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Entrevista a Samira Makhmalbaf: um rosto da resistência iraniana


Quando participou em O Ciclista (1987), Samira Makhmalbaf não imaginava que anos depois viria a receber das mãos de Luc Besson o Prémio do Júri no Festival de Cannes, pelo filme O Quadro Negro, estávamos então no ano 2000. Dois anos antes, Samira já tinha feito história no Croisette, ao se transformar – na altura com apenas 18 anos – na mais jovem realizadora de sempre a fazer parte da seleção oficial do certame. O filme em questão era Sib – The Apple (A Maçã), drama baseado em factos verídicos sobre duas raparigas que durante anos foram mantidas fechadas pelo pai.

Com um início de carreira prodigioso, Samira – filha do também aclamado Mohsen Makhmalbaf – foi então convidada em 2002 a contribuir para a coletânea de curtas-metragens 11’09’01 - 11 Perspetivas, obra que circulava em torno do 11 de setembro e que contou com a participação de cineastas dos quatro cantos do mundo, como Claude Lelouch, Sean Penn, Amos Gitai, Alejandro González Iñárritu, Shôhei Imamura e Mira Nair.

Por esta altura, Samira já tinha também assumido outra importante tarefa no mundo do cinema: o de membro do júri de diversos festivais de cinema, como Locarno, Veneza, Cannes e Moscovo.

Em 2003 atreve-se a ser a primeira cineasta a realizar um filme no Afeganistão pós talibãs, construindo Às Cinco da Tarde, um drama que acompanha uma mulher ambiciosa numa sociedade que a descrimina. O desejo de uma educação e até de um dia ser presidente é o motor de uma história sobre a condição da mulher e uma guerra contra as tradições discriminatórias.

Estreado novamente em Cannes, e de novo premiado com o Prémio do Júri (para além do Prémio Ecuménico), Às Cinco da Tarde confirmou Samira como um dos nomes mais importantes do panorama do cinema mundial. 

Entretanto, começa de forma silenciosa uma mudança política no Irão, algo que a obriga a filmar no Afeganistão (não teve permissão de o fazer no seu país) um dos filmes mais brutais da sua carreira: Two Legged Horse, um verdadeiro soco no estômago que a cineasta oferece a um mundo profundamente desigual. 

Na obra, que teve na sua produção o arremesso de uma granada para o set das filmagens, seguimos dois rapazes, um rico e outro pobre. O rico não tem pernas, o pobre tem uma deficiência mental. Nos primeiros minutos do filme vemos um homem a pedir rapazinhos – a quem pagaria um dólar – para estes executarem um trabalho. E se trabalho consistia em ser o cavalo do rapaz sem pernas, acompanhando-o para todo o lado. Feita a escolha, assistimos a partir daqui a uma relação simples de mestre vs escravo, rico vs pobre, ou como Samira definiu, entre estados opressores e o seu povo, pisado, humilhado, metamorfizado em algo completamente desumano.
 
Este murro na mesa centrou ainda mais os olhos do regime em si, algo que foi sempre constante devido às posições políticas do seu pai. A imposição de uma Fatwa em relação ao progenitor levou a que todo o clã Makhmalbaf só tivesse como alternativa o exílio, algo que permanece até hoje. E foi com todos estes elementos em mente que nos encontramos com Samira Makhmalbaf na Culturgest, em pleno Doclisboa, certame onde a iraniana se encontra no estatuto de membro do júri da competição nacional.

Aqui ficam as suas palavras…


Como está? Está a gostar de Lisboa?

É a minha primeira vez, mas a minha irmã [Hana Makhmalbaf] esteve cá há dois ou três anos e disse-me, quando fui convidada, para aproveitar especialmente o sol. Tive também oportunidade de ver a cidade e é linda.

Apesar de ter apanhado uma semana de chuva…

Mas ainda consegui apanhar um pouco de sol, pude passear até ao rio. As pessoas são muito simpáticas, sinto que consigo comunicar com elas facilmente, até parece que são do Oriente.
 
 
Samira em 11’09’’01 - 11 Perspectivas

A sério?

