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“O cinema espanhol está sempre em crise”: entrevista com programador do Festival de Sevilha

Ver una Mujer (Mónica Rovira, 2017)

 

A quantas anda a produção cinematográfica do país vizinho? O que é feito do cinema espanhol? Enquanto decorre o Festival de Sevilha (encerra no dia 11), o C7nema dirigiu estas perguntas a um dos seus programadores, Luís E. Pares.

Ele coloca uma série de questões pertinentes sobre o mercado cinematográfico do seu país que podem ser verificados um pouco por todo o lado: os apoios para projetos ‘mainstream’ que tornam a oferta de cinema homogénea, o descaso com o circuito exibidor, a asfixia dos projetos alternativos.

Conforme explica na conversa que segue, em Espanha só existem dois tipos de cinema: o “mainstream”, feito com muito dinheiro e baseado em copiar-se uns aos outros, e outro muito pequeno, com orçamentos minúsculos, que tenta resistir. Por isso na seção correspondente no Festival eles fazem as honras da seção “Resistência” – justamente uma das programadas por Pares.

Em primeiro lugar, podemos falar sobre a seção Resistência. O nome é certamente muito revelador, mas pode explicar o conceito, a ideia por trás dela?

Em Espanha só existem dois tipos de cinema: um industrial, centralizador, que é feito com muito dinheiro, e depois os filmes pequenos. Mas estes são tão pequenos que apenas lutam por viver, por resistir. O nome vem daí: ´já que não tenho dinheiro para fazer o que quero fazer, uso o que tenho para sobreviver’.

Mas não é só uma questão económica mas também estética, de se produzir uma obra que tenha uma voz própria. O ‘mainstream’ espanhol é marcado por um cinema muito igual, homogéneo; a pluralidade, a diferença, a diversidade estão nos pequenos.

Temos muitos filmes num tom confessional e muito realista, o que no cinema espanhol é muito raro, não se fala de si próprio. Por exemplo, temos três trabalhos de realizadoras a falar de si mesmas na primeira pessoa. É um cinema que quer fazer mais perguntas do que dar respostas, não são filmes de teses, mas de hipóteses.

 

Las Cosas (Carlos Rivero, 2017)

 

A comédia foi a forma que muitos países encontraram para tornar o seu cinema comercial competitivo. Aqui também é assim?

Não só comédias, mas dramas também. Essencialmente há sempre um filme no ano que serve de modelo: se ele faz sucesso, surgem oito imitações a seguir. Aconteceu, por exemplo, com “Namoro à Espanhola”. Se dá certo um filme com uma mulher solteira, que tem um filho, ‘blá blá blá’, fazem oito filmes iguais. Acabam repetindo tanto a fórmula que elas se esgotam. Por isso o cinema espanhol está sempre em crise e a reinventar-se. Nos trabalhos que estão no Festival de Sevilha isso não existe, os cineastas não têm que seguir modelos, ‘posso falar de mim, da minha mãe, do que eu bem entender’.

Mas a Espanha tem pelo menos um caso que mistura cinema pessoal com sucesso de público – o de Pedro Almodóvar.

Pedro Almodóvar é único. Ele não precisa de um modelo porque é o seu próprio modelo. Não há figuras assim no cinema espanhol, ele é um caso porque é um génio. É a única pessoa que com seu nome vende um projeto. Nem precisa de um argumento (risos).

Agora o restante do cinema é financiado pelos canais de televisão privadas que, como dizemos cá, ‘no se andam com tonterías’. Estudam muito, fazem análises económicas etc. para decidirem se vão investir no projeto. Por isso não se encontram autores nesses filmes. Um autor em Espanha não pode fazer filmes por mais de 30 mil euros, há esta fronteira económica. Esse é o dilema do cinema espanhol.

 Como é a questão do apoio estatal em Espanha?

A lei mudou há alguns anos e é um problema. Existem dois caminhos distintos, ou se apoia a criação ou se promove uma indústria e é essa ideia que tem prevalecido: se alguém demonstrar num projeto que ele tem boas probabilidades de fazer dinheiro, recebe mais facilmente o apoio. É o mundo da arte que banca o cinema pequeno. Não há linha do meio, há um cinema muito caro e outro muito pequeno. O que se passa com o do meio? Os filmes de 200, 300 mil euros, não existem. Assim os subsídios promovem alguns e excluem todo o resto.

 

La Isla (Miguel Rodríguez, 2017)

 

Há um processo que decorre um pouco por todo o lado que é a dificuldade em distribuir os projetos alternativos.

O problema em Espanha é o monopólio da produção sobre a distribuição em termos de apoio. Os apoios e subvenções vêm para os filmes serem feitos mas não para serem distribuídos. As salas vivem dos espectadores e não recebem nenhum tipo de ajuda. E nos esquecemos que, sem as salas, não há cinema.

Ocorre que isso é um negócio e o único que dá dinheiro é o cinema americano direcionado aos adolescentes – com todo o ‘marketing’ aí envolvido. Se houvesse algum tipo de ajuda ao circuito exibidor haveria mais cinema espanhol nas salas e este encontraria o seu público. Hoje em dia só em festivais como este, os de Gijón, de Barcelona e outros, é que podem mostrar os seus filmes.

 



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