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João Pedro Rodrigues: "Há um lado erótico na representação de muita pintura religiosa"

João Pedro Rodrigues isolou-se em Trás-os-Montes para evocar o mito de Santo António, como uma espécie de peregrinação - leia-se transformação -, na descoberta de si próprio. Paul Hamy, ator francês de ascendência americana, dá corpo a essa imagem num ambiente naturalista e aberto, um quase western à portuguesa, mas com conteúdos internacionais. Falámos com João Pedro Rodrigues em San Sebastian, onde apresentou o filme em competição, na secção Zabaltegui, e onde era também júri para avaliar as curtas das escolas de cinema locais.

 

A ideia de “O Ornitólogo" [ler crítica] era um projeto antigo que querias concretizar ou surgiu agora? Neste caso, este filme concretiza esse sonho? Era um projeto que procuravas há muito desenvolver?

Não era um projeto que tinha há muito tempo, apesar de saber que tinha de fazer alguma coisa com uma personagem de ornitólogo. Mas nunca sei o que vai ser o meu próximo filme. Escrevi-o para aí em 2010-2011, embora o filme tenha tido subsídio antes do ICA ter ficado sem dinheiro, o tal ano 0. Não deixa de ser curioso, porque tenho agora 50 anos e deu-se o caso de o filme sair no mesmo ano em que começamos a olhar para trás e a pensar numa vida que poderia ter seguido. 

No fundo, algo que tinhas de fazer...

Sim, de certa maneira. Mas também continuo a levar os binóculos quando viajo, porque ainda me interesso. Este lado do contacto da natureza, de estar longe e só. Mas não sou só eu.

 

Depois de Locarno, em que venceste o prémio de realização, vieste a San Sebastian, na competição Zabaltegui. Enquanto cineasta, existe alguma pressão de ter um filme em competição?

Não sei se é pressão, mas prefiro que os meus filmes estejam em competição. Acho que é importante, porque são secções que se seguem mais. É mais uma recompensa para mim e para o cinema português. Mas também não faço filmes para ganhar prémios.

O Ornitólogo é um filme de céu aberto, em natureza. Isso era algo que querias fazer?

Havia uma espécie de “parti pris” que era fazer um filme que não tivesse interiores. Aqui há apenas um interior que é o interior da tenda. Ele é um personagem que se perde na natureza, que nunca encontra abrigo. A única casa que encontra está em ruínas e não tem tecto. Era como se não conseguisse encontrar um sítio onde se recolher.

 

No fundo, algo que tem a ver com o percurso da transição da personagem?

Sim, esta é uma história de transformação. O filme baseia-se vagamente na história do Santo António. Esse é o ponto de partida e de chegada do filme. Mas é uma versão muito livre e iconoclasta das histórias do Sto. António. Até porque a história do Sto. António faz parte um pouco das nossas mitologias. 

 

E porque que te interessa tanto o Santo António? De resto há tratado anteriormente em curtas?

Interessa-me porque o Sto, António é um santo muito popular. Interessa-me a religião e o lado da transcendência. Eu não sou religioso, nunca fui e não tive educação religiosa. Cheguei à religião através da pintura. Porque a maior parte da pintura clássica, desde a idade Média era pintura religiosa. Depois no Renascimento abriu-se para outras coisas e a mitologia também passou a fazer parte da pintura. Mas as histórias dos santos eram contadas basicamente pela pintura. Há muitos retábulos em que há o retrato principal, normalmente o retrato do santo e depois, em baixo, há outras pinturas com episódios do santo. A mim interessa-me esse lado, essa espécie de estações da vida de um santo. Os vários momentos. No fundo, essas são também as primeiras narrativas. Interessava-me pegar em várias mitologias e criar uma mitologia própria. Que tem a ver com os meus filmes.

 

Mas, no fundo, algo que tem muito a ver com os corpos das personagens.

Sem dúvida. Outra coisa que me interessa na pintura é encontrar esses corpos. Muitas vezes corpos desejáveis. Há um lado erótico na representação de muita pintura religiosa. Por exemplo, muitas das pinturas do Caravaggio eram encomendas da igreja e ele teve de fazer várias versões porque muitas vezes eram recusados os quadros por serem muito escandalosos. Em parte, porque não eram pessoas que pertenceriam a uma espécie de ‘bas fond’ onde se pensa que ele se movia. A mim interessa-me esse lado – como se encontra um corpo para um ser que é um santo, uma espécie de transcendência.