Sim, porque há aqui coisas que só esperava encontrar no Oriente. Há uma diferença: Ocidente, Oriente.

Está aqui como membro do júri. Sei que não nos pode falar especificamente dos filmes que já viu, mas acredita que há muita qualidade no geral?

Já várias vezes fui júri, mas poucas vezes de documentários, mas sim. Estou à espera de melhor, porque ainda só vi metade deles. Por enquanto tem sido bom, mas ainda espero melhor, acho que ainda vou ver melhores.

Está-se a tornar especialista em ser júri de festivais, esteve em Cannes, Veneza, Berlim, Locarno e agora aqui. É algo que gosta de fazer?

Não é algo muito fácil de fazer, por vezes é-me muito difícil, mas vejo muitos filmes bons e é uma maneira de dar algo de volta à comunidade cinematográfica. Eu sei que fazer filmes é difícil. Mas, especializar-me? Não, porque cada filme tem o seu estilo próprio. Cada coisa que vês, tens os teus critérios, mas tens de estar aberto àquele filme. Não deves dizer “este é o tipo de produção que gosto” e tentar enquadrá-lo nisso, mas estar aberto. 

O tipo de critério que uso é: o que é que o filme quer dizer e como é que o diz? Ambos são importantes para mim. Tento também vê-lo com a minha mente e o meu coração e acho que por vezes fala aos dois, mas por vezes o coração fala mais alto. É uma boa coisa porque, no final, é uma decisão de grupo, podes cooperar, podes ouvir a opinião de outras pessoas.

E conhece muitas pessoas e pode partilhar histórias e até culturas…

Sim, e, por exemplo, é a minha primeira vez em Portugal e os documentários são como uma janela para mim, um espelho, que me permite conhecer-vos e a vossa cultura. 

Talvez os documentários, de alguma forma, te permitam conhecer melhor uma cultura em pouco tempo, porque, por vezes, na ficção tenta-se contar uma história e torna-se mais difícil, mas num documentário acho que, pelo menos, podes encontrar algo interessante.

De alguma forma o seu trabalho mostra isso, porque é ficção, mas tem uma ligação documental e realista. 

Achas? Penso que o meu primeiro filme era baseado numa história verdadeira, mas era algo diferente. Posso dizer que sou inspirada pela realidade e que tento escolher atores que sejam pessoas reais, não atores profissionais, e tento deixar que a voz deles e a sua alma se manifeste, mas é sempre ficção e posso dizer que se encontra entre a realidade e a imaginação.

E muitas metáforas também...

Sim, e é uma coisa boa, quer dizer que acreditas nelas.

O último filme que vi seu foi Two Legged Horse e era duro, brutal, é a história do Mundo, da injustiça. Tenta pegar numa grande história e inseri-la num microcosmos e é uma das coisas que mais gosto no seu trabalho.

Se queres dizer: contar a história de dois seres humanos ou de uma família, no Irão ou no Afeganistão, mas tentar ter esta como metáfora para qualquer pessoa? Sim, eu tento.

Não faz filmes desde 2008, tem alguma coisa em mente?

Sim, estou a trabalhar em algo, neste ou no próximo ano vou trabalhar nisso, mas a minha vida mudou muito. 

Quando estava em Helsínquia, o meu pai avisou-me que tinha sido informado pelo nosso verdadeiro presidente, o que está agora na prisão, que tinha havido um coup d’etat (golpe de estado) [no Irão]. Ele começou a dar informação porque ninguém a tinha, a dar muitas imagens para informar o mundo. Então fiz uma conferência de imprensa, porque pensei que, como o meu pai sempre me disse, se tomas o nome das pessoas (sic), deves estar sempre pronto a dar de volta. 

Portanto, quando tens um megafone, tens de falar. Depois a minha irmã fez um documentário sobre o que se passou e o meu pai era muito ativo pela democracia e fomos exilados. O meu pai já tinha sido exilado há cerca de oito anos, mas eu queria ficar lá. Quis fazer o Two Legged Horse lá, mas o governo iraniano não me deu permissão.
 
