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Étienne Comar: «há uma censura na imprensa de como um filme deve ser»

Étienne Comar é um nome há muito ligado ao argumento e produção de alguns dos filmes franceses mais interessantes dos últimos anos, como Timbuktu (produtor), Dos Homens e dos Deuses (argumento e produção), Meu Rei (argumento) e Gauguin - Voyage de Tahiti (argumento).

Com Melodias de Django, Comar acrescenta à construção do guião e à produção a sua assinatura na realização. No filme seguimos a história de Django Reinhart, o famoso guitarrista, compositor e considerado o pai do Jazz na Europa, que sentiu na pele a pressão que foi fazer música em Paris, na altura ocupada pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943.

Por ocasião da estreia do filme em Portugal e com a sua presença na Festa do Cinema Francês, o c7nema esteve à conversa com este «artesão» que crê que só sendo argumentista, produtor e realizador pode ter a liberdade que precisa para explanar o seu Cinema.


Porque escolheu o Django Reinhardt como o foco da sua primeira obra na realização?

Já faz muito tempo que eu queria fazer o retrato de um músico no Cinema, porque gosto muito da música e dos músicos. Eu mesmo cantei num grupo rock, e sempre amei tudo em torno das bandas musicais. E o meu pai era um grande admirador de Jazz e do Django Reinhardt. Eu ouvia muito a sua música quando era jovem. Um dia, ele disse-me: "sabes, o Django durante a Guerra, quando ouvimos a sua música fazia-nos esquecer o resto. Podíamos dançar, etc".Como eu queria fazer um retrato de um artista num período complicado da história, até para questionar o que é ser um artista durante esse período em que o mundo está mal - Que podem fazer os artistas? O que não podem fazer? - [O Django] era perfeito. Não queria contar toda a sua vida, ou outra parte da sua história. Foi esse período da vida que me interessou.

Como gosto da sua música, a sua figura quase rock n roll, e sim, eu adoro o rock n roll, e o Django é uma personagem um pouco "roqueira", antes ainda do estilo musical explodir. Estávamos nos anos 40 e ele foi o primeiro "roqueiro". Era caprichoso, fazia caretas, um pouco como o Pete Doherty (risos)... adorei toda essa trajetória da personagem que não tem armas para fazer a Guerra. A única arma que tinha era a guitarra e a música.

Gostava também do facto de ser um artista que não tomava posição... mesmo que pudesse dar a entender aos outros que era um cobarde ou um aproveitador. Gosto da ideia dele ser apenas obcecado pela sua música e ser apenas a música que o guia pela vida... Por isso, usei-o para um primeiro filme [na realização], e encarei tudo como um desafio...

E como trabalhou na investigação dos elementos históricos?

Na verdade não existe muita coisa sobre o Django, mas há muitos testemunhos. O que tínhamos dele não estava escrito; não tínhamos cartas dele, por exemplo. O que tínhamos era o que muitos disseram dele depois da Guerra. No ano em que a história se passa, nós sabemos que ele tocou para os alemães, sabemos que foi uma grande estrela em França, na Paris ocupada, que partiu com a mulher, mas não sabemos muito bem os detalhes e isso foi interessante para deixar espaço para a ficção. Não estarmos obrigados e agarrados a factos, mas ao mesmo tempo sermos respeitosos e sinceros.

Falei com a sua família, que me contaram algumas coisas. O outro coargumentista [Alexis Salatko] escreveu uma biografia sobre o Django um pouco maior, ele tinha os elementos e pegamos neles... depois imaginei como seriam as cenas, mas não sei se as coisas aconteceram tal e qual como eu imaginei. Por exemplo, o alemão que o vai ver e quer levar a Berlim, isso é tudo verdade, mas o que acontece depois, não sei. É isso que adoro, não ser obrigado a trabalhar com a precisão da realidade. Eu estava muito inquieto em saber o que pensavam do filme todas as pessoas que o conheceram, a sua família, mas todos acharam tudo bastante correto.

Quando trabalhamos com ficção, mesmo que inventemos pequenas coisas, existem emoções e sinceridade. E isso funcionou.

Por exemplo, nós sabemos que ele perdeu a partitura da música do final, mas não tínhamos nada sobre isso, tínhamos apenas uns registos de algumas notas que depois trabalhamos com o nosso compositor, o Warren Ellis. É bom porque tudo se passa no imaginário dele, ou seja, não está colado à sua realidade.


 Étienne Comar e Reda Ketab nas filmagens de Django

Quando escreveu o argumento já tinha o Reda Kateb na cabeça para o papel?

