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No rasto das bruxas: entrevista com o realizador de «The Witch», Robert Eggers

Se o cinema de terror cada vez mais sai do seu nicho e mostra que as suas potencialidades vão bem além de franquias sem qualquer interesse que o ridicularizam, o universo dos festivais e da arthouse vem sendo um dos seus mais entusiásticos acolhedores. Que o diga o estreante Robert Eggers: depois de adentrar pelo século XVII para investigar o mundo mental das populações assombradas pelas bruxas para compor o seu The Witch, o cineasta terminou por receber o prémio de Melhor Realizador na última edição do Festival de Sundance. 
 
O enredo trata da sombria trajetória de uma família de puritanos ingleses recém-chegados aos Estados Unidos, em 1630, que, para fugir à corrupção da “cidade”, vai viver para as margens da floresta. Mas, em vez de sossego, o que eles encontram são os seus próprios demónios… 
 
Em terras lusitanas coube ao IndieLisboa (em curso até 1 de maio) confirmar a tendência: para além de uma seção recheada de bizarrices (Boca do Inferno), o festival foi, até agora, a única hipótese dos espectadores verem por cá o filme – que não tem estreia prevista no circuito comercial. 
 
Para estimular a curiosidade, no entanto, o C7nema conversou com Eggers, que falou sobre o seu próprio fascínio pelas bruxas e pela enorme pressão que o sucesso inesperado coloca sobre os seus futuros projetos – tema, aliás, evitado pelo cineasta… 
 
 
Você fez um esforço pouco comum no sentido de, antes de descrever uma época, reproduzir a sua mentalidade. Como surgiu a ideia?
 
De forma a ser verdadeiro com a audiência, eu tentei filmar cada momento, cada frame, como se eles fizessem parte da minha própria memória – como seu eu mesmo tivesse tido a minha infância em 1630. Foi necessária uma pesquisa enorme para entrar nesse mundo, na sua mentalidade, nos seus valores, nos seus detalhes físicos etc, de forma a poder transformar esse mundo na minha própria memória. Esta é a minha abordagem. Uma vez que a génese do filme começou na minha infância, vivendo na zona rural da Nova Inglaterra e, obviamente, fascinado por bruxas, os factos históricos apoiaram as minhas próprias memórias, sonhos e experiências.
 
Os diálogos parecem ter sido bastante difíceis para os atores, especialmente para as crianças. Como foram os ensaios? Foi difícil para eles memorizarem?
 
Os diálogos não foram difíceis de todos, pois eu selecionei apenas pessoas que o pudessem fazer facilmente – mesmo o menino, Lucas, de seis anos. Eu fiz o casting todo na Inglaterra e todos os candidatos que não conseguissem dizer o texto facilmente não eram considerados, uma vez que mais tarde perderia muito tempo para fazer com que eles “chegassem lá”. De qualquer forma, a maior parte dos pretendentes conseguiam fazê-lo. Na Inglaterra, por causa de Shakespeare, muitos autores estão familiarizados com o inglês da Idade Moderna. Além disto, o idioma antigo ainda sobrevive em alguns regionalismos. As pessoas ainda diziam “thee” no zona rural no norte da Grã-Bretanha nos anos 70; se o elenco fosse norte-americano, seria muito mais difícil. 
 

The Witch 
 
A conclusão sobre a sua abordagem é a de que fé, superstição e delírio andam lado a lado…
 
Sim, no filme é assim. Mesmo se Deus for real, se o diabo for real, a histeria religiosa pode existir, tal como alucinações e falsos profetas.
 
A sua abordagem tem elementos de terror, uma vez que não evita imagens explícitas e mesmo alguns “sustos”. Ao mesmo tempo é um drama psicológico. Como pensou no filme em termos de género? Considera The Witch um filme de terror? 
 
Sim, considero mas, no final das contas, não me importa a maneira como ele é chamado. Na década de 1830, por exemplo, o terror era considerado um género alemão e Edgar Allan Poe, numa citação famosa, disse: ‘O terror não vem da Alemanha, mas da alma’. Bom, então eu digo: ‘o terror não vem de sustos, mas da alma…
 
 
O filme teve um grande impacto em Sundance e tem sido bem recebido onde quer que estreie. Isso coloca-lhe muita pressão para trabalhar nos seus novos projetos? E, já agora, se pode adiantar algo sobre eles…
 
Eu nunca teria esperado o lançamento alargado e as reações positivas que o filme tem suscitado. E, sim, esses superlativos colocam uma enorme pressão sobre mim. De qualquer forma, eu sempre pus enorme pressão sobre mim mesmo e, no final, eu tenho apenas o que está dentro de mim… Eu não posso fazer melhor do que isso, minha esperança é que isso conecte-se como outros seres humanos.


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