: “Quando vi que a sessão estava esgotada fiquei muito feliz, ainda para mais somos dois países [Portugal e Espanha] tão próximos, mas por vezes mais parece que estamos de costas voltadas. É muito bom vir aqui e estou cheio de vontade de depois da exibição ir falar com o público, perceber o que acharam do filme”.

Verónica…

Inspirado por uma história verdadeira no bairro de Vallecas, em Madrid, na década de 90, e marcado como o único caso em Espanha onde o relatório da polícia aponta para fenómenos inexplicáveis [paranormais], Verónica marcou o regresso de Paco Plaza à realização depois de [REC]3 Genesis. Com 7 nomeações aos principais prémios do cinema espanhol (os Goya), entre elas a de melhor filme e melhor realizador, o filme passou pelas salas nacionais, continuando o seu percurso na Netflix.

Quando questionado se tinha gostado do resultado final do filme, e se esta era a fita que tinha imaginado, Plaza respondeu que gostou muito mais do filme terminado do que o que imaginou, mas esclarece que o resultado final nunca é igual à original: “Um filme é como um bloco de argila, de barro, que modelas. O filme está dentro desse modelo. No final, viras o molde e vês o filme que saiu. E coincide mais ou menos com aquilo que querias fazer, mas nunca sabemos realmente. 

Há tantas pessoas intervenientes no processo - os atores, a equipa. Todos os processos [de filmar] fazem com que as sinergias humanas se fundam na película. Por isso, o resultado final nunca pode ser aquele que pensaste em casa, pois trabalhamos com 80 pessoas que põem parte de si no filme.

E veremos, tal como fizeram com [Rec], um remake americano? Plaza diz que ouviu rumores sobre isso, mas não acredita que o façam, até porque esta é uma história muito espanhola, muito local. Essa ideia de localizar e enraizar num espaço os filmes, é uma das coisas que mais aprecia: “Quanto mais local, mais universal é. Por exemplo, os sul coreanos fazem isso muito bem. Eles mostram o que comem, como as cidades são, as suas casas, as suas camas. Eles preocupam-se muito em explicar como é a vida lá. E isso é algo muito bom, que torna as coisas universais. Creio que o cinema é uma janela para o mundo, para o lugar onde vives, para outras culturas. Sempre achei que ninguém melhor que um Espanhol para fazer um filme Espanhol em Espanha. Se for uma obra em inglês, claro que mais gente vê. Mas este filme em concreto [Verónica] tinha de ser feita no nosso país, na nossa língua, para mostrar a nossa história. É uma forma bonita de mostrar ao mundo aquilo que é teu.

Sobre as influências cinematográficas para o projeto, curiosamente, Plaza não aponta nenhuma obra de terror, algo que - segundo ele - faz com que a fita  seja mais um drama em torno de uma jovem que um filme marcado pelos efeitos e marcas do cinema de terror. Fala de Carlos Saura, Antonio Mercero e Buñuel, que é o seu diretor preferido e do qual aprecia, particularmente, o seu “humor retorcido, muito espanhol”.


[Rec] morreu? Talvez não...

A meias com Jaume Balagueró, Plaza filmou um dos maiores sucessos do cinema de terror espanhol. Com quatro filmes, a saga culminou em 2014 com [REC]4: Apocalypse. Mas terá sido mesmo esse o seu último capítulo? “No outro dia estava a falar com o Jaume como gostaríamos [de continuar]. É muito difícil, mas gostaríamos de fazer mais um [REC]. Não sei se agora, ou daqui a uns anos.

 

O Realismo como marca pessoal

Para Plaza, aquilo que une [REC] e Verónica é a sensação de que se vê um mundo real e familiar no qual os elementos característicos do género do terror são inseridos. Se em [REC] o movimento da câmera é nítido e brutal, pelo ponto de vista da personagem, num efeito quase televisivo, Verónica é abertamente um filme de género com uma dose de grande realidade na forma de abordagem à época e à personagem de uma adolescente. 

Plaza assume esse realismo, como se fosse uma fase da sua carreira, mas diz que no futuro tudo pode mudar. “O Verónica é um filme muito realista, muito agarrada à realidade, também biográfico, como a minha infância com os meus irmãos em casa” 

 

O cinema de terror espanhol da atualidade

Vejo o cinema espanhol de terror como sempre. Com alguns filmes que conseguem se distinguir e exportar, mas não é um género especialmente valorizado em Espanha. Pontualmente há películas como o [Rec], O Orfanato, Verónica que transcendem o público do cinema de terror, mas são exceções. Não existe uma indústria de cinema e terror espanhol.

