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Conexões luso-brasileiras: uma entrevista com Leonardo Mouramateus

Leonardo Mouramateus no programa A Vida é Curta!

O filme António Um Dois Três tem sessão especial no IndieLisboa este domingo (07/05). O realizador é brasileiro (Leonardo Mouramateus), o protagonista é português (Mauro Soares), os outros secundários mais importantes vêm do sul do Equador (Déborah Viegas, Daniel Pizamiglio) e a outra “personagem” mais importante do filme é… Lisboa. Os capitais para realização do filme são dos dois países. Uma coprodução luso-brasileira no mais completo sentido no termo.

Fiel às multiplicidades, este enredo livremente inspirado em Noites Brancas, de Dostoiévski, não conta uma – mas três histórias. Todas com os mesmos personagens, em diferentes momentos da vida de António (Soares), estudante desempregado, ator ou realizador teatral (conforme a situação). A estrutura complexa e o desafio ao espectador são garantidos.

Mouramateus, que com apenas 26 anos apresenta uma assinalável carreira internacional nas curtas-metragens, conversou com o C7nema sobre esta aventura lisboeta…

Como aconteceu da sua primeira longa-metragem ser produzida em Lisboa?

A minha desculpa para vir morar em Lisboa foi um mestrado na faculdade de Belas-Artes. O mestrado, de caráter teórico-prático, propunha que se desenvolvesse um projeto no correr de seus dois anos. Pareceu-me que a melhor maneira de utilizar esse tempo era dando continuidade às coisas e ao modo de fazer que já me interessava em Fortaleza. Uma produção de baixo-custo, que pudesse ser construída conforme fosse filmada.

Então, mais ou menos na mesma época, encontrei o Miguel Ribeiro e o Mauro Soares, o produtor e o ator do filme, que se entusiasmaram muito com a ideia. No início não tínhamos muita história – tudo o que sabíamos era que o António era um rapaz português que fugia de casa e ia passar a noite na casa da ex-namorada, ou seja, somente os primeiros dez minutos de filme.

Ficamos bastante tempo sem saber para onde isso iria, mas também não tínhamos muita pressa. O filme foi composto da vida e das piadas das pessoas da equipe, um poema ou outro, alguma música. Pensávamos, filmávamos uma parte, editávamos, e o que tínhamos nos dizia mais ou menos para onde devíamos ou não devíamos seguir. Seis meses depois filmamos a segunda parte e a terceira, seis meses depois disso.

Concorda que este é um filme, sobretudo, sobre arte e sobre artistas? Um dos temas, por exemplo, são as dificuldades financeiras e de ordem prática de alguém que envereda sobre este caminho...

Sim, o filme fala um bocado sobre arte e artistas, mas o António poderia ter outro trabalho e passar dificuldades financeiras entregando pizza, por exemplo. Naturalmente o facto de que eu tenha muitos amigos que são atores, e a própria experiência do Mauro (que é engenheiro e ator), ajudaram a escolher o universo.

Era importante que a linha que separa as cenas dos ensaios no teatro e as da vida cotidiana fosse quase invisível. E a gente consiga ver, assim como o António consegue sentir, que não existe dentro ou fora, o que é verdade ou o que é mentira.

É como no Ser ou Não Ser, do Lubitsch, sobre um grupo de teatro tentando sobreviver aos nazis. O melhor papel da vida dos atores do grupo se dá quando eles precisam fazer aquilo que eles sabem, que é atuar, literalmente, no hostil mundo em que vivem. Uma hora um dos atores fala um texto d“O Mercador de Veneza” para um grupo de nazis. Nunca, em nenhuma peça, eles foram tão verdadeiros quanto naquele momento.

Aquilo que o António e seu amigo Johnny (Daniel Pizamiglio) fazem é tentar sobreviver misturando o pouco que eles têm, suas próprias histórias, com seu trabalho. Que é algo que possível de ser visto não só nas artes, mas também no cotidiano de um entregador de pizza.

Mas é também um filme que faz pensar sobre os artifícios narrativos como, por exemplo, as diferentes possibilidades de enquadrar as vicissitudes de um mesmo protagonista...

A ideia era que não precisássemos de escolher qual a realidade “mais real” da história, porque todas elas são passíveis de existir, ao mesmo tempo. Não queríamos criar um filme como quem cria um dispositivo. A ideia inicial era que o António pudesse viver quantas vidas fosse possível, como o Charlot, que num filme está no circo e no outro está na fábrica.

Paramos na terceira, por que entre outros motivos, ali, o filme podia fechava um círculo, e acho que é possível perceber que entre o começo e o fim algo mudou nos personagens do António e da Débora.

Também há teatro e literatura na sua história. No caso que cita mais explicitamente, o de "Noites Brancas", em que pontos você identifica o texto de Dostoiévski com aquilo que pretendia para o seu filme?

O filme não é uma adaptação das “Noites Brancas”, mas devo ao livro algumas ideias. Os encontros fortuitos; a perambulação do personagem principal; os desencontros e, claro, um sentimento bastante jovem e meio delirante sobre o mundo.

Não é à toa que outros diretores se inspiraram nesse pequeno romance, de um jovem Dostoiévski apaixonado antes que lhe acontecesse coisas tão más na vida. Porque esse livro é de uma enorme simplicidade, vibra entre a euforia e a melancolia, e descreve muito bem aquilo que se passa dentro de alguém quando esse se depara com uma pessoa que dá novos significados a antigas palavras.

Tem apenas 26 anos e uma carreira considerável em termos de presença em eventos internacionais. Por que acha que tem alcançado esse sucesso?

Primeiro alguma sorte. Segundo tenho consciência de que ser de Fortaleza e produzir com alguma rapidez filmes de baixo-orçamento com os amigos faz acender um placar neon que diz “Novidade”, que é o que muitos festivais de cinema buscam.

Por último acho importante citar que tudo depende de imenso trabalho meu e dos meus amigos e colegas. E que, no centro disso, tudo está uma maneira alternativa de conviver e criar juntos. O cinema que me interessa, de Chaplin a Vecchiali, passa por esse sítio.



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