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Pablo Larraín: “Há uma certa raiva no trabalho de Neruda”

Já foi quase há um ano quando nos sentámos com Pablo Larraín para conversar sobre Neruda, o filme que acabara de passar com aplauso na secção paralela da Quinzena dos Realizadores, durante o festival de Cannes. Hoje, já depois de Jackie, na internacionalização do seu cinema, olhamos para este registo em que é a poesia a arma do povo contra a ditadura de Pinochet. Um trabalho incrível de Luis Gnecco no papel avassalador e cândido, mas por vezes também brutal, do poeta que se vê forçado a fugir dentro do seu país, perseguido pelo agente Óscar Peluchonneau, interpretado pelo inevitável Gael Garcia Bernal. É um filme em que Larraín parece querer fundir a poesia de Neruda com ambientes que parecem remeter-nos para um certo cinema clássico americano – estaria aqui essa passagem para outros voos? – embora o realizador chileno tenha intrometido aqui as imagens fotográficas de Sergio Larraín, um fotógrafo da Magnum que disse “uma boa imagem é criada num estado de graça”. Tal e qual como um bom filme.

Quando foi que decidiu fazer um filme sobre Neruda?

Começou há muito tempo. Mesmo antes de Não. Primeiro começou por uma fase de escrita, mas foi um processo complexo. Até porque entretanto, entre o processo de financiamento e a produção, fizemos O Clube.

Acha que este tipo de literatura, a poesia como a encarada Pablo Neruda, ainda hoje é possível? Considera que este génio poderia voltar a acontecer?

O Neruda, como outros artistas são a alma do seu tempo. Não digo que não voltará a acontecer, ainda que hoje, provavelmente, alguns dos seus poemas dificilmente se adaptassem à realidade atual. É que nessa altura existiam circunstâncias que criaram a realidade desses poemas. Hoje, a poesia é diferente. Somos sempre um resultado de um processo social. Essa poesia era o resultado de um processo social. Por isso, só com essa realidade esses poemas fariam o mesmo sentido. A realidade é que Pablo Neruda é uma figura pública global. Um ícone e um enorme artista. Não só para o Chile.

Acha também que as ideias comunistas defendidas por Neruda ainda vivem no Chile?

Não sei, mas temos a vantagem do tempo. Esta conversa é simples: sabemos que o Fidel Castro e o Barack Obama tiveram uma reunião há semanas atrás, em Havana (a entrevista decorreu em maio passado). Esse é o mundo que temos agora. Mas também sabemos que a McDonald’s vende um bilião de hambúrgueres por dia na China. Este é um mundo diferente. Mas na altura existia uma perspetiva modernista da vida. E esses tipos tinham sonhos que encaravam com seriedade. A seguir à 2ª Guerra Mundial a URSS estava a formar-se bem como a Guerra Fria. E eles queria mudar o mundo. Isto foi dez anos antes da revolução cubana. Temos e compreender o mundo como era.

O processo revolucionário do Chile também foi necessário… 

Sim, foi um processo necessário. Esta sociedade tinha de se tornar comunista. Penso que o filme tenta não ser ingénuo e regressar a esse tempo levando em conta aquilo que sabemos hoje. Temos de ser responsáveis e saber que esses tipos tinham um sonho e que sabemos o que aconteceu depois. Era um processo necessário para esta sociedade e ser comunista. Podemos estar a regressar ao passado, talvez, mas este modelo tal como está não funciona.

Concorda que o seu filme, que aborda diversos temas e procura identidades, pode ser também sobre um cineasta também à procura da sua identidade? Como foi que a sua perceção sobre Neruda mudou também?

Comigo, tal como outros chilenos quando vamos à escola temos de estudar Neruda, pois faz parte do programa obrigatório. Crescemos então com a ideia deste romântico que escrevia poemas de amor. O Neruda tinha uma voz específica e uma forma muito pessoal de recitar. Algo que acabou por se tornar até numa forma de caricatura. Ao iniciar a produção deste filme acabei a ler toda a sua poesia, em particular o Canto General, um volume muito grosso. E fiquei em choque no que descobri nesses poemas. Muitos dos poemas que mais me interessaram não estão na Antologia Poética, estão escondidos nessas páginas. São poemas escritos com raiva, por pessoas que usaram essas palavras para se exprimir. Isso foi algo que me comoveu. É quase como viver num outro mundo. Hoje em dia é quase impossível encarar alguém que escrevesse um poema, num pedaço de papel artístico que se tornaria em arte, mencionando nomes de políticos, destruindo uns e beneficiando outros. Tudo isso num género que se considera literatura é estranho. Foi isso que me cativou, os poemas de amor e os poemas de raiva. Há uma certa raiva no trabalho de Neruda, o seu desejo de mudar as coisas. Mas não de uma forma fácil, ingénua. Por vezes, ele era muito mau para outras pessoas.

Depois, há o lado de génio também…

Ele tinha o olho do artista, provavelmente, uma das coisas mais difíceis. Conseguia olhar para pormenores pessoais e insignificantes e criar uma coisa inteiramente nova. Essa capacidade de perceção permitiu-lhe ter essa visão poética aguçada.

O Luis Gnecco parece uma escolha perfeita para o papel de Neruda. Foi uma escolha sua ou passou por um processo de casting? Ele faz claramente a diferença.

Passaram todos por um processo de casting.

Pediu-lhe para ler Neruda? 

Não tive de lhe pedir, pois ele fez isso por ele próprio. Até memorizou alguns poemas em francês. Lembro-me de quando estávamos a filmar Não ele já recitava e falava como o Neruda. É que o Neruda tinha uma maneira de falar muito específica, muito lenta e muito “Neruda”. Lembro-me de o meu irmão ter ficado espantado quando captou em vídeo algumas desses momentos. É claro que quando o filme avançou contámos com ele.

Acha que este filme pode ser considerado também uma homenagem ao cinema clássico americano? É que temos film noirwestern clássico… O que pediu ao seu diretor de fotografia para captar estes ambientes?

Quando submetemos um filme a um festival destes temos de preencher um formulário que especifica várias coisas, como o título, a duração, o cast e, entre outras coisas, um espaço para considerações gerais. Quando uma pessoa da produção me perguntou o que deveria colocar ali eu disse para deixar em branco. Só que esse campo era de preenchimento obrigatório. Por isso, disse-lhes para ligar ao festival a explicar que isso seria muito difícil de descrever porque incluía diversos géneros diferentes. Mas não vimos filmes para fazer Neruda, apenas fotografias de um fotógrafo chileno chamado Sergio Larraín (não relacionado comigo)…



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