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Marco Tullio Giordana: «Não faço filmes para movimentos.»

Em 2003, Marco Tullio Giordana conquistou a Certain Regard com a seu exaustivo retrato da juventude, possivelmente um dos mais completos comig-of-age antes de Boyhood de Linklater: A Melhor Juventude (La meglio gioventù). Anos seguiram após esse holofote e Tullio Giordana não baixou os braços, invocou a memória de um certo cinema convivente com o Fascismo em Sangue de Guerra (Sanguepazzo, 2008) e descortinou o abusos de poder e as suas vitimas silenciadas em Nome di Donna.

Este seu novo filme, apresentado nesta nova edição da Festa do Cinema Italiano, aborda-nos o drama de uma mulher, Nina (Cristiana Capotondi), vítima de assédio por parte do diretor do lar que trabalha. Humilhada, descredibilizada, esta mulher tudo faz para conseguir levar os culpados à justiça, mesmo que tal tarefa seja hercúlea perante o poder dos seus agressores.

O realizador falou com o C7nema sobre este projeto, as causas que filme e os movimentos que renega. Por fim, ainda houve tempo para esmiuçar sobre estado do Cinema Italiano.
 

É a primeira vez que vem a Portugal?

Não, já estive aqui há 5 anos atrás numa edição da Festa do Cinema Italiano. Para além disso, recordo que ainda estive aqui em 1995, anos antes de ir para Angola onde filmei um documentário sobre a infância negada.

Então, desde sempre teve apetite por filmar causas?

Creio que sim, talvez esse fascínio pelas causa tenho devido à minha formação universitária. Formei-me como antropólogo.

E como surgiu a causa / ideia de Nome di Donna?

Foi-me proposto pelo produtor e pela argumentista do filme [Cristiana Mainardi] e achei interessante, acima de tudo pela urgência de explorar tal temática. Mas atenção, a ideia deste projeto surgiu bem antes dos escândalos dos EUA.

Mesmo sabendo isso, o seu filme neste momento enquadra-se no movimento #metoo?

O meu cinema não é encaixado em nenhum movimento, só me interessa contar uma história e que as personagens tenham a sua autonomia. Não faço filmes para movimentos.

Mas tem conhecimento dos escândalos sexuais, não refiro aos EUA, mas sim o escândalo das atrizes italianas?

O tema do filme não são os escândalos, mas sim a moldura mais ampla do abuso de poder que utiliza o assédio sexual como um elemento de pressão, uma arma para as suas respetivas causas. Quanto à situação, o facto de retratar mulheres abusadas por homens, não estou com isso insinuar que as mulheres são sempre as vitimas deste tipo abuso, mas são a maioria, tudo porque são os homens que encontram-se nesses cargos de poder.

Então o Poder corrompe os homens.

Exatamente, o poder chama responsabilidade, da mesma forma que chama o favoritismo, o privilégio, a influência e esses fatores tendem em corromper a alma desses homens.

Nome di Donna

De certa forma tem receio que a palavra “assédio sexual” seja sobretudo vista como algo do universo da industria cinematográfica?

Sim, em relação ao Cinema é que as abusadas dentro desse universo, são pessoas conhecidas que tem um certo poder e as suas vozes são ouvidas, enquanto que as personagens de Nome di Donna são mulheres invisíveis com vozes sem qualquer força. Então é interessante darmos visibilidade a essas ditas mulheres invisíveis que sofrem desses mesmos abusos.

Desviando-me de Nome di Donna, de que maneira a sua carreira mudou com o sucesso de A Melhor Juventude?

Aparentemente nada mudou, até porque continuo a fazer filmes completamente diversos, não repliquei nem capitalizai o sucesso da fórmula da A Melhor Juventude e tentei sempre depois disso manter-me fiel a mim mesmo. Ou seja, procurei e executei ideias novas, tinha propostas que queria sobretudo concretizei, obviamente que por vezes se perde durante esses riscos, mas estava mais interessado em seguir caminhos diferentes.

Como vê a industria italiana nos dias de hoje?

É uma indústria, estruturalmente, em crise permanente e permanentemente fértil com novos talentos, novos autores, atores. Trata-se de uma vida difícil, a do Cinema, visto que existe a televisão que parece monopolizar a visibilidade e fatores económicos.

Mas para esses novos autores existe um enorme peso … o peso do legado.

Este peso do passado, o adeus dos mestres do cinema italiano, pesou mais na geração à qual pertenço do que propriamente a estes novos nomes. Penso que o motivo está porque estes novos realizadores não estiveram em contacto, não diretamente, com esse “peso”, ao contrário da minha vaga que surgiu sob o signo de herança destes mesmos mestres.

A Melhor Juventude

Há pouco falava da televisão. Acredita que a televisão teve algum envolvimento nessa crise cinematográfica?

Em Itália, para além do cinema nacional, tínhamos uma distribuição rica de filmes de outras nacionalidades, como filmes alemães, franceses, etc. Mas isso também entrou em crise, e então a televisão, de forma a conseguir conquistar esse “lugar vago”, começou a produzir os seus próprios produtos nacionais. Contudo, restringiu-os ao local. O cinema italiano de forma a conseguir alcançar essa “visibilidade” utiliza a mesma tática. Isso, de certa maneira, bloqueou a imigração desses realizadores para fora do seu país. Se formos a ver o cinema francês, por exemplo, apesar de serem produções nacionais com direção prioritária ao público francês, eles possuem uma linguagem universal e com isso abrangem um público mais vasto e mundial.  

Mas o mercado de streaming tem sido uma forma de sobrevivência de muita da produção italiana?

Exato. Em Itália o cinema consume-se minimamente em sala. Isto porque grande parte das nossas salas são antiquadas, demasiado grandes e demasiado desconfortáveis. Do outro lado, temos uma tecnologia em expansão, que nos dá ferramentas mais apreciáveis para o consumo do Cinema. Quando era novo via dois a três filmes, e agora com estas novas tecnologias consigo ver quatro, cinco filmes, entre os quais raridades ou verdadeiros clássicos que fora do streaming eram quase impossíveis ver. O lado negativo disto tudo, é que isto é exatamente o mesmo que colocar uma criança numa loja de doces, o risco que sem a educação ou sem a devida informação, pode-se comer qualquer coisa sem perceção ou de não saber o que escolher.

Tens novos projetos?

Sim, ultimamente tenho me dividido entre o cinema, o teatro e obra lírica.

Prefere cinema ou teatro?

São duas linguagens completamente diversas. [risos] Quando faço um filme chamam-lhe de “teatro filmado”. Quando faço teatro é “cinema encenado”. [risos]



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