Neste caso, o Paul Hamy é um pouco isso. Tem a tua voz e outro corpo. Haverá aqui alguma relação com o que estavas a dizer?

Os meus filmes tratam sempre de transformação e de metamorfose. São sempre personagens que se transformam noutra coisa qualquer. Queria neste filme levar um pouco mais além, mas não tenha a certeza de que isso resultasse. Filmei em dias versões, uma com o Paul e depois comigo. Não sabia se ia resultar. Mas depois fazia todo o sentido, mudar a voz do Paul. Ele aprendeu português, mas era fundamental que fosse português por causa do Santo António. Mas só durante a montagem é que fez sentido para mim mudar a voz.

 

Quem tem seguido a tua obra por certo perceberá que o encontro com o Oriental será de certa forma esperado. É assim?

É verdade. No fundo, as duas chinesas que aparecem vêm dos outros filmes. Mas, além disso, antes de fazer o filme eu fiz o Caminho de Santiago a pé. E encontrei vários orientais, mais coreanos até do que chineses.

 

Fizeste o Caminho como uma certa forma de “repérage” do filme?

Sim, e também para ver que tipo de pessoas se encontram e como fazem o caminho. Para mim era importante perceber quem eram aquelas personagens. Depois fui buscar outras coisas que me interessam a mim e transformei-as. Afinal elas não são inocentes como parecem. Estão perdidas, mas são algo perversas. Interessa-me sempre essas personagens que não são exatamente o que parecem.

 

Falei na “repérage”, da busca de locais para filmar, porque queria também que falasses um pouco do lugar onde rodaste do filme, o Douro internacional. Como foi que decidiste por esse local?

Bom, primeiro, Trás-os-Montes é sempre um local mítico no cinema português – bastante pensar no trabalho do António Reis e Margarida Cordeiro. Até porque é dos ligares de Portugal mais selvagens. Para além disso há partes do Douro internacional interditas à navegação. Há esse lado de um lugar inacessível, fora do tempo. Está-se no presente, mas há uma espécie de viagem física ao passado. É como estar em lugares secretos em que nunca ninguém lá esteve.

A ideia de filmar o exterior, esse lado selvagem, é quase como um western.

Sim, a ideia era um pouco essa, de evocar o western. Gosto muito dos westerns do Anthony Mann, do Bud Boeticher, em que há este lado da personagem na natureza e o seu confronto com a parte selvagem. O Paul como é meio francês e meio americano, tem algo desse lado americano e físico. Por outro lado, o filme tem poucas palavras, por isso tentei filmá-lo como a natureza. Com a mesma importância. Ou como as aves. O filme começa com ele e as aves, ele e os mergulhões.

 

Temos de falar também de outras influências do cinema que te movem, ou comovem. És um homem de cinema e de Cinemateca. Não necessariamente neste filme, mas na tua obra e a incontornável componente ‘queer’. Digamos que é para ti uma componente natural, digamos assim...

É como eu sou. Para mim, é muito importante este lado, uma espécie de honestidade comigo mesmo. De ser verdadeiro. Só quero contar histórias que são próximas de mim. Histórias que apesar de serem completamente ficcionais, possam também ser reais. Porque o cinema é muito fotográfico. Temos de acreditar naquilo que vemos. É como o S. Tomé, vamos acreditar para ver.

 

Curiosa sempre, mas já esperava a inclusão do tema de António Variações...

A Canção do Engate” foi uma música que me acompanhou e que hoje ainda me é muito próxima. É uma música que quase contradiz o final feliz do filme.

Porquê?

É que aquelas personagens acabam por encontrar-se, mas continuam sós. O filme também é uma espécie de história de amor que se desenha naquelas personagens. Mas não é só isso, é a ideia de discípulo, do aprendiz que segue esse caminho e chega a Pádua.

 

Só para terminar, desta vez um filme sem o João Rui (Guerra da Mata), na co-realização. Alguma razão especial?

Nós só co-realizamos os filmes que têm a ver com a Ásia. Pelo facto de ter feito uma série de filmes com o João Rui que continue sempre a co-realizar. Ele também fez filmes sozinhos, eu também fiz curtas sozinho. O nosso princípio é mais o que tem a ver com a Ásia. Porque tem a ver também com o passado dele.

 



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