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«Unsane» (Distúrbio) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Após ter anunciado a retirada do cinema e de quatro anos sem grandes sinais de vida, Steven Soderbergh voltou ao seu ativo tipicamente prolífico e multifacetado, na qualidade de cineasta "decatlonista", i.e. um homem que acaba por saber um pouco dos vários ofícios e artifícios desta arte, da montagem e fotografia à escrita de argumentos. 

Para provar que não tem medo de novos desafios, o realizador de Sexo, Mentiras e Vídeo regressa à câmara mas desta feita escolhe um objeto que qualquer um consegue arranjar numa loja de eletrónica: um iPhone. A ideia não é nova, e o realizador não aterrou de repente nesta nova moda: estamos afinal a falar de um dos grandes responsáveis para que a transição para o digital se tenha dado de forma tão fluída. Há um par de anos, um filme conquistava Sundance: Tangerine - um acontecimento tão palpável que a Academia já o imortalizou, colocando um dos iPhones que Sean Baker utilizou no Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Há 30 anos atrás, era Sexo, Mentiras e Video a revolucionar cineastas contemporâneos e futuros. 

Soderbergh usa o iPhone não como nova brincadeira de um miúdo de 7 anos, mas para enaltecer a claustrofobia da protagonista. Essa é a primeira vitória de Unsane, um thriller que joga inclusivé com o seu aspecto, colando-se estilisticamente a títulos cheesy/série B da década de 70 ou 80 (o plano final sendo a piscadela mais óbvia).

Não é o que aparenta ser que incomoda ultimamente aqui, mas sim o que se decide e quando se decide de um ponto de vista de storytelling, sobretudo face ao trailer entretanto divulgado. A certo ponto, a veia paranóica muito evidenciada na promoção esbate-se rapidamente; sabemos com o que contar. Se por um lado, este abrir do jogo não deixa de esconder uma atitude punk e antisistema, que, observando a carreira do cineasta, temos provas mais que suficientes da sua existência, por outro, acaba por retirar grande parte do suspense que a obra aparentava possuir, sobretudo quando esta envereda por um terceiro ato a ir mais de encontro à tal imagem de thriller básico de outros tempos... 

Sendo Soderbergh, ainda assim, um autor mais consistente do que se lhe é dado crédito, mantém-se aqui uma mensagem política forte quando se discute porque é que  Sawyer (Claire Foy, a mostrar que o seu talento é também visível em qualquer ecrã) se mantém assim retida - o dinheiro sempre a ser um motif, mais ou menos silencioso, na sua obra. E claro, é impossível não mencionar o facto deste ser o primeiro filme a ser rodado com a consciência do movimento #MeToo, sobretudo quando o assédio é a temática central aqui. 

Perante o que vai conseguindo fazer e o que tem para dizer, sobretudo ao longo da primeira metade, e pela entrega total da sua atriz principal, Unsane merece uma espreitadela nos videoclubes caseiros. E perante tanto lixo em material mais caro, custa a crer que não se tenha dado uma oportunidade a este filme que é no mínimo prova que podemos sim começar a pensar nos smartphones como meios completamente válidos para contar histórias.  

 

André Gonçalves

«Lean on Pete» (O Meu Amigo Pete) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Quantos cineastas se podem gabar de ter dois primeiros filmes como Weekend e 45 Anos? Não muitos, certamente. Daí que a expetativa para um novo filme de Andrew Haigh estivesse inevitavelmente alta.

Tendo já rompido com a bolha queer (não sem antes ter dado a já icónica série de televisão Looking) e demonstrado uma vontade de expandir horizontes com o anterior filme onde Charlotte Rampling questionava se os seus últimos 45 anos em conjunto não foram uma mentira aprendida, Haigh volta a mudar de contexto, indo agora para um adolescente de uma cidade rural que acaba por fazer amizade com um cavalo, como compensação para a disfuncionalidade da sua família.

Em Lean on Pete, o autor britânico oferece-nos duas narrativas bem clássicas do cinema norte-americano: o coming of age e o road movie, filtradas por uma cinematografia inescapavelmente bela e uma aura confiante de realismo social legitimada (Bresson em primeiro plano, irmãos Dardenne mais recentemente). Mas este enamoramento bem evidenciado pelo passado ameaça também seguir os piores vícios de quem está decidido a deixar a “lamechice” de parte – nomeadamente confundir subtileza (e pensar que se é mais subtil do que realmente é, é também considerado pecado capital para este escritor) com distanciamento emocional. Isto torna-se mais gritante quando os elementos não tão subtis estão claramente aqui a separar literalmente atos.

Por outro lado, o cinema já demonstrou que filmar relações entre cavalos e humanos não é tão fácil como filmar pessoas - nomeadamente no que toca a criar laços emocionais com o espectador, sem cair ou na lamechice ou num estado de anestesia. Assim de repente, no cinema recente, diria que só Robert Redford o soube fazer bem (O Encantador de Cavalos). Quanto menos falarmos do Cavalo de Guerra de Spielberg, melhor. Não deixa de ser irónico, que, perante uma personagem órfã da vida como esta – um festim típico para Spielberg, Haigh ofereça-nos algo nos antípodas, mas igualmente em falta para com o espectador que se esteja a marimbar para a técnica e queira emoção pura. Lean on Pete revela-se assim um filme anestesiado, tão enamorado pelas suas referências que se esquece que a rédea curta que mantém ao longo de duas horas não é suficiente para o payoff emocional que tenta possuir. E para complicar, com a jovem revelação Charlie Plummer (excluindo Travis Fimmel, em quinto plano) a revelar-se o único elemento do corpo de atores de classe A capaz de atribuir verosimilhança à história - felizmente este está em praticamente todos os planos do filme. Assim fica difícil nutrir mais que uma mera nota de respeito.