Fazer a transição para Hollywood, como Juan Antonio Bayona...

Plaza, atualmente com 45 anos, crê que já é demasiado “velho” para isso, disparando com um: “isso queres quando és mais jovem”. "Vivo em Madrid e lá vive-se muito bem”, afirma. 

A conversa com o realizador foi então interrompida por um visitante do MotelX que começou a dizer que Plaza devia vir trabalhar para Portugal, criticando depois o som da exibição do filme na sala. Plaza, em tom cordial, respondeu ao espectador que “gostaria muito de trabalhar em Portugal”, mas depois - já em discurso direto novamente connosco -lá disse que se sente muito cómodo em Madrid a trabalhar com os amigos: “ Superar isto [que já tenho] é muito difícil.”, conclui.

 

Quien a Hierro Mata, o seu novo filme 

Plaza terminou em junho as filmagens do seu novo projeto, Quien a Hierro Mata, um Thriller protagonizado por Luis Tosar, um dos maiores nomes atualmente do cinema espanhol em termos locais. Nesta história de narcotráfico e família, o cineasta aponta-o como um filme de vingança que marca a sua primeira vez a filmar algo cuja história, ideia e argumento não é sua: “Li o argumento e fiquei fascinado. Não podia dizer que não (...) É um filme sobre o rancor, sobre o ódio. Como odiar alguém pode fazer mal a ti mesmo.

Sobre trabalhar com Tosar - o inesquecível Malamadre de Cela 211 -, Plaza afirma que foi uma experiência incrível. “Se eu fosse filmar em Hollywood um filme, como dizias à bocado, certamente não iria ter a hipótese de trabalhar com a Meryl Streep. Mas em Espanha, posso trabalhar com o Luis Tosar, que é o melhor ator atualmente. Não sei como funcionam os seus filmes aqui em Portugal, mas em Espanha é extraordinário. Trabalhar com ele foi um sonho.

Filmado na Galiza e com um galego [Tosar] no protagonismo, o realizador reconhece que esta será uma obra muito enraizada na Galiza. “A minha mãe é Galega e trabalhamos muito localmente. Todos os atores carregam no sotaque, os espaços das filmagens são super reconhecíveis localmente”.  A ver nos cinemas em 2019.
 

O Streaming, um bom ou mau caminho?

Plaza compara o streaming [Netflix, Amazon, etc] a como quando se inventou a televisão. “Mais do que boas coisas ou más, são o que são. O mundo mudou, a forma de consumir cinema mudou. Eu continuo a ir ao cinema, mas tenho Netflix em casa, e a Amazon Prime. Há filmes, que por alguma razão que não podes ver no cinema, e agora podem ser vistas de outra forma. Creio que no geral é positivo pois são pontes entre os filmes e os espectadores. Por isso, penso que é algo positivo e que não há forma de voltarmos atrás. Os hábitos dos espectadores fazem com que estes consumam alguns filmes em casa e outros nas salas de cinema”.

E será que as salas de cinema vão sobreviver? Plaza acredita que sim, em especial no que toca ao cinema de terror e às comédias: “Há filmes que a experiência de ver em sala é muito diferente, especialmente no cinema de terror e nas comédias. Nas comédias, quando as pessoas estão a rir-se na sala, isso é contagiante. O terror é igual, com os gritos. São filmes que são experiências coletivas, de um ponto de vista do espetáculo.

Falando do caso específico de Verónica, que teve em muitos países a distribuição da Netflix, o realizador não tem dúvidas que o filme chegou a mais gente devido ao Streaming, dando o exemplo da Índia ou dos EUA: “De outra maneira (que não o streaming), nunca tanta gente veria o filme. Por isso, para nós isso foi muito positivo”, remata.

E fazer uma série de TV?

O cineasta valenciano admite que gostaria de filmar uma série, tal como fazer uma “peça de teatro”: “São formatos diferentes, e é verdade que com as plataformas digitais à muita demanda de conteúdos. Por tal, claro que não vou dizer que não tenho interesse”.

O Futuro

Plaza está no pós produção do seu novo Thriller [que falamos acima] e por isso não consegue ainda falar muito mais sobre o que podemos esperar dele depois. Porém, uma coisa é certa. “Será um filme de terror”.



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