Ainda não. Pensei nele, mas ele não tinha ainda aceitado. Escrevi três, quatro versões do guião, antes de lho mostrar, evitando assim focar-me apenas nele. Tinha vários atores na cabeça para fazer esse papel, mas nunca procurei as semelhanças físicas, isto apesar de ele se parecer com o Django. Mas como não havia muitas fotografias, filmes e coisas sobre o Django, mas sim músicas, pudemos não nos preocupar em trabalhar nas parecenças a 100%.

O Reda tem uma grande habilidade de entrar numa personagem, como se fosse algo natural. É isso que adoro nele, ele não é um ator de estúdio. Isso era ótimo para o papel. O Jean Cocteau dizia que o Django era um «Doux Fauve» (Uma fera gentil), é um paradoxo, mas ele era assim.

E o restante elenco? A Cécile de France?

Foram todos escolhidos depois do argumento estar escrito.

Mas houve um casting ou escolheu de imediato?

Eu pensei na Cécile, mas quis ver como ela e o Reda atuavam juntos. Para a mim era importante ver quando eles se olham, sentir que fossem já "amantes". Quando nos juntamos fiquei com a impressão que não se conheciam, mas quando se encontraram já eram cúmplices. Funcionou bem, porque eu precisava de uma atriz que viesse um pouco de outro Universo que o dos ciganos, que fosse como da alta sociedade francesa, aristocrata. Até porque o Django esteve sempre nos dois lados. Ele estava com a sua família cigana mas ao mesmo tempo os notáveis, os artistas de Paris, antes da Guerra, adoravam-no.

Ele era capaz de ir às grandes mansões luxuosas e burguesas parisienses e na mesma noite regressar à sua caravana e ver a família. E ela [Cécile] exprime bem esse papel, em oposição à esposa do Django, que é muito diferente. Esse contraste é ótimo.

Já que falamos nas mulheres, é engraçado que todas elas são bastante fortes.

É um homem cercado por mulheres. Frequentemente nos grandes artistas, as mulheres estão lá. Nós vemos isso no filme...


Django

Sim, na mãe, na esposa, na amante...

Sim, ele não decide nada. É sempre a mãe ou a esposa que decidem por ele, ou então a sua amante. Nos ciganos, existe sempre o sentimento "macho", mas são as mulheres que decidem. É o matriarcado. E isso na sociedade mediterrânea é flagrante. A sua mulher decide quase tudo, a mãe negoceia o caché, a amante diz-lhe onde ele deve ir... eu gosto muito disso, porque ele fraqueja [com elas ao pé], mas ao mesmo tempo tenta demonstrar que é o Homem.

Você é produtor, argumentista e agora diretor. Como é ser isso tudo num filme?

Na verdade, é tudo o mesmo trabalho, mas em diferentes faces.

Tem mais liberdade?

É algo para mim natural. É um trio, argumentista, produtor, realizador, serão três pessoas diferentes? Bem, é preciso unir isso tudo, mas no final as contradições permanecem.

Para mim é a única maneira de ter liberdade total para fazer um projeto. Tenho tido a sorte de fazer filmes exigentes ... e posso ser exigente nos filmes que quero fazer. Juntar esses elementos permite-me trabalhar de forma artesanal, ser um artesão de tudo. Eu sei que se escrevi isto, sei o que vou encontrar mais tarde. Se realizar isto, sei o trabalho que me espera... aquilo que preciso.

Para mim é uma sorte [trabalhar nos três campos no mesmo filme] e espero que possa continuar a acontecer.

Este ano coescreveu ainda um filme sobre Gauguin, outro "biopic"... Este é o ano das cinebiografias?

(risos) Eu não sou um especialista de biopics. Eles propuseram-me um filme sobre o Gauguin, e eu adoro o Gauguin, e adorei esse período da vida dele, do final dos seus dias. Não penso em nenhum filme, mas já li muitas coisas sobre ele. E ainda antes de avançarem com esse filme, propuseram-me fazer um sobre ele. Eu respondi que sim, mas dadas as circunstâncias [filmar Django] não queria fazer outra cinebiografia... Eles queriam fazê-lo antes do Django, mas a produção atrasou-se.

É interessante inspirarmo-nos numa personagem real. É muito interessante. Temos de encontrar a personagem longe de ti, porque é um filme histórico, mas ela está também perto de ti. É todo um jogo de distâncias; aproximar o que está longe, e afastar o que está perto... É como se entrássemos na sua cabeça. Gosto muito de fazer filmes sobre algo real, como [os argumentos que escrevi] do Dos Homens e dos Deuses, Haute Cuisine - Os Sabores do Palácio]. São coisas que me tocam.

Vincent Cassel em Gauguin

Mas com o Gauguin há uma polémica...

