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Lucrecia Martel: «Se nos prendemos no argumento, o resultado será pobre e as séries atravessam esse caminho»

A heroína independente, assim o Indielisboa a homenageia na sua 15ª edição. Lucrecia Martel é hoje tida como umas das grandes influências do novo cinema argentino e apesar de contar apenas com quatro longas-metragens, a sua linguagem cinematográfica tem tumultuado toda uma tendência de cinema.

Com Zama, até à data o seu filme mais ambicioso, Lucrecia Martel volta a envergar por protagonistas isolados existencialmente, e refugiados do seu próprio ambiente. Neste seu novo filme seguimos Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho), um oficial da Coroa Espanhola destacado num retiro colonialista do Paraguai, que aguarda por uma transferência. A espera será o seu martírio, transformando aos poucos um orgulhoso barão num ser cada vez mais cadente e dependente da misericórdia divina.

O C7nema falou com a realizadora sobre o seu mais recente projeto, a forma como o filmou, a sua colaboração com o diretor de fotografia, o português Rui Poças, e ainda a sua indignação para com o universo das séries de televisão.

 

Foram precisos 9 anos para voltar a fazer outra longa-metragem. O que a fez regressar?

O que acontece é que eu nunca faço planos. Não agendo qual filme irei trabalhar a seguir. Quando terminei a Mulher sem Cabeça, pensei que nunca mais queria fazer outro filme. Aliás, quando saio de um projeto tenho este tipo de pensamentos – não quero continuar a fazer filmes. Mas porventura o tempo passa e ganho uma certa vontade de trabalhar. E sempre aparece algo ou uma questão que desejopartilhar com o espectador. Mas no geral, nunca planeio a minha carreira nem o antevejo que natureza será o meu próximo projeto.

 

A Mulher sem Cabeça tem alguma congeneridade com este Zama. Enquanto que na Mulher a identidade da protagonista era gradualmente fragmentada, neste seu novo filme o mesmo acontece ao protagonista, só que invés do trauma é a ausência desse – a espera.

Sim, são filmes muito similares, aliás, narrativamente este Zama é idêntico à Mulher Sem Cabeça, porque somos de certa forma transportados para o interior da cabeça do protagonista.

 

Sim, a Lucrecia tem uma apetência em “perseguir” o invisível e Zama não está longe disso.

O dispositivo é o seguinte: todo o livro de Antonio Di Benedetto, o livro de Zama, é um monologo pessoal, e as palavras que são ditas pertencem a outras pessoas. Sem dize-las quotidianamente, elas funcionam como um pensamento. Assim sendo, tive que inventar cenas para preencher esse mesmo monologo, colocar Zama a apoderar-se desses pedaços de diálogos e torna-los seus por direito.

A minha intenção era que o espectador visse um filme onde é inexistente qualquer indicio de voz-off, mas de alguma maneira, este chegaria ao final em que percebesse que todas as vozes escutadas era na verdade a “invisível voz-off” do próprio Zama, o monologo ausente e igualmente presente.

 

Em relação ao Zama, a personagem, durante o casting o que procurava nesta sua encarnação?

A ideia era encontrar um ator capaz de expressar um conflito sem a utilização de qualquer tipo de fala e acabei por encontrar isso no Daniel Giménez Cacho.

 

Devo dizer que a Lucrecia é uma realizadora cruel para com a sua personagem. Entendemos Zama, mas não sentimos compaixão pelo mesmo, e mesmo assim ele é fortemente humilhado em todo o filme.

Não penso assim, mas compreendo que alguém possa sentir dessa maneira, até porque eu me identifico muito com Zama e fiquei sempre com a sensação que muitos pudessem identificar com ele.

Mas acredito que se esta personagem fosse uma mulher, muitos espectadores não encarariam como humilhação, porque é mais razoável este tipo de situações acontecer a uma.

 

Então ao conceber a personagem Zama, pensou nele como uma personagem feminina?

A mim não me serve de nada pensar se Zama é um homem ou uma mulher. É obvio que no Cinema somos “agarrados” aquilo que vemos e se o papel pertencesse a uma atriz iremos encarar como uma mulher.

Mas, como parte de escrita, para mim, foi importante trabalhar a personagem como algo indefinido. Tratá-la como algo monstruoso, uma criatura quase alienígena que nem ele próprio saberia se é homem ou mulher.

Agora, o livro de Zama está escrito de uma maneira pouco usual, focando e observando atentamente o desejo deste homem. É um tipo de livro raro na forma como descreve os homens. Benedetto não estava a pensar num barão, mas sim num ser humano. Um humano com um inerente conflito, o de ter razão ou não ter razão, assim como a sua frustração tão próxima do desejo.

Historicamente, este tipo de retrato na literatura atribui-se a uma mulher e não a um homem, essa tendência de triunfar e ao mesmo tempo cair.

 

Algo curioso e muito evidente em Zama, é que a Lucrécia filma os homens e as mulheres da mesma forma que filma os animais.

Sim, na realidade filmo os animais comos os homens. A minha ideia de monstro explica exatamente isso, o de não distinguir o que se está a filmar e sobretudo, estar segura do que se tem à frente.

Quando filmo, não estou a pensar que à frente da câmara tenho uma mulher com tais características ou um homem com iguais atributos, ou se é um Homem branco ou um indígena. Trato da mesma maneira, a lente da minha câmara não julga nem faz distinções.

 

Quanto ao seu trabalho com Rui Poças, o diretor de fotografia?

Este foi um filme que requereu muito esforço físico e o Rui, para além de ser um excelente diretor de fotografia, possui um espirito incrível. Isso notou-se porque em nenhuma situação ou problema que durgiu na rodagem, não transmitiu qualquer adversidade para a restante equipa. Em termos de trabalho, Rui foi genial.

 

Novos projetos?

Estou a escrever algo que penso que poderá vir a tornar-se num filme, mas como já havia dito no inicio, não tomo este tipo de decisões com tempo.

 

Para terminar, gostaria que falasse das suas ideias em relação às séries de televisão. É sabido que declarou ao jornal El País que “as séries são um retrocesso”. Não partilha da opinião generalizada que na televisão concentra um “Novo Cinema”?

Creio que está a ocupar todo o espaço da narrativa audiovisual, assim como muitos não vêem as séries em televisores, assistem no computador ou outras plataformas que em nada parecem com as televisões. O grande consumo das mesmas dá-se por aí, através dos computadores ou Smart Tvs, onde os espectadores consomem temporadas inteiras numa só noite ou num fim-de-semana sem sair da cama.

O que eu penso não é se são boas ou más. O meu problema é o facto delas se concentrarem exclusivamente no argumento, o que é para mim o arcaico da narrativa, essa subjugação pelo argumento.

Faz sentido a preocupação com um todo, a estética por exemplo, e não apenas que se governe perante as linhas argumentais. Restringir a isso é o mesmo que as discussões amorosas. Neste tipo de discussões, diz-se coisas terríveis, mas aí o sentido das palavras não tem importância e sim a forma. Como tal podemos tirar as conclusões que este casal ama-se, porque não se preocupam com o que se disse e sim, o como se disse. No caso de um casal que proclama palavras amorosas, mas sem a intenção nem a forma de demonstrar, sabemos à partida que eles não se amam.

Se nos prendemos no argumento, o resultado será pobre e as séries atravessam esse caminho. Todavia, as pessoas estão contentes que assim seja. O que mais me aflige é que não existem muitos críticos a falar profundamente disto.



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