  
Two Legged Horse

Filmou-o no Afeganistão.

Sim, foi lá, mas foi mandada uma granada de mão para o nosso set, morreu uma pessoa e várias ficaram feridas. Portanto, tornou-se muito difícil para mim filmar até nas zonas ali à volta e não pudemos voltar ao Irão. Envolvemo-nos muito, especialmente o meu pai, mas também a família toda, na democracia do Irão, por isso tenho estado um bocado afastada do cinema. 

Depois disso ficámos em França, mas até aí se tornou perigoso para o meu pai ficar, tinha de andar de guarda-costas, e tivemos-nos de mudar, porque foi emitida uma fatwā contra ele. Sabes o que é uma fatwā? Fatwā é um decreto emitido por eruditos religiosos com implicações legais [reconhecido pela lei xiita como vinculativo] e foi emitida uma para matar o meu pai, portanto tivemos de mudar outra vez e começámos uma vida de fugitivos.

Continua a ter contacto com os realizadores do Irão? 

Sim, alguns deles.

Qual é a situação de Jafar Panahi? Abbas Kiorastami disse no outro dia, em Nova Iorque, que ele já fez outro filme e que ia tentar tirá-lo do país novamente e mostrá-lo em Berlim ou Cannes. Não acha que depois de dizer isso vai haver mais pressão e olhos atentos a Jafar Panahi?

Tenho de dizer que, para mim, o problema é nacional, afeta todas as pessoas lá, não apenas um realizador. Quando um realizador está nessa situação, pode mesmo tornar-se famoso por isso, mas, ao mesmo tempo, há muitos outros realizadores debaixo da mesma pressão e muitas outras pessoas na prisão. É a situação no Irão: há muitos realizadores em exílio. E devemos lembrar-nos que isto não é só o problema de uma pessoa: é de toda uma Nação, temos o problema que alguns não conseguem fazer filmes, mas temos um regime totalitário. Não há direitos humanos no Irão. 

Por isso é que quando Ahmadinejad subiu ao poder, o meu pai saiu do país, porque sabia que, com o tipo de filmes que faz, que são muito críticos desse tipo de cultura, teria sido preso. Mas uma das coisas que o meu pai estava a tentar fazer era dizer que a democracia do Irão está muito relacionada com a Paz Mundial. O que quer dizer que, se não tens democracia no Irão, não vais ter Paz naquela àrea, nem no mundo, porque este governo que tem a arma apontada às nossas cabeças, amanhã terá armas nucleares e vai começar a fazer guerra.


Portanto, estão a fazer a Bomba [nuclear]?

Não posso afirmá-lo. Por mim, digo que este regime tem este tipo de pessoas: se são capazes de mandar uma granada para o meu set e estou só a fazer um filme, imagina a brutalidade do regime.

E tem esperança que mude?

Tenho, acho que a situação não se pode manter muito mais tempo como está. Até porque houve aquela altura em que os iranianos saíram às ruas, depois deste golpe de estado, e as pessoas puderam ver-se umas às outras: nós não sabíamos que tantas pessoas estão contra o regime, e o regime também pode ver quantas pessoas não gostam deles. 

Antes disso as pessoas tinham medo de mostrar-se e, pelo menos dessa vez, fizeram-no. Se na altura do golpe se tivesse visto esse apoio, poderia ter sido diferente, porque não houve ajuda internacional com a ideia que a democracia iraniana é um problema dos iranianos, só interessam as armas nucleares, mas não, estas coisas estão relacionadas: a democracia do Irão é a Paz Mundial, é a mesma coisa.

Voltando um pouco atrás, vai filmar: sabe onde?

Nunca falo sobre isso [risos].

E sobre a história?

Também não.

Sobre os seus filmes, por exemplo, em O Quadro Negro há aquele início surrealista e depois entra-se para algo mais real, podemos dizer que isso é uma assinatura?

Queres dizer que há algo característico em todos os meus filmes? Eu gosto de misturar realidade e ficção. Para mim, quando a realidade, a ficção e a imaginação se encontram é como se fizessem amor e a Arte vem daí.
 
 
 
 


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