Pois, eu sei. O argumento que escrevi tinha muito mais coisas nefastas sobre o Gauguin. Tinha a parte em que ele esteve com a doença venérea (...) a escolha (de Edouard Deluc) não foi mentir. Ele não mentiu. Ele decidiu foi basear-se no diário da viagem do Gauguin, o Noa Noa.

Quando lemos esse caderno da viagem, que foi o próprio Gauguin que escreveu, vemos que está escrito de uma forma muito sentimental. Porque ele viu a história como sentimental (...) quando olhamos para a realidade do guião anterior, é verdade que era mais duro, e eu tomo o partido de mostrar uma história mais dura. Mas ele preferiu essa ideia [mais romantizada] (...) Vamos lá ver, naquela época - mesmo que seja uma coisa louca de se dizer nos dias de hoje - o conceito de jovem era muito diferente.

No Taiti, as mulheres casavam-se aos 13 anos, 14 anos. Não é como se ele tivesse raptado uma jovem, violado. Bem, há sempre um julgamento nas palavras. No argumento que escrevi tudo era muito mais ambíguo, porque eu adoro a ambiguidade. O Edouard preferiu outra linha, algo mais atraente, e a verdade é que se pegarmos no Noa Noa vemos que é muito romântico como história. Ele (Gauguin) escreveu assim porque desejava uma história romântica, ele queria isso, até porque a vida com a sua esposa já não existia. Ele sonhava em se tornar romântico (...) Claro que os jornalistas lançaram a controvérsia, 'ele mentiu', etc... O Edouard não mentiu. Ele fez uma ficção, não foi um documentário.

Acha, como o Mel Brooks disse recentemente, que vivemos tempos demasiado politicamente corretos?

Acho que atualmente há uma censura na imprensa de como um filme deve ser. O Cinema sempre misturou a ficção e a realidade, mesmo nas histórias verdadeiras. O ponto de vista do realizador não é tão aceite como um autor na Literatura. Por exemplo, na Literatura não há problema de alguém inventar. Veja a Joyce Carol Oates, que escreveu o Blonde (2000). É totalmente inventado, mas ninguém diz nada.

No Cinema, que vive das imagens, queixam-se, mas o princípio é o mesmo. Por isso acho que essa polémica... bem, é bom colocar a questão, mas criticar lá de cima..."ah, é mau porque...". Sim, há uma polémica, mas não devemos criticar o filme como obra de Cinema. Podemos fazer isso pela mise en scène, ou outras coisas.

Aqui o que temos de ver é que ele [Gauguin] escreveu um diário de bordo que se entranha perfeitamente na tonalidade do filme.

Uma coisa que disse é que adora a ambiguidade e isso faz-me lembrar o Meu Rei, que também coescreveu e que para mim é dos melhores filmes franceses que vi nos últimos tempos...

A sério?

Sim, sem dúvida.

Tenho de transmitir isso à Maïwenn (risos)


Meu Rei

(risos) Sim, eu adoro a Maïwenn, mas o que queria perguntar é se transporta para todos os argumentos que escreve essa ambiguidade?

A vida é ambígua. Você hoje está simpático e amanhã pode não estar. Eu posso estar bem hoje e amanhã terrível, um verdadeiro sacana. A ambiguidade das pessoas é algo que me fascina. Num argumento, quando alguém faz qualquer coisa, que ele diz que pensa, é um caminho, mas quando ele faz qualquer coisa, diz outra coisa e pensa uma terceira coisa, é isso que me atrai. Isso é que me interessa....

Para o Django foi o que tentei fazer. Mostro que ele ganha com o sistema, mas ao mesmo tempo quer ser livre. Ele ama a sua esposa e ao mesmo tempo a sua amante. E isso é possível!... Não faz dele um sacana...

E tem um novo projeto?

Sim, dois novos argumentos prontos.

Como realizador?

Sim

Pode falar deles?

Ainda é muito cedo, mas posso dizer que são duas histórias contemporâneas.

Li algures que vai produzir apenas os filmes que realiza...

Comecei na realização demasiado tarde, por isso vou concentrar-me nos meus projetos. Se puder ajudar outros projetos a concretizarem-se, assim o farei. Eu coproduzi um filme que não realizei, que se foca nas mulheres que combatem o Estado Islâmico no Curdistão, mas os projetos que escrevo agora vão ser os que vou realizar.

E trabalhar para a Netflix, para as novas plataformas, pondera?

Ainda não, toda a gente agora quer trabalhar para o Netflix ou Amazon.

E acha que estas plataformas podem matar o Cinema, como alguns dizem?

Não, não, não. Diziam o mesmo sobre a televisão. Não matou o Cinema. O que essas plataformas obrigam é a pensar o Cinema de forma diferente.



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