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«Elon não Acredita na Morte»: uma entrevista com Ricardo Alves Jr.

Um dos quatro exemplares do cinema brasileiro exibidos no IndieLisboa (Arábia, António Um Dois Três e A Cidade do Futuro foram os outros), Elon não Acredita na Morte talvez seja o que mais se afaste do drama “docuficção”. Ainda assim, tampouco aproxima-se do cinema de género – trazendo antes uma espécie de falso suspense para contar a história de um homem à procura da mulher desaparecida.

Os secundários são realistas, os cenários do quotidiano – ganhando ênfase numa direção de arte pensada para mergulhar a desintegração do protagonista num mundo de escadas e deslocações labirínticas.

O C7nema conversou com o realizador estreante, Ricardo Alves Jr., que esteve pela quarta vez em Portugal e cujo próximo passo é uma curta-metragem, Tráficos, em parceria com João Salaviza. Já a sua próxima longa, A Professora de Francês, ele define como um filme de “terror social” sobre o pensamento obscurantista veiculado pelas seitas evangélicas…

Em termos de argumento você trabalhou muito numa noção de falso suspense. Parece que a todo o momento você lança uma hipótese para depois desconstruir a expectativa da audiência…

O Elon é um personagem que busca alguém e que, de alguma maneira, vai colhendo pistas aqui e ali. O filme é construído sobre uma ‘narrativa tensional’ para gerar a sensação de agonia, desencadeada por um enredo misterioso que contrapõe à história nítida e organizada, gerando sentimento de incerteza ou ansiedade no espectador. 

Penso que Elon é como se fosse um encontro entre Edgar Allan Poe e Franz Kafka.  Poe na literatura é a fonte para a narrativa que envolve o mistério e o policial, enquanto Kafka está que tange aos personagens em luta com a lei ou as instituições. 

A todo instante o espectador se pergunta o que realmente está acontecendo diante dos seus olhos, se o que vive Elon é verdade ou uma alucinação. Se o personagem é o que se revela ou algo está por trás do que está acontecendo e não é visível aos seus olhos. É um filme cujo final, acredito, tem varias interpretações.

Isto conjuga-se com o carácter minimalista geral do filme. Tudo é ministrado a conta-gotas…

Exato, estamos frente a um filme minimalista, onde pequenas pistas, tanto de roteiro quanto de Mise-en-scène, estão milimetricamente pensadas. Venho trabalhando com essa estética já nos meus curtas anteriores. Com o minimalismo vislumbro a possibilidade de narrar acontecimentos da vida intensificados através do espaço, da luz, dos corpos dos atores e do som. Dessa maneira, a dramaturgia de Elon não Acredita na Morte não está no que se conta mas como se conta.

Não se preocupou em criar um personagem principal particularmente simpático. No decorrer do filme o espectador vai descobrindo cada vez mais razões para não gostar dele. Ao mesmo tempo a empatia vem do reconhecimento da sua fragilidade que, no final, parece alucinação.

Elon está em luta para não perder sua sanidade. Acompanhamos por 75 minutos sua experiência, que é a experiência do espectador. A identificação com espectador não é pela aspecto ético do personagem e sim pela experiência que ele vive.

Elon é um Orfeu contemporâneo, perdido, atormentado, sem saber o que está de fato acontecendo - ou sem poder acreditar no que está acontecendo; aos poucos vai se desintegrando. De alguma maneira, o personagem dialoga com o mito grego que desce ao inferno na busca pelo amor perdido, e, por consequência, busca a si mesmo

Como foi a escolha dos cenários? Esse caráter labiríntico do filme deve-se muito a este cuidado…

Os espaços encontrados estão no centro da cidade de Belo Horizonte em Minas Gerais. São espaços que estão perto de onde vivo. Ao escrever o argumento já tinha esses prédios como possíveis locações, escrevemos pensando nesses lugares. Isso é muito importante, pois a cidade-labiríntica é um dos personagens do filme, corredores Kafkianos onde Elon se perde não só fisicamente como mentalmente.

 

O filme tem feito um bom circuito de festivais, que incluiu Rotterdão. Como tem sido essa circulação?

Elon estreou no Brasil no Festival de Cinema Brasileiro de Brasilia, onde lá ganhou o prêmio de melhor ator para Romulo Braga. Seguimos para o primeiro Festival de Cinema de Macau, onde ganhamos o prêmio de Contribuição Artística. O filme já foi exibido no Ficuman no México, Festival Ibero-americano de Cartagena das Índias, Bafici em Buenos Aires... Só para citar alguns. Tem tido uma boa repercussão, sempre suscitando bons debates. Semana passada o filme estreou em circuito comercial no Brasil em 34 salas, um grande feito, que só pode ser realizado pelo empenho da distribuidora Vitrine Filmes. 

É a sua primeira vez em Portugal?

Já é a quarta vez em Portugal, exibi meu curta Convite Para Jantar com o Camarada Stalin aqui no IndieLisboa, Material Bruto e Tremor no Festival LusoBrasileiro de Santa Maria da Feira. 

Além de estar aqui para o festival, irei participar de uma residência na cidade do Porto, ao lado de João Salaviza. Participamos este ano do Projeto Cultura em Expansão e iremos filmar juntos uma curta intitulada Tráficos

Já tem novos projetos?

Estou desenvolvendo um novo projeto intitulado A Professora de Francês, que terá roteiro de Germano Melo. É um filme de terror social sobre o Brasil atual, onde uma jovem professora de francês se vê confrontada com o pensamento obscurantista das religiões evangélicas que vêm crescendo no Brasil. 



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