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Filme-família experimental: entrevista com Alan Minas, realizador de “A Família Dionti”

Com muita imaginação e inventividade, o realizador Alan Minas logrou reunir com A Família Dionti um filme que traz tanto de experimental quanto de acessível, jogando de uma forma ostensiva com os signos visuais representativos do mundo interior.

O filme conta a história de uma família formada pelo pai e dois filhos numa pequena cidade do interior do Brasil. Todos eles partilham do sofrimento causado pela ausência da mulher, que os abandonou. Ao mesmo tempo, os dois jovens vão experimentando a chegada à vida adulta de formas diferentes, como o mais novo dele sucumbindo ao primeiro amor.

Nesta conversa com o C7nema, Alan Minas, que estará em Lisboa para a sessão do filme neste sábado no âmbito do FESTin, que está a decorrer no cinema São Jorge, falou sobre o seu fascínio pelo fantástico, pelo tema da orfandade e as suas expectativas.

A Família Dionti” é exibido neste sábado (07/05) no âmbito do FESTin, que está a decorrer no cinema São Jorge, em Lisboa.

Você trabalhou num estilo pouco usual, que é um universo de realismo mágico a nível do enredo e do visual. Como foi essa construção?

O realismo mágico é um campo que muito me seduz, está nos escritores e artistas que me influenciam e me inspiram. É minha zona de conforto, onde dou vazão às minhas utopias, onde, de alguma forma, existo.  Tudo que envolve poesia e o realismo mágico me inspira e me move a criar imagens, e a partir dessas me vem às histórias.

A gramática do fantástico é algo que perdemos quando deixamos a infância. Conforme somos educados, rompemos a ligação com a fantasia. Em geral, quando a gente vê um filme fantasioso, ou ligado à criança, há um sinal como um sininho, uma mudança de cor quando a ‘fantasia começa’.

E a lógica da infância e da poesia não é assim, ela é transgressora, toda imaginação é possível de ser experimentada. As minhas referências para escrever e fazer cinema vem sobretudo da literatura – os autores Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Mia Couto são a fonte da minha inspiração.

E no cinema me emociona as obras do Abbas Kiarostami, do Emir Kustirica, do Theo Angelopoulos, do Marcelo Gomes, do Karim Aïnouz. Adoro a ideia do Kiarostami do cinema da secura, da falta do contra-plano, de sequências inteiras em que um personagem conversa com alguém que nem aparece na tela. É instigante, pois o espectador precisa construir isso, ser ativo, deixar de ser passivo. Então a narrativa desse filme surgiu de uma imagem de um menino que via tudo de cima. A partir disso eu escrevi um conto influenciado por todas essas referências e adaptei para o roteiro de longa-metragem.

Apesar deste experimentalismo, o filme é emocional e o espectador facilmente se conecta com ele, como se depreende da vitória do prémio do público, em Brasília.

O filme foi um grande risco, não saberíamos como a plateia reagiria. Mas apesar de sua veia experimental, obteve uma excelente recepção na estreia em Brasília, onde recebeu o prémio de melhor filme pelo júri popular. Foi uma grande surpresa, pois é um filme diferente do que costumamos assistir, onde a originalidade impera.

Acredito que o elemento que o conecta ao público é a forma avassaladora e imprevisível com que o tema do amor é tratado, levando às últimas consequências a entrega do personagem à um sentimento arrebatador, capaz de transformá-lo e transfigurá-lo: fazê-lo derreter de amor, literalmente.

O filme também remete para uma questão por si já trabalhada, a “alienação parental”. De onde vem isso?

A importância da presença dos pais na vida de um filho é um tema que me toca pessoal e profundamente. De alguma forma, nosso último documentário A Morte Inventada-Alienação Parental dialoga com A Família Dionti por abordarem a relevância inquestionável na estruturação dessa relação.

Ambos os trabalhos apontam para esse lugar, para a escuta da criança que por diversas razões deixa de ser atendida. Os filmes discutem, cada um à sua maneira, a enorme presença de um genitor mesmo em sua ausência. E como esse afastamento pode ser devastador, sobretudo quando a criança é alijada da convivência familiar, o que se torna uma lacuna intransponível na vida desse menor, perpetuando as sequelas desse ato por toda a vida, e até mesmo à seguidas gerações como um padrão alterado de comportamento.

O personagem Serino, do filme A Família Dionti, corrobora de forma poética e fantástica essa ideia: por conta do ressentimento que ele carrega por ter sido abandonado pela mãe, ele torna-se ressequido por dentro: sua memória secou com tudo dentro, ele sua e chora areia.

O Brasil hoje tem um cinema interessante em termos de produção, mas continua sofrendo o problema da distribuição. Como será no caso de “A Família Dionti”?

Estamos construindo esse plano de distribuição no Brasil junto com a Arthouse, nossa distribuidora. A data para estreia está marcada para setembro, e nos encontramos em meio a elaboração da estratégia de lançamento. Estamos otimistas com a carreira do filme, pois ele não é limitado em seu público-alvo, é um filme família. Ele se comunica com a criança a partir de 10 anos, adolescentes e com o adulto de todas as idades, transita através das várias faixas por conta das inúmeras camadas de absorção e perceção que o filme em sua poesia oferece.

Apostamos em nossa memória coletiva inconsciente, de nossa cultura ancestral rural, como um ponto favorável à aproximação a uma parcela do público. Acreditamos que o atrelamento entre a distribuição e a educação também será um forte caminho propulsor à colaborar na disseminação dessa linda história de amor.

Estará presente na sessão de apresentação do filme. Que expectativas tem? É a sua primeira vez em Portugal?

Estou bastante entusiasmado com a exibição no FESTin. É a primeira vez que vou a Portugal, um lugar que há muito tempo desejo conhecer e onde seguramente há grande chance de me sentir em casa. Será a primeira vez que faremos uma exibição fora do Brasil, onde teremos o conforto, o carinho e o acolhimento da língua, prerrogativa fundamental para melhor apreensão do filme. Acredito que a herança poética da cidade de Lisboa é um elemento motivador nesse encontro, predestinado a celebração da poesia e do tempo da palavra.

Tem novos projetos?

A Caraminhola tem dois longas-metragens em desenvolvimento, na fase de captação de recursos. Um deles é o filme infantil Quando Ju Escapou pra Dentro. O outro é direcionado ao público adulto, chama-se O Deserto de Luíza. Os dois projetos envolvem o realismo fantástico. Também estamos elaborando duas series de TV de ficção, além de projetos de terceiros, com parceiros internacionais. Esse ano está previsto o lançamento de dois livros de minha autoria, que são os desdobramentos dos filmes: A Família Dionti e Quando Ju Escapou pra Dentro, ambos pela editora Berlendis.



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