André Gonçalves

Jennifer Lawrence só conseguiu aguentar 3 minutos de «Phantom Thread»

A ronda de entrevistas por ocasião do lançamento de Red Sparrow (A Agente Vermelha) ameaça já tornar-se mais memorável que o filme em si. 

Apenas uns dias após ter revelado que saiu da escola aos 14 anos para perseguir a tempo inteiro a carreira de atriz, Jennifer Lawrence revela agora só ter aguentado 3 minutos de Phantom Thread (Linha Fantasma), o novo filme de Paul Thomas Anderson, pedindo ainda assim desculpa a todos os que amaram o filme. "Será apenas sobre roupas? Será ele um tipo de narcisista sociopata, e ele é um artista, portanto todas as raparigas se apaixonam por ele porque ele as faz sentir mal com elas mesmas e essa é a história de amor toda? Não vi, portanto não sei. Já viajei por esse caminho, por isso sei como é - não preciso de ver aquele filme". 

Após esta declaração, e tendo em conta que tanto em Phantom Thread como em mother!, temos dois artistas narcisistas e as musas que eventualmente os suportam, e que Jennifer Lawrence viveu um romance na vida real com Darren Aronofsky, o realizador do filme que protagonizou no ano passado, ficou desde logo tanto a ironia de Lawrence não ter aguentado um filme quando conseguiu aguentar mother! - de temática semelhante mas execução mais extrema, e a suspeita que a atriz estaria a falar do próprio Aronofsky na última frase do parágrafo anterior.  Lawrence clarificou que não era sobre Aronofsky a última parte. 

Phantom Thread está nomeado para 6 Oscars, incluindo para Melhor Filme e Realizador, e para bem do seu sucesso no próximo domingo, é bom que não hajam tantas pessoas em Hollywood a pensar como Jennifer Lawrence. O filme encontra-se atualmente em cartaz.

«Newness» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

 

Vivemos numa era de infinitas possibilidades, dizem-nos. No que toca a encontrar alguém que nos satisfaça, então, deixou de ser preciso de se sair de casa, para buscar um catálogo de avatares disposto a trocar conversa, imagens, localização, e sexo - virtual ou físico. Paradoxalmente, este excesso de oferta, este excesso de promessas de "intimidade" conduziu a uma crise do romantismo clássico - i.e. aquele vivido sobretudo no último século e meio, alimentado obviamente pela própria (sétima) arte: quando o amor está à distância de um movimento de polegar no telemóvel, para quê aguentar o aborrecimento ou o mínimo desentendimento de uma relação monogâmica dita tradicional?  

O realizador norte-americano Drake Doremus, graduado pela escola de Sundance, parece disposto a fazer carreira a cronicar vidas de casais jovens millennials. Começou por relatar uma primeira relação romântica tragicamente posta à distância que aparentava ir buscar ao seu próprio passado (Like Crazy), para depois evoluir para um futuro onde a demonstração de amor é proibida (Equals). Neste seu último Newness, não é que o amor seja proibido per se, mas este presente, que é claramente o nosso, não saberá já bem sequer distinguir o que possa isso ser a longo prazo. Os corpos deambulam pela grande cidade, em encontros consecutivos ao longo de uma noite, para depois voltarem às apps e retomarem a rotina nos dias seguintes.

O objetivo passa por distrair a atenção, e nunca tivemos a nossa atenção tão dispersa - se há algo para classificar este novo século pós-redes sociais é "crise de atenção". Parece ser esse o calcanhar de Gabi, uma jovem de raízes espanholas que vive pela excitação da novidade; um dia, encontra Martin, um outro jovem, entretanto já divorciado de um casamento curto. O plano inicial acaba por ser uma noite de convívio, longe do sexo rápido que ambos estão acostumados. Eventualmente, Martin convida-a para casa, e, no espaço de uns quantos encontros, oferece-lhe a chave para viver lá. Um romance típico parece florescer, que parece selado quando ambos decidem desinstalar a app de engate ao mesmo tempo, mas claro, não será tão fácil... 

Nos papéis deste casal estão Nicholas Hault (que já tinha sido o protagonista de Equals) e Laia Costa (Victoria), dotados de uma forte química no ecrã, e capazes de fazer valer os destinos por vezes questionáveis das suas personagens. Só por eles, valeu o investimento. Já Doremus, almeja claramente fazer aqui um filme que defina o "zeitgeist", um "Sexo, Mentiras e Tinder" por assim dizer (onde não falta até uma banda sonora minimalista/ambiente, com um tema proeminente), mas sai longe da marca seminal do filme de Soderbergh, que basicamente foi o pai do género "Sundance" (e portanto, o seu pai espiritual). Falta-lhe síntese, e um maior/melhor propósito - o filme dura duas horas, e mesmo assim, sentimos que a melhor exploração ficou na primeira metade, quando efetivamente, sob uma montagem ambígua, se hiperativa, o filme se torna um retrato fiel deste tempo frenético e frágil, e dos nossos comportamentos repetitivos e sem especificidade, simplesmente em busca de algo que nos faça temporariamente menos sozinhos (o copy paste de mensagens como "O que vais fazer esta noite" é particularmente emblemático).

Efetivamente, há decisões demasiado previsíveis também. O final, aparentemente otimista, questiona acima de tudo como é que um casal que sempre se aborreceu a partir do segundo ato desta película, vai continuar a aguentar-se. É certo que acabei por aguentar bem um filme que também me aborreceu aqui e ali após essa marca. Dito isto, haverá melhores possibilidades ao virar da esquina, espera-se.   


André Gonçalves   

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