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Fernando González Molina:«O Guardião Invisível é um filme de mulheres fortes»

Fernando González Molina é um dos cineastas de maior sucesso nas bilheteiras espanholas. Com seis longas metragens, o realizador já conseguiu reunir mais de 50 milhões de euros no box-office espanhol, destacando-se os números de Tres metros sobre el cielo (2010), Tengo ganas de ti (2012) e Palmeiras na Neve (2014).

Em O Guardião Invisível, o primeiro filme adaptado da trilogia assinada por Dolores Redondo [editada em Portugal], somos apresentados a Amaia, uma jovem policia que regressa à região onde nasceu para desvendar quem está por trás de alguns assassinatos violentos e que indiciam que estamos perante o um serial killer. No âmbito da Cine Fiesta, o c7nema teve a oportunidade de trocar algumas palavras com o cineasta, o qual desvendou-nos que no próximo ano tenciona filmar conjuntamente as adaptações dos dois livros em falta da trilogia. Aqui ficam as suas palavras.

Como se envolveu neste projeto? Como começou tudo?

Começou quando ainda estava a trabalhar em Palmeiras na Neve, o meu filme anterior que teve estreia em vários sítios do mundo. Estava no aeroporto e comprei um livro, O Guardião Invisível. Era um livro de uma mulher, uma policia que volta a sua casa numa zona rural depois de bastante tempo ausente para investigar uns crimes no meio das montanhas. Esse local é muito próximo do sítio onde nasceu. Interessou-me muito a história, entusiasmou-me muito. Depois falei com os meus produtores que tinham feito os meus quatro filmes anteriores e disse-lhes para levar esta obra ao cinema. Na verdade, são três livros, é uma trilogia. Eu disse-lhes, 'porque não fazemos uma trilogia de cinema negro no vale de Baztán, no norte de Navarra. E foi assim.

E já escreveram o guião dos dois outros filmes dessa trilogia, ou seja, o Legado nos Ossos e o Oferenda à Tempestade?

Sim, já escrevemos as primeiras versões dos guiões. Brevemente vou a Los Angeles, que é onde o guionista mora, estar um mês a trabalhar nos argumentos para no próximo ano filmarmos os dois filmes conjuntamente.

Conjuntamente?

Sim, um pouco como Peter Jackson [ e o Senhor dos Anéis] (risos).

Nota-se que gostas da literatura dos policiais escandinavos, como os livros de Stieg Larsson ou Jo Nesbø [e Camilla Läckberg, etc], bem como dos thrillers americanos...

(risos) Sim, claro.

Mas sempre com a região de Navarra, aquelas florestas, o vale, como uma forma de enraizar o projeto na região. A própria região e as paisagens são uma personagem do filme e nunca saem de cena...

Certíssimo, a ideia era fazer uma fita com dois protagonistas. Amaia [Marta Etura], que é a policia, e o vale de Baztán, um espaço muito conhecido em Navarra porque dizem que é um local mágico, que tem criaturas e uma mitologia muito própria. É um vale que esteve durante séculos isolado do resto do território. Como viviam isolados, criou-se muita mitologia, ligada à inquisição e também à caça às bruxas. Disse-se que é um sitio especial, que muitas bruxas morreram lá. É um local com uma energia muito especial, e isso era muito importante para o vale agir como protagonista.

Uma das coisas que gostaste é o facto da protagonista ser uma mulher, e não um homem como normalmente nos thrillers sucede.

Sim, eu tinha visto cinco filmes antes e todos elas tinham um homem a encabeçar a história. O facto de ser uma mulher a protagonista encantou-me.

E foste tu que escolheste a Marta Etura para esse papel?

Sim. Bem, fizemos um casting com 30 ou 40 atrizes bastante conhecidas em Espanha e a Marta foi a primeira proposta da diretora de casting. Mas nós realizadores somos muito inseguros, por isso quis ver todas. E vimos todas, mas acabamos por escolher a nossa primeira opção, que era a Marta.

A Marta é do Pais Basco, que é muito próximo de Navarra, e entendia muito bem a psicologia da personagem e das irmãs. A Marta dizia-me que percebia muito bem como era esta família, porque a dela também é da região. Não foi necessário explicar-lhe como é o matriarcado Basco, uma sociedade onde as mulheres têm o poder. É o que mostramos, este é um filme de mulheres fortes que estão sempre um passo à frente, enquanto os homens estão sempre um pouco atrás.

Uma das coisas que me agradou foi que apesar de ser um thriller, há claros códigos do cinema de terror quando mostras as cenas do passado entre a personagem da Marta e da sua mãe... Gostas disso, ou seja, fazer um filme de terror?

Para mim o filme esteve sempre entre vários géneros. É um thriller, como disseste 'um pouco escandinavo', mas também é um drama. Tem uma parte muito dramática nas personagens e tem, como também dizes, uma parte de filme de terror. Toda aquela parte da infância da personagem da Marta é contada como se fosse um filme de terror. E o filme também tem elementos mágicos, um pouco sobrenaturais. A obra literária já era assim, embora nela a componente mágica, da criatura, fosse bem maior. Eu achava que essa componente funcionava muito bem na literatura, mas no cinema mostrar demasiado era um pouco perigoso.

Até hoje, os filmes que realizaste fizeram cerca de 50 milhões de euros nas bilheteiras. Que pensas disso...és um mágico do box-office?

(risos) Estou contente com isso, mas penso que temos de fazer os filmes que queremos. Por exemplo, O Guardião Invisível é o meu filme preferido [dos que fiz] e foi o que fez menos dinheiro nas bilheteiras em Espanha. É verdade que os filmes que anteriormente fiz eram mais juvenis, mais abrangentes [para todo o público]. O Guardião Invisível é mais negro, mais duro. Estou contente porque se as pessoas vão ver os meus filmes, isso significa que posso fazer mais filmes. Mas não vivo obcecado com isso, todo o tempo a pensar em números. Prefiro fazer os filmes que me apetece fazer.

Disseste que ias filmar no próximo ano os dois outros filmes da trilogia de Baztán.

Sim, sim...

Então quando vais filmar o La Piedra Obscura, que está na lista dos teus projetos com luz verde?

La Piedra Obscura é um projeto que já temos o guião mas provavelmente vai ser só filmado depois desses dois filmes. É uma adaptação de uma peça de teatro que em Espanha ganhou muitos prémios e é sobre Federico García Lorca...

Li numa entrevista tua que não gostavas de ler críticas aos teus filmes...

Não, não gosto.

Porque não?

Bem, primeiro porque o meu cinema é catalogado como comercial, e eu não sei o que é isso. Eu faço os filmes que gosto, não penso se é comercial ou não. Só faço o que gosto de ver. E em Espanha atacaram-me muito, por isso prefiro não sofrer. Cada um tem de fazer o seu trabalho, eu prefiro fazer o meu e tentar não ler para não sofrer muito. Ás vezes não resisto e leio...

E tens um documentário sobre o Pride de Madrid também para lançar, certo? Está finalizado?

Acabamos de montar o filme na semana passada e estreará em janeiro ou fevereiro. É um documentario feito com o Ayuntamiento de Madrid e com o jornal El Pais sobre seis pessoas, de diferentes locais do mundo, como Uganda e Rússia, que visitam a WorldPride de Madrid. Conhecemos as suas viagens e as suas histórias. São personagens com histórias duras sobre a sua orientação sexual...

Tens o sonho, ou antes, a ambição de ir para Hollywood como Bayona? Existe algo que gostarias de fazer mas não conseguirias em Espanha?

Bem, quando estreei o Tres metros sobre el cielo e o Tengo ganas de ti contactaram-me para fazer esse género de filmes [juvenis], mas não queria seguir nessa direção. Queria fazer outras coisas. Fiquei e fiz o Palmeiras na Neve que é um filme histórico. Se me derem algo para fazer que eu goste, sim. De outra maneira não...

Há algum cineasta que te influencie como realizador?

Sim, Spielberg. É o meu preferido, sou um grande fã desde pequeno.



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